Rajoy sai derrotado pela democracia e pela soberba

“Foi uma honra ser presidente do Governo e deixar Espanha melhor do que a encontrei”, afirmou o líder dos conservadores, que terá de abandonar a Moncloa até domingo. Essa é agora a casa do socialista Sánchez, que tentará governar com 84 deputados.

Rajoy aplaudido ao abandonar o Congresso, depois da moção de censura
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Rajoy aplaudido ao abandonar o Congresso, depois da moção de censura Sergio Perez/Reuters

O que esta sexta-feira aconteceu em Madrid pode ser visto como um ajuste de contas com a história: afinal, em 2016, os barões socialistas tiveram de expulsar Pedro Sánchez da liderança para o impedir de negociar com o Podemos, optando por uma “abstenção responsável” que permitiu a Mariano Rajoy ser investido com o apoio dos Cidadão e da Coligação Canária. Assim governou ano e meio.

Ajuste ou não, Rajoy foi derrotado por uma moção de censura, a quarta tentada e a primeira conseguida em 40 anos de democracia. O que significa que o homem que insistiu sempre que por ter sido o mais votado tinha de estar no poder foi derrotado pelos votos, ou seja, pela democracia: os partidos que apoiaram a iniciativa do líder socialista somam quase mais um milhão de votos do que os partidos que a ela se opuseram, PP e C’s.

“Em democracia, governa quem ganha as eleições”, repetiu, ainda sem acreditar no que lhe estava prestes a acontecer, na quinta-feira de manhã, antes de virar costas ao Congresso e de acompanhar a segunda parte do debate sobre a moção num restaurante de Madrid. Não, numa democracia parlamentar governa quem obtém mais apoios no Parlamento.

Sánchez lembrou a Rajoy que os governos em minoria já são norma em grande parte da Europa, defendendo a legitimidade do executivo que vai formar, apoiado só por 84 deputados, sem esconder que se trata de um caminho repleto de obstáculos.

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Sánchez arriscou e venceu, reunindo os apoios para derrotar Rajoy JJ Guilen/EPA

Rajoy também foi derrotado pela mentira – ou pela insistência em viver numa realidade paralela. Na parte do debate em que participou, repetiu mentiras sobre o caso Gürtel, insistindo que o Partido Popular não fora condenado, apenas “determinados militantes” (a Justiça descreve o partido como agente da corrupção, referindo-se à rede como “um autêntico sistema de roubo do erário público”). Há nove anos que este caso era conhecido, mas Rajoy usou a maioria absoluta que teve entre 2011 e 2016 para recusar responder por ele até no Congresso, garantindo que se tratava de “uma conspiração contra o PP”.

Entretanto, ia perdendo ministros, presidentes de câmara e líderes de regiões autonómicas, enredados neste e noutros processos de corrupção, tantos, que envolviam o núcleo duro do partido e que abarcam quase três décadas.

Entretanto, também usou e abusou do discurso do medo. Medo do Podemos, de Pablo Iglesias, medo da instabilidade de novas eleições, medo de um governo ainda mais minoritário do que o seu, como o que se prepara para formar Sánchez, medo de quem negoceia com independentistas (como se ele não o tivesse feito no passado) no meio do processo catalão. Quando necessário, mentindo, responsabilizando a moção de censura pelas quedas na bolsa e subida dos prémios de risco (valor que os investidores estão dispostos a pagar pelos títulos da dívida), quando a lógica dita que o principal motivo foi a instabilidade em Itália.

Eu ou o caos

No debate, foi displicente com Sánchez e arrogante como sempre. Não ofereceu um único motivo para que os deputados recusassem afastá-lo, repetindo que a escolha se fazia entre ele e “o caos” ou o “apocalipse” – territorial, social, económico…

“É você, agarrando-se ao cargo, que assume a autoria da moção”, disse-lhe Sánchez, depois de lhe pedir pele enésima vez que se demitisse. Esta foi a moção da rede Gürtel e começou com Albert Rivera. Os 32 deputados do C´s bem podem ter votado ao lado do PP, mas foi Rivera quem anunciou, logo depois da sentença, há duas semanas: “Esta não é mais uma sentença. Há um antes e um depois”, afirmou, dizendo que o partido teria de “avaliar” a sua relação com o Governo durante o resto da legislatura.

Percebe-se a recusa de Rajoy em demitir-se, para lá da soberta. Fazê-lo seria deixar o PP sem líder e o caminho aberto para o C’s disputar a hegemonia da direita – não nas sondagens, onde vence, mas onde essas se confirma ou desmentem, as urnas. Agora, no PP, culpa-se Rivera. A partir da próxima semana começará a perceber-se se o líder da oposição vai ser aquele que tem uma bancada de 137 deputados ou o que conta apenas com 32.

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Rivera durante o debate da moção de censura JJ Guillen/EPA

“Foi uma honra ser presidente do Governo e deixar Espanha melhor do que a encontrei”, afirmou o líder dos conservadores, quando surgiu de novo no Congresso, meia hora antes da votação que o fez cair. É cedo para um balanço tão cabal. É verdade que os dados macroeconómicos lhe dão razão. Mas ele não deixa de ser o primeiro-ministro que permitiu impunidade face à corrupção nem que o levou a questão catalã a extremos inauditos.

A vida numa bolha

Rajoy viveu numa espécie de bolha, uma realidade paralela onde só entram os seus principais colaboradores. Como aqueles que agora o tentam convencer a ficar e a liderar a oposição, certos que Sánchez vai durar pouco e que os populares podem regressar em breve ao poder. Às vezes, a realidade de Rajoy parecia mesmo ser partilhada por todos, bastava que o chefe de Governo se limitasse a ver a TVE e a ler determinados jornais – El País, El Mundo –, aqueles que em 2016 ajudaram a empurrar Sánchez para fora do PSOE, os mesmos que na última semana reclamavam eleições antecipadas mas davam por morta a moção de censura dos socialistas.

Com 14 anos de liderança do PP, sem ter conseguido terminar um segundo mandato, Rajoy tem poucos dias para decidir o seu futuro. Ou para tentar, pelo menos, ter uma palavra a dizer sobre isso. Na terça-feira, reúne o Comité Executivo Nacional do partido. Teimoso e seguro de si, com 37 anos de experiência política, é provável que combata até ao fim pela liderança do PP e pela possibilidade de acabar o que pensa ter deixado a meio.

Eleito com uma maioria confortável no meio da crise europeia e no pós-15 M, fenómeno de protesto que viria a dar origem ao Podemos e ao fim do bipartidarismo, Rajoy abraçou as políticas de austeridade que levaram o desemprego para máximos históricos e não evitaram que recorresse a um fundo europeu de empréstimo para garantir a liquidez dos bancos.

O balanço na liderança do PP é mais fácil de fazer e é arrasador. Hoje, o PP conserva a governação de cinco comunidades autónomas (em 17), quatro delas com o apoio do C’s. Se pensarmos em cidades, temos de chegar à sexta mais populosa para encontramos um autarca do partido, Saragoça. O último barómetro do CIS (Centro de Investigações Sociológicas), com base em inquéritos feitos antes da sentença Gürtel, dava ao PP 24%, o seu mínimo histórico.

Segundo uma sondagem feita para o jornal El Confidencial na quarta-feira, 54% dos espanhóis apoiava a moção de censura. Dito e feito: Rajoy tem até domingo para abandonar a residência oficial do primeiro-ministro, o Palácio da Moncloa.