As Matriarcas
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As Matriarcas

Carolina quer contar ao Instagram as histórias das matriarcas do “Norte do Norte”

Uma ex-gestora de projectos no Reino Unido passeia-se de bicicleta pelas aldeias do Alto Minho e de Trás-os-Montes e Alto Douro. Procura falar com as mulheres que já muito viveram. O resultado é a conta de Instagram As Matriarcas, que ainda pode resultar num livro.

Foi voltar de Londres, dizer olá, dar o adeus e ir para o “Norte do Norte”. À sua espera estavam as portas abertas de quem queria falar, conversas com histórias dentro, rostos cujas rugas anunciavam capítulos narrados devagar e dez minutos que se transformavam em horas. Carolina Mesquita, de 28 anos, quis saber das memórias das “mulheres fortes a quem não se dá valor, com histórias de vida duríssimas que não aconteceram há muito tempo”. Hoje, são as protagonistas do “projecto-paixão” de Carolina: As Matriarcas, uma página no Instagram que é um livro, um arquivo e um diário de bordo ao mesmo tempo.

PÚBLICO -
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A aventura de Carolina começou a 16 de Setembro, em Valença. A. Henrique Maia

Não é a primeira vez que a lisboeta procura descobrir relatos em primeira pessoa de desconhecidos. Fê-lo na capital britânica, para onde partiu em Janeiro de 2015. Lá, era gestora de projecto de uma startup. Para se aproximar de “cá”, foi conhecendo as pessoas que por ela passavam na rua e que falavam português. “Sempre gostei de escrever e fotografar, e em Londres retratei a comunidade portuguesa e falantes de língua portuguesa”, explica-nos. Onde? Em Little Portugal, uma região no Sul de Londres, casa dos primeiros emigrantes portugueses das décadas de 60 e 70, que partiram sem canudos nas mãos. Não foi o caso de Carolina, nem será o de muitos que por lá fazem a sua vida – e quebrar o estereótipo do “português sem formação” foi uma das missões do Little Portugal Project, para o qual a gestora também foi entrevistada antes de entrar na equipa.  

Agora, com As Matriarcas, quer mostrar o que há para lá de uma imagem formatada. “Sinto que se desvaloriza o trabalho destas senhoras”, começa por dizer, expondo os motivos que a levaram a calcorrear os terrenos acidentados das aldeias nortenhas. “Muitas delas foram trabalhar para a lavoura, mas também trabalhavam em casa, e acha-se que, por isso, estas mulheres não têm histórias.” Portanto, fez-se à estrada: e de bicicleta (pelo menos nos primeiros tempos). O avô ia a Espanha e Carolina aproveitou a boleia. Saiu em Valença, tirou a bicicleta da mala e fez-se ao caminho. “Nas primeiras três semanas viajei sem pressas. Não fiz plano nenhum, não falei com organismos municipais, nada”, conta. “Foi tudo muito ao acaso, e viajar é isso.”

Falar faz cair muros

Para além de pedalar durante horas no calor de Setembro, acampava “onde pudesse ou em parques de campismo”, e saía de manhã cedo para outra aldeia.  “Nunca sabia como ia ser o dia seguinte, se conseguia pedalar durante três ou quatro horas, mas sentia-me segura.” Depois, passou a mover-se de carro, mas considera ambas experiências “bastante interessantes.”

Chegar a determinada aldeia nem sempre foi fácil – aliás, imprevistos (previstos por quem conhece a terra) como “um conjunto de vacas no meio da estrada” ou “a falta de rede em Sistelo” mudaram a rota, mas o desencontro trouxe outros achados. “São aldeias e aldeias por este país fora com pessoas que em breve não vão cá estar, e que têm muito para nos dizer.” Como a Dona Amélia Teixeira, proprietária da “Casa Grande” de Sonim, Vila Real, que não quis ver os filhos emigrar, como os vizinhos fizeram. Lá ainda viu “blocos de madeira para prensar as uvas à antiga.” Carolina também participou na vindima da Dona Deolinda, pisou as uvas e provou o vinho. Voltou com uma certeza: “Quanto mais pequena a aldeia for, mais acolhedoras as pessoas são.” E apesar do despovoamento, das terras votadas ao abandono e de, por vezes, pouco mais de um café e uma capela existirem para além de casas, “há um grande sentido de comunidade e de partilha”, mesmo não se sabendo o que ali vai haver “em 20 anos, se ninguém se preocupar.”

“Ao início, quando me viam, deviam pensar que era uma maluca que por ali andava de bicicleta”, supõe. A verdade é que a conversa derrubava as barreiras e as desconfianças das mulheres que Carolina queria entrevistar. “As pessoas abrem-se. Acabam por desabafar, falavam de tudo: dos filhos, de como era dura, a vida. Quase todas elas choravam”, recorda. “Talvez lhes seja mais fácil para elas falar com um estranho sobre a vida.” E em todas as histórias vê interesse; por isso, diz que “sim” a qualquer matriarca que queira falar com ela.

Ao P3 disse “sim” numa pausa do projecto. “Estou a organizar as histórias todas, porque, para além do Instagram, gostava que isto resultasse num livro”, revela. Depois, partirá novamente para o Norte à caça de outras histórias noutros sítios (ainda) por ela desconhecidos. Carolina não tem família do Alto Minho nem de Trás-os-Montes e Alto Douro, mas tinha a obra de Miguel Torga a mostrar-lhe o caminho. Hoje, diz saber uma coisa: “Guerreiro é quem fica.”