Crítica

O tédio não mora aqui

O cartoon e a realidade lado a lado, os The Sunflowers como rock’n’roll para matar o aborrecimento da existência.

Os Sunflowers são banda às voltas com a cultura trash e com o tédio da existência
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Os Sunflowers são banda às voltas com a cultura trash e com o tédio da existência Rui Fonseca

Começar com uma explosão para chamar a atenção de todos, para dizer ao que vêem, para nos obrigar a virar a cabeça na sua direcção e não desviar os olhos do que se seguirá. Podia ser um concerto, mas é um disco. É o primeiro longa-duração dos The Sunflowers, ou seja, a dupla Carlos Jesus (guitarra, voz) e Carolina Brandão (bateria, voz), e responde pelo muito evocativo título The Intergalactic Guide To Find The Red Cowboy, que baptizaria na perfeição um filme série B de ficção científica realizado por Nathan Williams, dos Wavves, com Clint Eastwood e Bruce Campbell como protagonistas (quanto a concertos, vamos poder vê-los esta sexta, no Bô Bar, em Bragança, este sábado no Porta 11, em Monção, dia 3 de Março no Sé La Vie, em Braga, e 4 de Março no Vale de Pandora, em Vale de Cambra).

A viagem intergaláctica que não é um filme, é mesmo um álbum, começa com uma explosão em forma de 30 segundos de punkalhada acelerada, e já estamos todos a olhar para eles, para os Sunflowers, antes de chegar o riff rockabilly (alvíssaras aos Cramps, viva Jon Spencer) que nos avisa que sim, será mesmo melhor continuar a prestar atenção ao que se seguirá. “I’ve got the cool kid blues”, grita com voz distorcida Carlos Jesus enquanto Carolina dobra o grito com melodia mais harmoniosa.

Os Sunflowers são banda às voltas com a cultura trash e com o tédio da existência, são banda que celebra a salvação sob a forma de uma boa pizza, depois de de concluir, como tanta vez acontece, que as pessoas, no geral, podem ser uma seca do caraças – pelo meio, hão-de aparecer zombies a descer sobre a colina para se satisfazerem, como é de rigor, com o interior das caixas cranianas da Humanidade (aqui, afinal, o cartoon e a realidade andam lado a lado).

Lançam-se ao ar gritos soluçados à John Dwyer e cria-se uma massa sonora eléctrica a que o ritmo, aceleremos, dá forma. Criam-se pérolas de uma Motown reimaginada em garagem pouco apetrechada, mas os mestres da Motown nunca comporiam canções sobre um Post breakup stoner ou sobre um Charlie que passa o tempo a fumar erva, que não tem amigos e não faz surf (Charlie don’t surf).

Os Sunflowers são rockers desbragados sem pachorra para a contenção, bons adoradores do bom ruído (theremins e reverberações sobre as guitarras em rebuliço) e do riff tenso que se repete sob a cadência do baixo (Zombie é exemplar). A vida pode ser aborrecida, as pessoas podem ser, genericamente, um tédio, mas a conjugação dessas coisas pode originar coisas nada aborrecidas, sem pinga de tédio. Precisamente como as canções deste disco gloriosamente destravado.