38 anos de equilíbrios e poder

Com lealdades em forma de notas, José Eduardo dos Santos manteve a longevidade do seu poder.

Foto
Após a morte em 10 de Setembro de 1979 de Agostinho Neto, Eduardo dos Santos chegou a Presidente num quadro peculiar de líder acidental. Reuters/STRINGER

No passado fim-de-semana, José Eduardo dos Santos apareceu na campanha eleitoral num propósito propedêutico. “É ao lado da bandeira do MPLA que têm de pôr a cruzinha”, disse. Com esta explicação, o ainda Presidente dá as últimas instruções ao eleitorado e prolonga a sua tutela embora, ao fim de 38 anos de equilíbrios e cimentação do poder, já não concorra a um novo mandato.

Após a morte em 10 de Setembro de 1979 de Agostinho Neto, Eduardo dos Santos chegou a Presidente num quadro peculiar de líder acidental. Pela simples razão de não ter poder cimentado e grupo. Era discreto, terá sido subestimado, e os vários candidatos à sucessão anularam-se com os seus anticorpos.

Como uma bissectriz, José Eduardo dos Santos alcançou o poder. Mas não foi por qualquer determinismo geométrico que o seu percurso impar de longevidade no poder é apenas superado pelo ditador Teodoro Obiang da Guiné Equatorial. Se havia um défice de quadros negros no MPLA, também não era menos verdade que no final da década de 70 do século passado se vivia o auge da guerra fria. Eduardo dos Santos era negro, marxista-leninista e defensor do partido único.

Sobreviveu à queda do muro de Berlim e à reviravolta da geopolítica, aliou a formação de engenheiro de petróleos à experiência como ministro das Relações Externas. Utiliza a arma do petróleo, negoceia com os Estados Unidos, fragiliza a UNITA, recebe Valéry Giscard d´Estaing em Luanda… Os acordos de Nova Iorque de 1988 permitiram a retirada simultânea dos sul-africanos e cubanos de Angola e a independência da Namíbia. Angola afirma-se como potência regional.

Com o fim da guerra em 2002, a migração de quadros para o mundo económico transforma em empresários de sucesso antigos generais, cujas empresas estão ancoradas à volta da monocultura do petróleo. O Presidente é a “cabeça” de uma nova Angola, “pai” de uma burguesia nacional herdeira do triunfo militar, que distribui o poder económico aos vencedores, o que atenuou tendências.

Nasce, assim, um país de controlo da decisão política por um núcleo cujo vértice é o Presidente. Com lealdades em forma de notas, José Eduardo dos Santos manteve a longevidade do seu poder. A queda a partir de 2012 dos preços de barril do petróleo evidenciou as fragilidades do sistema que privilegiou camadas sociais das cidades, agravou as desigualdades e transformou o “esquema” – práticas económicas informais – em corrupção. É este o seu legado.