O cerco ao "Russiagate" ganha força, mas os muros de Trump ainda resistem

O mês de Dezembro tem sido um dos mais importantes em quase dois anos de investigações sobre as suspeitas de interferência russa nas eleições de 2016. Mas as possíveis consequências para Trump continuam a depender do Partido Republicano.

Michael Cohen foi advogado pessoal de Donald Trump durante uma década
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Michael Cohen foi advogado pessoal de Donald Trump durante uma década Reuters/Jonathan Ernst
Michael Flynn foi o primeiro conselheiro de Segurança Nacional da Administração Trump
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Michael Flynn foi o primeiro conselheiro de Segurança Nacional da Administração Trump Reuters/Jonathan Ernst
Paul Manafort foi um dos directores da campanha de Donald Trump
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Paul Manafort foi um dos directores da campanha de Donald Trump LUSA/SHAWN THEW
Jared Kushner e Ivanka Trump
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Jared Kushner e Ivanka Trump LUSA/Chris Kleponis / POOL

Dez anos antes de Donald Trump ter sido eleito Presidente dos Estados Unidos, no final de uma campanha marcada por suspeitas de interferência russa, os seus filhos mais velhos, Donald Jr. e Ivanka, fizeram uma visita a Moscovo para tentarem perceber se havia parceiros interessados na construção de uma gigantesca torre – a mais alta em toda a Europa – na capital russa. Durante uma visita guiada ao Kremlin, patrocinada por um multimilionário russo, Ivanka quis entrar no gabinete de Vladimir Putin e sentar-se na cadeira do Presidente. O que aconteceu a seguir foi contado por Felix Sater, o homem em quem Trump confiava para fazer negócios em seu nome no estrangeiro, e que acompanhou Donald Jr. e Ivanka naquela visita: "Deixaram-nos entrar e ela sentou-se atrás da secretária e rodopiou na cadeira duas vezes."

O episódio, contado num artigo do site norte-americano Buzzfeed sobre as tentativas de negócio do império Trump na Rússia, pode parecer desinteressante – afinal, quem não aproveitaria a oportunidade de rodopiar duas vezes na cadeira de um dos líderes mais poderosos do mundo, nem que fosse só para contar a façanha aos amigos, já que partilhar uma fotografia no Instagram seria certamente desaconselhado?

Mas este e outros episódios, que começaram a ser revelados em Maio pelo Buzzfeed e que desde então foram noticiados também por jornais como o New York Times e o Washington Post, compõem um cenário que não era conhecido pela maioria dos eleitores norte-americanos durante a campanha para as presidenciais de 2016: durante anos, desde finais da década de 1980, Donald Trump tentou levar a sua marca – o seu nome bem visível na fachada de arranha-céus e casinos – para o topo de um edifício em Moscovo mais alto do que o Empire State Building e maior do que qualquer outro na Europa.

O factor Cohen

O fascínio do magnata do imobiliário por uma das cidades com mais magnatas em todo o mundo serve também para explicar a importância de um recente desenvolvimento na investigação sobre a interferência russa nas eleições de 2016.

Na semana passada, o antigo advogado pessoal de Donald Trump, Michael Cohen, declarou-se culpado de mentir ao Congresso sobre a mais recente tentativa da Organização Trump de entrar no mercado russo – precisamente durante a campanha presidencial de 2016, que viria a resultar na eleição de Trump e em relação à qual existem suspeitas de interferência russa em seu benefício.

No ano passado, Cohen disse às comissões de inquérito da Câmara dos Representantes e do Senado que, de facto, tinha tratado de uma oportunidade de negócio em Moscovo em nome de Trump, em conjunto com Felix Sater, mas disse também que essas negociações foram curtas e que não deram em nada.

Segundo a primeira versão de Michael Cohen, tudo se passou entre Setembro de 2015 e Janeiro de 2016, quando ainda nem sequer tinham começado as duras primárias do Partido Republicano – uma outra forma de dizer que a campanha eleitoral ainda não tinha arrancado a todo o gás e que, por isso, não fazia sentido falar-se em conflito de interesses e ligar essas negociações empresariais às suspeitas de interferência russa. Para além disso, Cohen garantiu que nem Trump nem os filhos foram mantidos ao corrente das negociações.

Só que a investigação criminal sobre as suspeitas de interferência russa, lançada pouco depois da chegada de Trump à Casa Branca e liderada pelo procurador especial Robert Mueller, foi apertando o cerco à volta de vários elementos próximos de Donald Trump, como Michael Cohen.

E o que foi descoberto entretanto sobre muitos deles – em assuntos relacionados com fugas ao fisco e outros crimes não relacionados com a campanha eleitoral de 2016 – levou-os a optarem por fazer um acordo: em troca de uma recomendação de sentença reduzida, vão contando o que sabem sobre as comunicações entre elementos da campanha eleitoral de Donald Trump e o Governo russo.

E assim chegamos a quinta-feira da semana passada, o dia em que o antigo advogado pessoal de Donald Trump entrou num tribunal de Manhattan para admitir que mentiu nas suas declarações ao Congresso.

Afinal, diz agora Cohen, ele e Felix Sater andaram a negociar com um funcionário do Governo russo a construção de um arranha-céus em Moscovo até meados de Junho de 2016 – depois das últimas primárias, quando já se sabia que Donald Trump iria ser consagrado como candidato oficial do Partido Republicano à Casa Branca.

Para além disso, não só Trump e a família foram informados sobre os passos das negociações, como Michael Cohen planeou uma visita a Moscovo por essa altura e fez preparativos para uma possível visita do próprio Donald Trump à capital russa no Verão desse ano.

É claro que não basta a palavra do procurador Robert Mueller para que os tribunais decidam em que versão de Michael Cohen devem acreditar – é por isso que nos documentos entregues na semana passada ao tribunal, os investigadores incluíram trocas de emails e outros registos que, segundo eles, provam que Cohen está agora a dizer a verdade.

"Os factos que Cohen admitiu não provam que Trump conspirou com os esforços russos para garantir a sua eleição", escreveu o jornal New York Times num editorial. "Mas refutam a alegação frequente e veemente de Trump de que ele não teve nada que ver com a Rússia enquanto estava a concorrer à Casa Branca."

Fim de ano atribulado

Este mês de Dezembro está a ser marcado por importantes desenvolvimentos na investigação do procurador Robert Mueller.

Para além da confissão de Cohen na semana passada, esta terça-feira o primeiro conselheiro de Segurança Nacional da Administração Trump, Michael Flynn, ficou a saber que os investigadores estão tão gratos pela sua colaboração que pediram ao tribunal uma sentença muito leve no seu caso. Flynn foi o primeiro a aceitar colaborar com os investigadores, no ano passado, depois de ter mentido ao FBI.

Nos documentos entregues em tribunal esta terça-feira, por entre grandes pedaços de texto censurados, lê-se que Flynn foi determinante para o trabalho dos investigadores no caso das suspeitas de interferência russa e que está também a colaborar em outras duas investigações, cuja existência não era conhecida até agora, mas das quais não foram publicados pormenores.

O general na reforma saiu da Casa Branca poucos dias depois de ter entrado em funções, quando se soube que tinha mentido ao vice-presidente e ao FBI sobre o teor das conversas que teve com o então embaixador russo em Washington no período de transição entre a eleição e a tomada de posse.

Nessas conversas, segundo os relatos dos media norte-americanos, Flynn pediu ao embaixador que Moscovo não respondesse às sanções impostas pela Administração Obama à Rússia por causa da interferência na campanha eleitoral, em troca da promessa de retirada dessas sanções assim que a Administração Trump entrasse em funções.

A par de Cohen, Flynn é uma das testemunhas mais importantes para os investigadores, devido ao seu passado recente de ligações à Rússia. Depois de ter sido despedido pelo Presidente Obama da liderança dos serviços secretos militares, em 2014, fez consultoria para empresas russas e, em Dezembro de 2015, sentou-se ao lado do Presidente Vladimir Putin numa gala do grupo de media russo Russia Today, tendo recebido 45 mil dólares.

Ainda esta semana, na sexta-feira, a equipa do procurador Mueller vai dizer ao tribunal que outra das figuras importantes nesta história – Paul Manafort, antigo director de campanha de Trump –, mentiu aos investigadores depois de se ter comprometido a colaborar e que, por isso, merece uma pena pesada no seu caso. Manafort é acusado de fraude fiscal e bancária, entre outros crimes.

Perto do fim?

Quer isto tudo dizer que o procurador Mueller está prestes a apresentar um relatório com provas sólidas de que a campanha de Trump e o Governo russo trabalharam em conjunto para protegerem os interesses de ambos? Ou que a insistência de Trump em ver o seu nome num arranha-céus em Moscovo, e as suas declarações de admiração por Vladimir Putin durante a campanha, levaram a Rússia a ajudá-lo a ser eleito Presidente dos Estados Unidos para acelerar o regresso ao tabuleiro das grandes decisões mundiais?

Para alguns analistas, quem espera ver um relatório com respostas a estas e outras perguntas, e com provas irrefutáveis de que Trump cometeu crimes, pode esperar sentado.

Por um lado, é difícil que o procurador Mueller, conhecido por não se desviar dos regulamentos, passe por cima do entendimento histórico do Departamento de Justiça e insista em querer levar um Presidente em exercício a tribunal; por outro lado, para que um relatório comprometedor para Donald Trump pudesse ter consequências políticas – um impeachment, por exemplo –, é preciso que o Partido Republicano se vire contra o seu Presidente.

É por isso que Mikhaila Fogel e Benjamin Wittes, especialistas do blogue Lawfare e da Brookings Institution, defendem que nem a admissão de culpa de Cohen, nem a colaboração de Flynn, são momentos de viragem nas investigações. São, acima de tudo, duas importantes investidas num cerco à Casa Branca que começou há um ano e meio, e que ninguém sabe como vai acabar – e que inclui investidas contra Paul Manafort; uma empresa de trolls russos acusada de espalhar desinformação; 13 espiões russos acusados de roubar e-mails da campanha de Hillary Clinton e de os entregar à Wikileaks; e uma linha de investigação sobre tentativa de obstrução da Justiça por parte do Presidente norte-americano.

"Quando forem abertas brechas no muro, como saberemos que é mesmo o princípio do fim?", questionam-se Mikhaila Fogel e Benjamin Wittes na revista Atlantic.

"Quando houver um impeachment", respondem. "Quando suficientes republicanos se afastarem do Presidente, pondo em risco as suas hipóteses de reeleição ou renomeação. Os desenvolvimentos legais vão desgastar os muros. Mas só um aríete político pode derrubá-los."