EUA inauguram embaixada com festa em Jerusalém e tensão em Gaza

Nos cartazes espalhados pela cidade lê-se que "Trump Make Israel Great". Na euforia Netanyahu anunciou que vai construir "para este, oeste, norte e sul, em todas as direcções”. Perante os sinais pessimistas e com o processo de paz congelado, os palestinianos arriscam tudo para manter a sua causa nos media internacionais.

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David M. Friedman, Donald Trump, Ivanka Trump, Embaixada dos Estados Unidos, Tel Aviv, Estados Unidos
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"Não incendeiem Jerusalém", pediu uma mulher no desfile do Dia de Jerusalém Baz Ratner/Reuters

A mudança da embaixada americana de Telavive para Jerusalém, um movimento simbólico que mudou uma política de décadas e rompeu com o consenso internacional sobre Jerusalém – cidade com um estatuto especial porque israelitas e palestinianos a querem para capital – acontece nesta segunda-feira  num momento de extremos dos dois lados.

Em Jerusalém Ocidental, o ambiente é de festa. Neste domingo, parte da baixa da cidade, toda em azul e branco e cheia de bandeiras, parou para cantar e dançar: grupos de jovens religiosos, abraçados, dançavam aos pulos e cantavam músicas emblemáticas do país, brandindo bandeiras; no meio da Jaffa Street, uma mulher de saltos altos fazia uma coreografia com duas grandes bandeiras, deixando turistas embasbacados e adolescentes em risinhos. Placards e autocarros declaravam em letras brancas sobre fundo azul: “Trump Make Israel Great”.

É o Dia de Jerusalém, o aniversário sobre a conquista da parte oriental da cidade por Israel na guerra de 1967 (que foi depois anexada, uma decisão nunca reconhecida internacionalmente).

E foi neste contexto que chegavam ao país os representantes norte-americanos para a inauguração da embaixada, Jared Kushner, conselheiro de Trump, e a sua mulher, Ivanka, a filha do Presidente.

O apoio internacional a esta mudança é bastante reduzido. Da União Europeia, só a Áustria, Hungria, Roménia e República Checa estiveram numa recepção neste domingo no Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita. Os dois primeiros países têm no poder políticos de direita e extrema-direita que já foram acusados de anti-semitismo, mas que querem manter boas relações com Israel.

Para a cerimónia desta segunda-feira, foram convidados 86 embaixadores e encarregados de negócios, 40 dos quais aceitaram, mas a maioria dos Estados europeus não irá. 

De resto, Guatemala, Paraguai e Honduras já anunciaram que vão também mudar as suas embaixadas para Jerusalém. Desde os anos 1980 que a cidade tinha apenas duas embaixadas e a última saiu em 2006; mantiveram-se apenas alguns consulados.

Eurovisão e expansão

Para "inaugurar" o Dia de Jerusalém, o primeiro-ministro israelita dirigiu-se aos seus ministros na reunião do Governo do início da semana (que em Israel começa ao domingo), dizendo “Bom toy dia (um dia muito bom). Foi uma referência ao tema Toy, da cantora israelita Netta que venceu, na véspera, o festival Eurovisão da canção, que teve lugar em Lisboa. Foi uma vitória importante porque traz o festival para Israel no próximo ano – Netanyahu já anunciou que Jerusalém é a cidade que o recebe – e aconteceu apesar de uma campanha de boicote do movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções).

Netanyahu aproveitou todo este balanço para anunciar um plano “para construir e desenvolver Jerusalém, para este, oeste, norte e sul, em todas as direcções”.

Para marcar a diferença e mostrar que esta não é uma decisão com apoio unânime entre israelitas, o movimento Peace Now terá nesta segunda-feira um sinal perto da nova embaixada dos EUA dizendo “Duas embaixadas para Jerusalém – um interesse para Israel”. A organização argumenta que esta mudança decidida por Donald Trump despreza a pretensão palestiniana e o seu custo será que o conflito que não terá fim. “Se alguma vez houver uma solução de dois Estados, é preciso ter em conta a posição israelita e a palestiniana.”

"Este é o resultado da colaboração de um Presidente a quem não interessa nada o que se passa aqui com um Governo que não quer saber do futuro da cidade", disse ao PÚBLICO o responsável da organização New Israeli Fund, Mickey Gitzin. Para este activista, a mudança da embaixada pode ter "muito apoio público” e  fortalecer o primeiro-ministro. Mas "também cria uma situação mais frágil por ser uma medida unilateral". 

"Running the show"

Depois de anos e anos de conversa sobre um processo de paz inexistente, a solução de dois Estados (um israelita e outreo palestiniano) parece mais longe do que nunca, e os palestinianos numa situação especialmente difícil. Estão divididos, com uma liderança - a Fatah, na Cisjordânia - envelhecida e preocupada com auto-preservação, e outra, o Hamas, acossada pelas consequências de mais de dez anos de isolamento e um bloqueio quase total em Gaza. Faltam constantemente água potável, electricidade, e cuidados médicos.

Com a decisão de mudar a embaixada, os Estados Unidos vêm dar um passo decisivo para a pretensão israelita, sem considerar a posição palestiniana.

Ao dizer que a embaixada passava de Telavive para Jerusalém, Trump anunciou o reconhecimento de “uma coisa que já é a realidade”. As suas palavras levaram muitos a temer que, de seguida, reconheça os colonatos judaicos em território ocupado (ilegais, segundo a lei internacional) porque também são uma realidade, e que a situação regional continue a manter-se a favor de Israel.

O Presidente norte-americano disse também que em breve anunciaria um plano de paz – ele que se vê como um mestre em conseguir bons acordos (de negócios), prometeu o “acordo do século”, ou seja que faria a paz entre israelitas e palestinianos.

Ninguém está a suster a respiração e os líderes palestinianos já disseram que recusam qualquer papel de mediador dos Estados Unidos depois da embaixada em Jerusalém. Acusam Turmp de falta de neutralidade por nem sequer ter mencionado que os palestinianos reclamam a parte oriental da cidade para capital de um futuro Estado.

Até a data escolhida para a inauguração da embaixada pelos EUA (o gabinete de ligação com os jornalistas de Israel deixa claro nas suas comunicações com a imprensa que são os americanos quem manda: “The Americans are running the show”) foi vista como problemática. Embora coincida com a data do aniversário dos 70 anos do Estado judaico no calendário ocidental, este já tinha sido antes comemorado em Israel, que segue o calendário hebraico. Assim, vai acontecer na véspera da data em que os palestinianos assinalam a Nakba, ou catástrofe, que ocorreu quando muitos fugiram ou foram expulsos das suas casas e terras após a criação do Estado hebraico, tornando-se refugiados.

Tendas nos hospitais

E tem sido com o mote dos refugiados que na Faixa de Gaza tem decorrido o protesto chamado Grande Marcha do Retorno, que pede o direito de regresso destes refugiados às suas terras. O protesto começou pacífico mas a aproximação dos manifestantes à barreira que separa Gaza do Estado hebraico e a presença de militantes do Hamas deixou Israel nervoso.

As autoridades israelitas deixaram claro que não permitiriam que ninguém atravessasse a fronteira, e atiradores posicionados do outro lado têm disparado sobre quem se aproxima – morreram já mais de 40 pessoas e centenas ficaram feridos, muitos com pernas amputadas, no que motivou fortes críticas de grupos de defesa dos direitos humanos.

O ambiente em Gaza é de especial tensão por se prever uma tentativa de passagem da fronteira, promovida pelo Hamas e antecipada para segunda-feira para coincidir com a abertura da embaixada. O Hamas, no poder no território, fez subir a expectativa de que irá haver uma tentativa de passar a barreira que separa Gaza de Israel.

Os maiores hospitais da Faixa de Gaza estão não só em alerta máximo (e as suas condições são já péssimas por causa da falta de electricidade – só há durante quatro horas por dia –, medicamentos e de materiais, tudo isto por causa do bloqueio de Israel e do Egipto), como foram ainda erguidas tendas com camas extra fora dos edifícios principais. Estão prontas para receber um grande número de feridos, caso a passagem da separação dos territórios aconteça mesmo.

“Está toda a gente em suspenso”, dizia na sexta-feira Mohammed abu Nusabeh, do Crescente Vermelho, enquanto chegavam manifestantes que iam sendo tratados sobretudo por terem sido expostos a gás lançado pelos soldados israelitas. “Estamos a tentar estar preparados, com cinco postos médicos nos cinco pontos principais da marcha, 60 ambulâncias, e mais de 900 membros do pessoal e voluntários”.

Mas a organização está preocupada com duas coisas. Deverá haver concentrações junto da barreira em mais pontos além dos cinco assinalados. E se alguns passarem para o lado israelita? "Como vamos lá buscar alguém que esteja ferido sem sermos nós atingidos?", pergunta Mohammed abu Nusabeh.

O nervosismo mostra-se ainda no grande número de postos de controlo do Hamas em várias estradas de Gaza, e também pelos comentários que são feitos no posto de fronteira quando os jornalistas saem do território. São tantos os repórteres a entrar e a sair por estes dias - há já muito tempo que não havia tantos jornalistas no território palestiniano. A Marcha do Retorno pôs a questão palestiniana de novo nos media internacionais.

"Estamos aqui para dizer ao mundo que este é um país ocupado, e já não há países ocupados no mundo”, disse Huda Elian, responsável do comité que junta todas as facções palestinianas na Marcha, e também pela parte das mulheres.

Para aliviar a tensão, o Egipto abriu o posto de Rafah, deixando passar alguns casos humanitários graves. Mas é muito pouco para soltar toda a pressão acumulada em Gaza. O Hamas fomentou a ideia de que os jovens devem tentar passar a barreira e eles estão cheios de energia e querem agir. Se voltar atrás, o movimento islamista arrisca-se a ver os protestos pelas terríveis condições em Gaza virarem-se contra si.