Brasil é de Bolsonaro: “Capitão chegou” para “restabelecer a ordem nesse país”

Ex-militar tomou posse como Presidente, celebrou aniquilamento do socialismo e prometeu combater as “ideologias nefastas”. “A nossa bandeira jamais será vermelha”, jurou.

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Jair e Michelle Bolsonaro acenam à multidão Reuters/RICARDO MORAES
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Milhares de brasileiros juntaram-se em Brasília para assistir à tomada de posse EPA/MARCELO SAYAO

Primeiro dia do ano, primeiro dia da nova era da vida política brasileira. Três meses depois de receber a confiança (e o voto) de quase 58 milhões de eleitores, o ex-capitão Jair Bolsonaro tomou posse, esta terça-feira, em Brasília, como 38.º Presidente da República Federativa do Brasil, pondo um ponto final em 13 anos de governos do Partido dos Trabalhadores (PT) e em dois anos de presidência Temer. Uma data que o novo chefe de Estado decretou como “o dia em que o povo começou a libertar-se do socialismo” e que o povo que foi assistir à festa celebrou com gritos de “mito”.

Numa cidade blindada e debaixo do “maior dispositivo de segurança de sempre”, segundo os media brasileiros, Bolsonaro foi recebido por centenas de milhares de brasileiros em êxtase, que cantaram, festejaram, choraram e apinharam-se para ver o “capitão” e a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, ao longo do trajecto que percorreram durante uma tarde rica em protocolo, acenos, sorrisos, momentos solenes e promessas.

Na Câmara dos Deputados do Congresso Nacional, onde teve lugar a cerimónia e o juramento que inauguraram o seu mandato presidencial – bem como o do vice-presidente, o general Hamilton Mourão –, Jair Bolsonaro começou o seu discurso, “curtinho” e contido, agradecendo a Deus, “por estar vivo”, e aos médicos que o operaram, pelo “milagre”, na sequência do esfaqueamento durante a campanha eleitoral.

“Fortalecido, emocionado e profundamente agradecido a Deus e aos brasileiros”, o novo Presidente recuperou as promessas de campanha para reassumir o seu compromisso no combate à “corrupção”, à “criminalidade”, à “irresponsabilidade económica” e à “submissão ideológica”, tendo sempre como pano de fundo os “valores da família” e a “herança judaico-cristã”. 

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, repetiu vezes sem conta, ao longo do dia. 

O homem que, durante a campanha presidencial, ameaçou “metralhar” e “prender” opositores e que jurou acabar com os “coitadismos” dos negros, das mulheres, dos homossexuais e dos nordestinos, assumiu que quer agora ajudar a construir “uma sociedade sem discriminação e sem divisão”, para que “o Brasil se encontre com o seu destino”.

Mas mais tarde, na varanda do Palácio do Planalto, depois de ter acenado à multidão a partir do “velhinho” Rolls-Royce descapotável usado por tantos outros presidentes, e de ter recebido de Michel Temer a faixa presidencial, o 38.º Presidente do Brasil optou por deixar a contenção à porta, ao som do cântico “capitão chegou”​.

“Restabeleceremos os padrões éticos e morais que transformarão o nosso Brasil. A corrupção, os privilégios e as vantagens vão acabar. Os favores partidarizados devem ficar no passado para que o Governo e a Economia sirvam de verdade à nação. Tudo o que faremos a partir de agora tem um propósito: os interesses dos brasileiros em primeiro lugar”, prometeu Bolsonaro. “Mito, mito, mito”, respondeu-lhe a multidão. 

No dia em que anunciou que o Brasil foi libertado “do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correcto”, o Presidente também rugiu contra a “ideologização das crianças”, a “desconstrução das famílias” e a “ideologia que defende bandidos e criminaliza polícias”. E piscou o olho à liberalização do acesso às armas. “Vamos restabelecer a ordem nesse país”, afiançou.

No final do discurso e com a bandeira do Brasil nas mãos, o “capitão-presidente” lançou a provocação derradeira contra o passado recente do cargo: “Esta é a nossa bandeira e jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso o nosso sangue para mantê-la verde e amarela!”. A multidão gostou e insistiu: “Mito, mito, mito”.

Brasília blindada

Para a tomada de posse de Bolsonaro foi montado um gigantesco dispositivo de segurança em Brasília. Entre policias, bombeiros e militares do Exército, da Marinha e da Força Aérea, foram mobilizados e distribuídos pela Esplanada dos Ministérios e por outros pontos do Distrito Federal cerca de 12 mil efectivos.

O aparato incluiu o posicionamento de agentes infiltrados entre os que assistiram às cerimónias, a presença de franco-atiradores nos telhados e a instalação de armamento antiaéreo.

A Esplanada dos Ministérios foi “reforçada” com arame farpado e as ruas mais próximas foram cortadas ao trânsito. As restrições na circulação em Brasília abrangeram igualmente o lago Paranoá. Todas as embarcações foram impedidas de ancorar a uma distância inferior a 100 metros da ponte Juscelino Kubitschek e a 50 metros das restantes pontes.

Os que quiseram acompanhar de perto a tomada de posse do militar na reserva tiveram de se deslocar para o local a pé e passar por quatro pontos de controlo e de revista, instalados pelas forças de segurança. 

Esfaqueado durante a campanha eleitoral, num comício em Juiz de Fora, estado de Minas Gerais, o novo Presidente do Brasil foi obrigado a vestir um colete à prova de balas por baixo da roupa.

Ausências e presenças

Tal como tinham anunciado nos últimos dias do ano, Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB) não se fizeram representar na tomada de posse de Bolsonaro por deputados e senadores.

O partido de Lula da Silva, Fernando Haddad e Dilma Rousseff tinha referido, em comunicado, que a decisão de não enviar os seus parlamentares não teve a ver com um não-reconhecimento do resultado das presidenciais de Outubro pelo PT, mas com o processo que levou à eleição de um político “vinculado a um programa de retrocessos civilizacionais”.

“O processo eleitoral de 2018 foi descaracterizado pelo golpe do impeachment [a Dilma Rousseff], pela proibição ilegal da candidatura do ex-presidente Lula e pela manipulação criminosa das redes sociais para difundir mentiras contra o candidato Fernando Haddad”, acusa o PT, o partido que, com 56 eleitos, foi o que conseguiu uma maior representação na Câmara dos Deputados nesta muito fraccionada legislatura, que se inicia a 1 de Fevereiro. 

“O resultado das urnas é facto consumado, mas não representa aval a um Governo autoritário, antipopular e antipatriótico, marcado por abertas posições racistas e misóginas, declaradamente vinculado a um programa de retrocessos civilizacionais”, refere ainda.

Quem também não foi ao Palácio do Planalto para a tomada de posse foram os ex-presidentes Dilma Rousseff e Fernando Henrique Cardoso – Lula também não esteve em Brasília, está detido em Curitiba, na sequência da condenação no âmbito da Operação Lava-Jato

Por outro lado, os antigos chefes de Estado Fernando Collor de Mello e José Sarney acederam ao convite de Bolsonaro e estiveram na cerimónia. E com eles Marcelo Rebelo de Sousa (Presidente da República), Benjamin Netanyahu (primeiro-ministro de Israel) ou Viktor Órban (primeiro-ministro da Hungria) – os dois últimos trocaram abraços calorosos e tiraram fotografias com Bolsonaro no momento dos cumprimentos.

Em representação dos Estados Unidos esteve Mike Pompeo (secretário de Estado). Donald Trump não foi a Brasília, mas apressou-se a felicitar Bolsonaro, via Twitter, pelo “excelente discurso”, pouco depois da sessão plenária. O Presidente brasileiro gostou do que leu e entre romarias no Rolls-Royce, dedicou o seu primeiro tweet “presidencial” ao chefe de Estado norte-americano: “Senhor Presidente Trump, agradeço suas palavras de apoio. Juntos, sob a protecção de Deus, traremos mais prosperidade e progresso para nossos povos!”.