E eis então que os Stone Dead fizeram um clássico rock'n'roll

Tudo começou com dois amigos de Pisões a decidirem que iam aprender a tocar bateria e guitarra. Ouviram muito, tocaram igualmente, e chegam a 2017 com Good Boys, álbum imaculado, um clássico rock'n'roll instantâneo. A banda apresenta-se ao Ípsilon.

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Portanto, o pai do Jonas tinha uma bateria. Estava velha, toda velha, mas serviria. E uma guitarra haveria de se arranjar algures. Na aldeia de Pisões, Alcobaça, os putos tinham a cabeça cheia de música e o corpo com sede de boa agitação. A culpa era da descoberta dessa insurreição chamada punk em discos dos Sex Pistols e dos Ramones, ou, via colecção caseira dos pais, dos Censurados ou dos Peste & Sida. Jonas Gonçalves ficou com a guitarra, Bruno Monteiro saltou para a bateria. Isto era há muito tempo, na década passada, quando os Stone Dead não tinham nome, quando não passavam de um embrião imaginado por dois putos adolescentes que não sabiam tocar guitarra ou bateria, mas que sabiam muito bem onde queriam chegar.

Portanto, estamos no Raiz Bar, em Ponta Delgada, na tarde de 8 de Abril de 2017. Naquela sala num primeiro andar, há corpos a chocalhar uns contra os outros, há gente empoleirada nas escadas, há gente que dança de sorriso aberto no rosto, gente que bate o pé, também de sorriso aberto no rosto, há pelo menos uma criança a bater palmas (quase) no ritmo certo. Foram todos contaminados por aqueles quatro em palco. Um, Bruno Monteiro, o baterista que também canta, chocalha mais que todos os outros, rebuliço de caracóis a agitar-se e a atacar as peles e os pratos com a felicidade descontrolada de um Keith Moon. Outro, João Branco, o guitarrista que também é vocalista, masca pastilha, ou melhor, tortura de forma inclemente a pastilha elástica enquanto dá corda às seis cordas com a coolness blasé, dança movida a choques eléctricos, do Wilko Johnson dos bons tempos dos Dr. Feelgood. Depois há Leonardo Batista, o baixista que movimenta as longas melenas com agilidade e descontracção entre o turbilhão, e há Jonas Gonçalves, o guitarrista que, quando não está a agitar riffs em modo convulsivo, segura as pontas com elegância.

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Aquilo não era exactamente um concerto: era um furacão rock’n’roll benigno a entrar-nos olhos e ouvidos dentro. Era uma banda que parecia ter subido a palco como se aquele fosse o último concerto de sempre e a sua vida dependesse dele – descobrimos depois que o cenário é semelhante sempre que sobem a palco. Uma banda que não só se apraz em não deixar pedra sobre pedra – isto é rock’n’roll, afinal de contas –, mas que demonstra igualmente uma engenhosa capacidade para cruzar elementos vários em busca dessa preciosidade a que chamamos canção. Os trauteáveis Supergrass a chafurdar no fuzz dos Stooges, a sageza pop dos Kinks a aromatizar as paisagens desérticas do stoner, fantasias de Syd Barrett a rodopiarem em pás de moinho (que são os braços de Pete Townshend a envolverem a guitarra naquele seu movimento icónico) e groove rhythm’n’blues bem encorpado, como nos ensinaram os Delta 72.

Aqueles eram já, e definitivamente, os Stone Dead. Como é que chegaram ali, vindos daquele ingénuo “tu vais aprender bateria, eu vou tocar guitarra” lá longe na década passada? E como é que chegaram a Good Boys, álbum imaculado, clássico instantâneo equilibrado com mestria entre garagem suada, estúdio onde se maquina inventiva arquitectura sónica e cabine onde se registam harmonias de voz bem afinadas? “Cada vez gosto mais do teatral, ou melhor, teatral não é bem a palavra. O que quero dizer é que não pode ser só uma banda a tocar música. Não é isso que quero quando vou ver um concerto. Quero que a malta sinta alguma coisa de diferente para além da música”. Bruno Monteiro, o baterista que também canta (e que mantém projecto paralelo aos Stone Dead enquanto Mr. Gallini), está a falar do que pretende transmitir quando a sua banda dá um concerto. Podia estar também a falar daquilo que os Stone Dead quiseram fazer com Good Boys, o seu álbum de estreia. Até porque, dito aquilo, acrescenta com um riso tímido. “Mas também não pensamos muito nisso. É mais curtir”. É, nota-se, e, registe-se, é ambição elevada este curtir deles.

Bruno Monteiro fala ao Ípsilon pouco depois de a banda ter chegado de uma digressão europeia, partilhada com os Killimanjaro, companheiros no catálogo da editora/promotora Lovers & Lollypops, sedeada no Porto. Passaram por Itália, Áustria ou Alemanha até chegar à Cróacia. Espanha, França e Holanda também já foram visitadas. Andar a percorrer a Europa de carrinha a tocar todas as noites em cidades diferentes – “tínhamos um motorista, foi o que nos valeu”, gargalha Bruno Monteiro –, merece um comentário muito honesto, muito directo: “É do caraças!”. De vez em quando, até aparecia alguém a dizer-lhes lá em terras distantes que tinha ouvido o álbum acabado de editar e que era realmente um óptimo disco, ficando atestado dessa forma o bom gosto desse dito alguém em matéria de rock’n’roll. Pequenas diferenças culturais à parte – “na Alemanha são mais fechaditos e na Galiza é onde nos tratam melhor, fartam-se de comprar merchandise, levam-nos ao restaurante e é ‘comam o que quiserem’, são como família” -, dificuldades de comunicação são inexistentes. A comunidade independente do rock, a dos pequenos clubes, das bandas a operar à margem do mediatismo de massas, fala língua semelhante. “Na verdade, é tudo a mesma coisa”, confirma Bruno. Good Boys, o álbum de estreia, é para todos nós e para todos eles.

Basicamente, isto é o começo

Foi gravado como álbum vagamente conceptual  – “pensámos bastante no Tommy, dos The Who”, confessa Bruno Monteiro – onde se acompanha a vida de um misterioso Tony Blue. “Os nossos últimos dois anos foram de grandes transformações, quer na nossa música, quer na nossa vida pessoal, e as canções reflectiam isso”, explica. “Umas eram mais calmas, outras mais pesadonas. Uma falava de tempos mais inocentes, outra de uma realidade mais madura. A forma que encontrámos para tornar tudo mais coeso e dar-lhe um sentido foi criar essa personagem e pô-la a viver essa evolução”.

O primeiro EP, editado em 2012, chegou e desapareceu de circulação. “Já não nos revemos muito naquilo e retirámo-lo da net. Fica para vender um dia mais tarde no eBay”. O segundo, The Stone John Experience, chegou em 2014 e podemos ouvi-lo no Bandcamp da banda. É uma colecção de cinco canções guiadas pelo peso distorcido do stoner rock e pela voz rasgada que nos legou Lemmy Kilmister com os Motorhead. “Quando começámos fomos beber muito ao stoner. Éramos putos e a cena stoner tinha um som do qual se bebia muito em Portugal. Com o tempo é que começámos a perceber que nos sentíamos melhor a compor de outra maneira”. De outra maneira? “Mais clássicos” é a resposta de Bruno. Mas não se leia esta ideia de classicismo como reverência ao que lá vai. Não é nada disso que ouvimos em Good Boys, álbum que devemos apreciar como o verdadeiro primeiro passo da banda. “Basicamente, isto para nós é o começo. Penso que este disco nos vai deixar orgulhosos. Pelo menos durante uns tempos”.

Recapitulemos. Em 2009, quando já sabiam o que fazer aos instrumentos, deram o primeiro concerto. Eram então banda de versões a tocar o punk português, os Beatles, os The Who. Da colecção de vinis do pai de Jonas Gonçalves, sacavam Pink Floyd ou Kinks para tirarem notas. Paralelamente, mergulhavam na net para escavar mais fundo. Um dia, Bruno ouve uma certa banda de um certo Iggy Pop e corre a anunciar a boa nova aos restantes. “Foi das nossas grandes influências desde o início, com aquele fuzz maravilhoso, mesmo porco, e todo o som de Detroit”. O lado corrosivo dos Stone Dead vem daí. O cuidado na estruturação das canções, em que acústico e eléctrico se unem para criar um corpo maior – e os coros a acompanhar o movimento -, em que uma canção pode conter duas ou três diferentes no seu interior (Mr. Moonchild é bom exemplo), nasceria da devoção pelo lado intrincado do rock britânico. Para que o cenário fique completo, falta o lugar. Esse lugar é Pisões, a aldeia às portas de Alcobaça onde a banda nasceu.

“Não tenho ideia de um grande movimento em Alcobaça. Lembro-me dos Sidewalkers [banda próxima do shoegaze], dos Black Leather [associados ao pós-punk], dessa malta da [promotora] Gaz, mas não há assim grande coisa. Isso até pode ter sido bom, porque assim sentimos necessidade de sermos nós a fazer”. Começaram a agendar concertos no bar de um amigo em Pisões, foram tocando e influenciando. Entretanto Jonas criou uma promotora, a Ya Ya Yeah, e o efeito multiplicador faz-se sentir. “Agora há pessoal mais novo que está também a formar bandas”. Mas desviamo-nos. De regresso a Good Boys.

O álbum de estreia dos Stone Dead foi gravado por Bruno Monteiro, Jonas Gonçalves, João Branco (vocalista e guitarrista) e Leonardo Batista (que substituiu João Santos, o baixista fundador, antes das gravações). A rodagem dos concertos que se foram sucedendo e o mais que iam ouvindo e ouvindo melhor, que os ajudou a perceber como modelar o som e a forma das canções, resultou num álbum em que o power-pop é grito de euforia (Blooze), em que baladas psicadélicas de olhos no espaço nos abraçam em canto comunal (Floating), em que o baixo nos entra colunas dentro para comandar o ataque rock’n’roll da canção com jam dentro que é Apple trees. Há rhythm’n’blues tumultuoso na faixa título e garage-rock hi-fi a recordar os Cato Salsa Experience na contagiante Candy. Há velhas canções de marinheiros transformadas na deliciosa fantasmagoria de Johnny Puke, o espírito de Syd Barrett a assomar em Lid routine e o de Lennon a sorrir, voz distorcida, entre o órgão e a guitarra de Another wine. Quando Turn around, a última canção, se despede, sobressai esta sensação rara de termos acabado de ser agitados e inspirados por uma banda que, aparentemente do nada, inventou um clássico. Não há adiposidades, não há tiros ao lado. Tudo certo. Obrigado, rock’n’roll. Obrigado, Stone Dead.