Pedro Burmester, Mário Laginha, A Forma do Nada a Vir, The Parkinsons
A carreira internacional da banda de Coimbra não esmoreceu: os Parkinsons acabam de regressar de uma digressão europeia que os levou a Espanha, França e Reino Unido VERA MARMELO

Viver é uma tarefa difícil, mas os Parkinsons sabem como fazê-lo

The Shape of Nothing to Come é o álbum de regresso dos Parkinsons. Quase duas décadas depois do início, depois da loucura britânica, continuam rápidos e vorazes. E assinaram um disco com travo a clássico.

“Os Parkinsons sempre viveram assim”, diz Victor Torpedo. Assim? Assim: “A vida depois da morte, a morte depois da vida”, explica o guitarrista, antes de clarificar que “ainda bem, porque as coisas continuam frescas, com energia, vivas” – depois da morte, depois da vida e por aí fora. Os Parkinsons, nascidos em Londres e figuras de proa da cena britânica no início do século, capas de toda a imprensa musical, presença desejada nos maiores festivais, influência determinante para tipos como os Libertines, que só queriam ser como eles, falam ao Ípsilon desde Coimbra, a cidade onde congeminaram a história que começou a ser contada no outro lado do Canal da Mancha. À conversa estão Victor Torpedo e o baixista Pedro Chau, dois fundadores, e João Silva (Jorri), teclista que começou a colaborar com a banda há cerca de três anos, antes de se tornar um Parkinson a tempo inteiro.

Acabam de editar The Shape of Nothing to Come, álbum que põe fim a um silêncio discográfico de seis anos – Back to Life foi o título do álbum anterior, o do regresso à formação de Afonso Pinto, o vocalista fundador – e acabam de ver editado em DVD A Long Way to Nowhere, o documentário realizado por Caroline Richards, e estreado em 2016, que conta a história da primeira vida da banda, quando, formados por Victor Torpedo, Afonso Pinto, Pedro Chau e o baterista escocês Chris Low, tomaram a Inglaterra de assalto com concertos em que tudo podia acontecer (e acontecia mais do que se julgava possível), quando perigo e euforia caminhavam lado a lado, quando uma energia niilista e uma crença inabalável no poder transformador do punk e do rock’n’roll tocaram o coração de todos os que os viram. Caroline Richards foi uma dessas pessoas: viu-os uma vez em concerto e comprou uma câmara de filmar no momento seguinte; foi inspirada por eles e pela sua música que decidiu trabalhar em cinema. Lá estavam então os Parkinsons no primeiro álbum, editado em 2002, a vociferar It’s a long way to nowhere. E cá estão os Parkinsons do álbum editado em 2018, a anunciar The shape of nothing to come – há aqui um padrão.

Tínhamos os Parkinsons daqueles primeiros anos a excitarem e a provocarem, a agitarem a modorra que mata aos poucos e a tornarem-se um com o público, como se não houvesse diferença entre eles e a banda – somos todos feitos da mesma massa, pareciam dizer, honrando os mandamentos éticos do punk. “E desde que ela nos mostrou o filme, já podia ter sido feito um segundo. Isso é que o pior”, ri Victor Torpedo. De facto.

Temos os Parkinsons década e meia depois do filmado por Caroline Richards, locomotiva rock’n’roll insaciável, toda ela celebração do momento, corpos em palco e corpos fora dele unidos num grito comum – todos juntos a fazerem do presente o único sítio que interessa, enquanto não chega esse futuro em forma de nada. Overweight, uma das canções de The Shape of Nothing to Come, tem uma frase que resume tudo: “Living is a hard job” – os Parkinsons sabem-no muito bem e estão aqui para ajudar a levantar esse peso sobre a existência. Quando falam com o Ípsilon, acabam de regressar de uma digressão europeia que os levou a Espanha, França e Reino Unido. “Nos últimos anos temos tocado bastante em Portugal, também no Reino Unido, mas nunca nos aventurámos a sério por Espanha ou França, por exemplo. O Afonso continua em Londres e é difícil conciliarmos tudo”, explica Pedro Chau. E que aconteceu desta vez? O habitual com os Parkinsons. Conhece-se a fama da banda, vai-se a um concerto, vê-se Afonso Pinto a voar sobre a multidão, ouvimo-lo cantar naquele ar esgazeado que é imagem de marca, vemos o sorriso de Torpedo enquanto o tronco nu se move num frenesim, Pedro Chau lá estará no seu espaço, sereno na elegância discreta, e agora há Jorri nas teclas e há um baterista, Ricardo Brito, 19 anos, que podia ser filho deles todos e que toca com ferocidade.

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A carreira internacional da banda de Coimbra não esmoreceu: os Parkinsons acabam de regressar de uma digressão europeia que os levou a Espanha, França e Reino Unido VERA MARMELO

“A maior parte das pessoas já teria ouvido falar de nós e também ajuda que o DVD tenha saído recentemente, mas é mesmo o momento do concerto que tem influência”, diz Pedro Chau. “A mensagem foi logo sendo passada e, através do boca-a-boca, fomos agrupando mais gente.” Tanto que, à última hora, surgiu convite para concerto extra e lá foram os Parkinsons acrescentados ao cartaz do Cosmic Trip, festival realizado em Bourges. “Living is a hard job”, mas eles sabem bem como viver. Rápido e segundo os seus próprios termos. Enquanto os Parkinsons estiveram em pousio, entre 2005 e 2010, os seus membros mantiveram-se activos. Victor e Chau, ainda em Londres, criaram os Blood Safari, Afonso os Johnny Throttle. Já depois de regressarem a Portugal, descobrimos os Ghost Hunt de Pedro Chau e os Tiguana Bibles de Victor Torpedo, em paralelo à sua actividade a solo, apresentada ao vivo como o Victor Torpedo Karaoke Show.

Os Parkinsons, porém, são uma entidade com vida própria, com a sua própria personalidade. “De certa forma, os Parkinsons estão sempre em modo sobrevivência e não queremos outro”, diz Victor Torpedo. “Esta banda é muito desorganizada e só funciona mesmo na disfunção. Nesse aspecto, é um caos completo, mas mesmo assim, quando é para fazer, é para fazer a sério.” The Shape of Nothing to Come é consequência disso.

Um álbum com sabor a clássico

No início era o espírito dos Stooges e dos Dead Boys actualizado e disparado numa golfada de energia à beira do descontrolo – assim os ouvimos na crueza de Long Way to Nowhere. Depois de álbuns como Reason to Resist (2005), com Victor Torpedo a assumir o papel do vocalista após a saída de Afonso Pinto, e do supracitado Back to Life, em que contaram com o regressado Afonso Pinto e, na bateria, com Kaló (antigo companheiro de Victor Torpedo nos Tédio Boys e nos Tiguana Bibles, fundador dos Bunnyranch e actualmente nos The Twist Connection), ouvimo-los agora menos sôfregos e menos minimalistas na composição, com teclados e percussões a ampararem a voz zangada, irónica, de Afonso Pinto, em canções em que a guitarra combina um prazer pela melodia com o ataque rock’n’roll que é imagem de marca da banda. Do nervo percutivo de Overweight ao pub-rock para canto comunal de Do you know, da turbulência libertadora de Metal cranes ao ambiente neurótico de Heavy metal, guitarra a zumbir e a faiscar, batida seca a avançar, compassada, os Parkinsons assinam um álbum de destaque na sua discografia, um álbum com travo a clássico.

Normalmente, conta Victor Torpedo, os álbuns são gravados muito rápido – “arrancados a ferros” é a expressão utilizada. Neste caso, explica Jorri, músico que também podemos ouvir, por exemplo, nos A Jigsaw ou nos Birds Are Indie, havia a vantagem de terem em Coimbra um estúdio disponível para gravarem com tempo, o Blue House, onde trabalha o teclista. “Houve a vantagem de termos um sítio onde podíamos ir experimentando coisas calmamente, em vez daquela urgência de ir para um estúdio dois ou três dias e, depois, sai o que sair”, explica. “Já sabíamos que haveria uma mudança, outro estilo na parte rítmica, os coros e as teclas, mesmo nas guitarras uma abordagem diferente, coisas que existiam pontualmente nos outros álbuns, mas que desta vez foram imaginadas logo de início." Claro que, ao bom estilo dos Parkinsons, tudo se precipitou no final: “É como diz o Victor, há este caos que faz parte da banda e depois tudo tem de acontecer muito rápido.” Estava tudo encaminhado, mas longe de finalizado e, “de repente, em duas semanas tem de se resolver” o disco inteiro. E resolveu-se, como se resolve sempre, com a urgência de sempre. Cá está, então The Shape of Nothing to Come.

Quase em final de conversa fala-se da estreia de A Long Way To Nowhere em Londres. Conta-se do impacto que foi reverem-se no ecrã e do ambiente que rodeou a projecção – “percebi que as pessoas não gostam simplesmente da música, gostam genuinamente da banda e do que representa”, diz Jorri. Filme visto, seguiram todos para um concerto a poucos quarteirões de distância. “Fizemos questão de voltar ao sítio onde demos o nosso primeiro concerto, no Gaz Rocking Blues, em St. Moritz”, conta Pedro Chau. Jorri, que acompanhou à distância esta história, antes de se tornar parte dela, sentiu naquele momento que, de certa forma, foi como que “recomeçar tudo, mas 20 anos depois”.

Será, mas há coisas que não mudam. Victor Torpedo aborda See no evil, a canção que abre o novo álbum. Dela fazem parte versos como “good corruption is a way of living/ bad money, lying on your ceiling”, antes do refrão irónico – “I see no evil in you”. Victor Torpedo diz que os Parkinsons reflectem “este mundo assombroso, negro e corrupto, mas sempre com uma esperança entre o desespero”. Jorri afirma que sentiu o mesmo ao ver o filme de Caroline Richards. “Aconteceram tantas coisas, tantos contratempos, mas no fim há sempre isso, essa esperança.” O vazio está lá à frente, mas não chegará enquanto os Parkinsons continuarem a fazer-lhe frente da única forma que sabem. Enfrentando-o olhos nos olhos, rápidos e vorazes, gloriosamente disfuncionais.