O clã dos Santos já foi intocável. Mas deixou de o ser

Com a saída de José Eduardo dos Santos da Presidência de Angola, os seus descendentes ficaram sem os cargos que ocupavam nas principais esferas do Estado. E há processos judiciais pelo meio.

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© SIPHIWE SIBEKO / Reuters

Desde que João Lourenço assumiu a presidência de Angola, a família dos Santos, que era a mais poderosa de Angola, começou a ser afastada dos centros de influência política e empresarial que ocupava. O patriarca, José Eduardo dos Santos, governou o país durante 38 anos, e os filhos tinham nas mãos as principais empresas e instituições financeiras de Angola.

José Eduardo dos Santos

Presidente de Angola entre 1979 e 2017. Saiu da presidência e, em Setembro deste ano, foi substituído por João Lourenço na liderança do MPLA. Alguns dos aliados mais próximos de José Eduardo dos Santos, para além dos filhos, foram afastados do Governo e do bureau político do MPLA. O presidente da Fundação Eduardo dos Santos, Ismael Diogo, foi detido em Setembro na sequência de uma investigação a uma apropriação indevida de 20 milhões de dólares (cerca de 17 milhões de euros). Neste processo, foi também detido Augusto Tomás, antigo ministro dos Transportes.

O ex-Presidente angolano tem dez filhos de várias mulheres. Casou pela primeira vez com a russa Tatiana Kukanova, com quem teve a primeira filha, Isabel. De Filomena de Sousa teve um filho, José Filomeno. De Maria Luísa Perdigão Abrantes teve a filha Welwitschia “Tchizé” e José Eduardo Paulino. De Maria Bernarda Gourgel teve José Avelino. Por fim, com Ana Paula Lemos, que foi primeira-dama de Angola desde 1991, teve quatro filhos (Eduane Danilo, Joseana, Eduardo e Houston). Esta relação terminou recentemente e Ana Paula mudou-se para os arredores de Lisboa.

Isabel

É a mais velha dos filhos e a mais poderosa. Recentemente foi considerada a mulher mais rica de África. Comprou a empresa de telecomunicações Unitel (os accionistas estão a pressionar para que se afaste da gestão) e o Banco de Fomento de Angola. Durante anos, participou nos grandes negócios em Portugal, possuindo participações na Galp, no BIC ou controlando a NOS.

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Em 2016 foi nomeada para o mais estratégico dos seus cargos, administradora da petrolífera e maior empresa estatal de Angola, a Sonangol. Com a chegada de Lourenço à Presidência, foi exonerada.

Há anos que a sua vida se divide entre Londres, Portugal e Angola. No entanto, há meses que não pisa solo angolano, passando a maior parte do seu tempo na capital inglesa.

A má relação com o actual Presidente angolano é evidente desde que foi exonerada da Sonangol. Na altura da sua saída fez várias críticas públicas e, esta semana, voltou a atacar Lourenço, afirmando que Angola está perto de “uma crise política profunda”.

José Filomeno (“Zenú”)

Ocupava um alto cargo no Estado angolano. Em Janeiro deste ano foi afastado da liderança do Fundo Soberano de Angola, cargo para que foi nomeado em 2013. Com esta saída deixou de haver descendentes de Eduardo dos Santos em cargos de responsabilidade em Angola.

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Em Setembro foi detido preventivamente num processo em que é suspeito de uma transferência ilícita de 500 milhões de dólares (406 milhões de euros) para o Reino Unido, sendo acusado de associação criminosa, tráfico de influência, burla e branqueamento de capitais.

José Eduardo Paulino

Tem como alcunha “Coréon Dú”, que serve como nome artístico, já que é também cantor, director criativo e produtor. Fundou a produtora Semba Comunicação, que assinou uma série de contratos com o Estado angolano durante a governação do pai, entre os quais um para gerir os canais da Televisão Pública de Angola, nomeadamente a TPA Internacional e do Canal 2.

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Quando João Lourenço foi empossado, esses contratos foram revogados.

Welwitschia “Tchizé”

Além de deputada e membro do comité central do MPLA, tem uma carreira de empresária que vai da banca à indústria dos diamantes, passando pelas telecomunicações, sendo accionista da produtora fundada pelo irmão, José Eduardo Paulino.

Com a revogação dos contratos da Semba, perdeu a posição que detinha na Televisão Pública de Angola.

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Em 2011 foi uma das muitas personalidades angolanas alvo de queixas-crime pelo antigo embaixador angolano em Portugal, Adriano Parreira, num caso que envolvia um desvio de fundos do erário público angolano para Portugal. Começou, por isso, juntamente com a irmã Isabel, a ser investigada pelo Ministério Público português.

Eduane Danilo

Com apenas 26 anos, é um dos accionistas maioritários do Banco Postal de Angola, criado em 2016 e do qual o Estado angolano detém metade da participação através do Ministério da Tecnologia, do banco BCI e dos Correios de Angola.

No ano passado deu nas vistas durante um leilão de caridade em Cannes, ao comprar um relógio no valor de 500 mil euros. Will Smith, actor norte-americano, que estava no palco, ficou impressionado e disse ao microfone: “Eles parecem demasiado jovens para terem tanto dinheiro”.

Joseana

Tem 23 anos e também tem uma participação minoritária no Banco Postal de Angola e na empresa Deana Day Spa, cuja proprietária é a mãe, Ana Paula Lemos. Mas Joseana é a outra artista da família e tem causado furor na girl band angolana Black Fofas.

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