Sánchez rompe relações com Casado por ter sido chamado "golpista"

O líder da oposição, Pablo Casado (PP), disse que o presidente do Governo, o socialista Pedro Sánchez, é "participante e responsável pelo golpe de Estado que se está perpetrando em Espanha". E o verniz estalou entre ambos.

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Pablo Casado durante a sua intervenção no debate desta quarta-feira LUSA/ZIPI

Estalou o verniz entre o socialista Pedro Sánchez, presidente do Governo espanhol, e Pablo Casado, do Partido Popular (PP) e líder da oposição. Esta foi a frase que provocou a discórdia: “Você é participante e responsável pelo golpe de Estado que se está perpetrando em Espanha”. Foi dita por Casado a Sánchez e o tema era o independentismo catalão. O socialista pediu que o seu rival político se retractasse. Não o fez e, na noite desta quarta-feira, a relação entre ambos acabou.

Nesta quarta-feira debatia-se no Congresso espanhol o “Brexit” e as relações comerciais com a Arábia Saudita, na sequência da morte do jornalista Jamal Khashoggi. Se o ambiente político em Espanha já andava particularmente crispado nos últimos tempos - principalmente depois de Sánchez ter aprovado uma moção de censura, em Maio, com o apoio do Podemos, dos nacionalistas bascos e dos independentistas catalães, para derrubar o Governo de Mariano Rajoy – durante a discussão parlamentar, o caldo entornou.

Segundo o El Mundo, alguns dos deputados espanhóis mais veteranos dizem que desde 2005 que não se via um debate tão violento, quando Rajoy, então líder da oposição, acusou o primeiro-ministro José Luiz Zapatero de “trair os mortos” e “revigorar uma ETA [organização terrorista basca] moribunda”.

Na sua intervenção, que durou 25 minutos, Pablo Casado puxou dos galões e disparou contra Sánchez: “Está sentado no banco azul do Governo graças aos votos dos independentistas”. “Não se dá conta de que é participante e responsável pelo golpe de Estado que se está perpetrando em Espanha?”, acrescentou o líder conservador.

Sánchez sentiu-se ofendido com o que ouviu e pediu que Casado retirasse a acusação “inaceitável”: “Mantém que sou participante ou responsável pelo golpe de Estado? Pode fazer oposição, criticar o Governo, mas não insulte, não difame e não calunie.”

Perante a recusa de Casado em retirar as acusações, Sánchez atirou: “Se as mantém [as acusações], você e eu não temos mais nada para falar.”

À noite, já depois das 23h, fontes do Governo informaram a imprensa espanhola que a relação entre os dois líderes políticos terminou mesmo: “As relações com o presidente do PP, Pablo Casado, foram rompidas. Consideramos que perdeu o respeito institucional.”

As mesmas fontes acrescentaram que o que rompeu foram as relações entre Sánchez e Casado e não entre os partidos que ambos representam. Ainda assim, é provável que os dois líderes precisem de se sentar à mesma mesa num futuro próximo para discutir a forma de enfrentar os intentos independentistas da Catalunha.

A reacção de Casado chegou já na manhã desta quinta-feira, afirmando que o Governo tem a “pele muito fina” e questionando  porque é que Sánchez não rompeu as relações com os líderes catalães.

“A [José Maria] Aznar chamaram assassino, a Rajoy, indecente, por não vigiar a conduta dos autarcas. E resulta que não, nós não podemos dizer que um Governo é responsável se não apaziguar qualquer tentativa de golpe de Estado que se dá numa região. É uma vitimização na qual ninguém acredita. Porque é que Sánchez não rompe com Puigdemont [antigo presidente da Generalitat que se autoexilou na Bélgica], Torra [actual presidente da Generalitat] e Otegui [do partido nacionalistas e independentista basco, Bilduo]”

“Não sei o que é romper relações, não é entre família ou vizinhos. O Governo tem uma pela muito finda”, acrescentou o conservador, considerando ainda esta situação “insólita”.