O Brasil de Bolsonaro quer ser o melhor amigo de Trump

Política externa brasileira vai sofrer várias inflexões com o novo Presidente. Aproximação aos EUA e a Israel serão alterações de peso. Arquitectura das alianças da América do Sul vai sofrer desvio à direita.

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A questão da Venezuela vai criar um dilema para Jair Bolsonaro Adriano Machado/REUTERS

As primeiras viagens ao estrangeiro do Presidente Jair Bolsonaro serão ao Chile e aos Estados Unidos - e Israel está a seguir na agenda, anunciou Onyx Lorenzoni, o deputado federal que deverá tornar-se chefe da Casa Civil. As escolhas ilustram a guinada que acontecerá na diplomacia brasileira.

Todos os presidentes após a redemocratização do Brasil preferiram manter distância em relação aos Estados Unidos, para não serem constrangidos a tornar-se um peão da grande potência do Norte, por exemplo nas políticas de luta contra o narcotráfico.

O Presidente eleito, que toma posse a 1 de Janeiro em Brasília, vai tentar inverter esse posicionamento. “Bolsonaro tentará uma aproximação com Donald Trump. Se ele terá boa recepção na Casa Branca ou não é impossível prever de antemão”, disse ao PÚBLICO, por e-mail, Matias Spektor, professor de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas e autor de livros como 18 Dias, sobre como a diplomacia do Presidente Fernando Henrique Cardoso, no fim do seu mandato, ajudou o Presidente eleito Lula da Silva a ser aceite na Casa Branca em 2002, então ocupada por George W. Bush.

“O que já sabemos é que [o ideólogo do populismo de extrema-direita] Steve Bannon e boa parte do grupo que trabalha com Trump entende que Bolsonaro é um expoente do populismo nacionalista que acaba de ser regiamente premiado com uma sólida maioria eleitoral. No primeiro momento, a reacção do Governo americano a Bolsonaro é positiva”, diz Spektor. Trump classificou de "excelente" o telefonema que fez a felicitar Jair Bolsonaro.

As áreas privilegiadas de cooperação com os Estados Unidos e com outros países do continente americano devem ser a segurança das fronteiras e o combate ao nacrotráfico e ao crime organizado, diz Spektor. “O meu palpite é que a reacção inicial dos governos das principais economias — Argentina, Chile, Colômbia — será positiva em relação a Bolsonaro.” 

Se Fernando Henrique Cardoso pôs a tónica nas relações com as potências do Norte do mundo ocidental, um dos principais eixos da diplomacia brasileira nos anos de governação do Partido dos Trabalhadores (PT) era dar prioridade à cooperação Sul-Sul, em especial com países latino-americanos e africanos. Com Bolsonaro, haverá uma inflexão.

Paulo Guedes, o guru para a Economia de Bolsonaro, criticou nesta segunda-feira as restrições do bloco Mercosul – que está a negociar um acordo comercial com a União Europeia – e disse que em vez de acordos multilaterais vai privilegiar os acordos bilaterais, seguindo a política da Administração Trump. Bolsonaro tinha dito que vai procurar "comércio sem viés ideológico".

Bolsonaro alinha também com Trump na guerra comercial à China. "A China não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil", disse o Presidente eleito numa entrevista à Bandeirantes. 

A crise venezuelana – que entrou nas fronteiras brasileiras sob a forma da vaga de refugiados que chegaram ao estado de Roraima, em fuga do país de Nicolás Maduro – tornou-se uma arma contra o PT na campanha eleitoral, porque o partido de Lula da Silva não condenou de forma clara o regime de Caracas.

Ao mesmo tempo, cresceram os apelos para uma intervenção contra o regime de Maduro – defendida pelor Luis Almagro, secretário-geral da Organização de Estados Americanos, e por alguns sectores da Administração norte-americana. Bolsonaro nunca se comprometeu mas, numa visita aos refugiados venezuelanos em Roraima, disse que faria “o que for possível para aquele Governo lá ser destituído”.

“A questão da Venezuela tende a criar um dilema para Bolsonaro”, comenta Matias Spektor. Por um lado, a denúncia do regime chavista é plataforma central do Presidente eleito. Por outro, os recursos de que o Brasil dispõe para ter efeito prático nessa área são muito limitados. A questão venezuelana será uma área da diplomacia na qual é possível esperar convergência entre Bolsonaro e Maurício Macri”, Presidente da Argentina, prevê. 

Uma mudança importante será a aproximação a Israel. Bolsonaro, admirador de Israel, cuja tecnologia agrícola acredita poder transpor para o semi-árido Nordeste brasileiro, anunciou que mudará a embaixada brasileira para Jerusalém, acompanhando a iniciativa dos EUA. Mas isso não deve ser para já. “A aproximação a Israel tende a ocorrer, no início, na área empresarial, sobretudo empresas de segurança, controlo cibernético e tecnologia de satélites”, explica Matias Spektor.

“Outros avanços na agenda político-diplomática com Israel que afastem o Brasil de suas posições mais tradicionais de equidistância no Oriente Médio dependerão de quanto Bolsonaro está disposto a entrar em choque com a comunidade sírio-libanesa brasileira”, diz o especialista em relações internacionais.

Por outro lado, Bolsonaro e a sua equipa também falam em construir um novo Itamaraty (Ministério dos Negócios Estrangeiros), suspeito de manter um foco exagerado no multilateralismo. O que também foi feito pelo Presidente Trump nos EUA.