Beijar ou não beijar os avós: o que está, afinal, em causa?

Obrigar uma criança a cumprimentar um familiar pode ser uma forma de violência? Daniel Cardoso acredita que sim e não está sozinho. Os especialistas defendem que não se deve obrigar a criança a ter um determinado nível de intimidade física.

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Sebastiao Almeida/Arquivo

Obrigar uma criança a dar um beijo aos avós pode ser uma forma de violência? Se disser que não quer, é mal-educado ou está a querer dizer aos pais que não se sente confortável naquela situação?  Como devem os pais agir? Desde segunda-feira que as declarações do professor universitário Daniel Cardoso, durante o último Prós e Contras, na RTP, puseram o país a debater. O PÚBLICO foi tentar perceber até que ponto é ou não uma forma de violência e onde fica a fronteira com a boa educação. As crianças podem fazer tudo em nome da sua autodeterminação, mesmo não cumprimentar com um beijinho pessoas que lhes são próximas? Os especialistas defendem que não se deve obrigar as crianças a ter um determinado nível de intimidade física.

As afirmações de Cardoso surgiram no âmbito da discussão sobre a passagem de um ano sobre a criação do movimento MeToo, nos EUA, que veio denunciar relações de abuso de poder de homens sobre mulheres. O professor da Universidade Lusófona foi convidado para o programa e defendeu que “estamos a educar para a violência sobre o corpo do outro e da outra desde crianças”, oferecendo como exemplo quando “a avozinha ou o avozinho vai lá a casa e a criança é obrigada a dar o beijinho”. Acrescentou ainda: “Obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa como obrigação coerciva é uma pequena pedagogia que depois cresce.”.

Ao PÚBLICO, Daniel Cardoso começa por voltar a contextualizar o exemplo: o movimento MeToo. “Aquilo que estamos a discutir, no fundo, são relações de poder e noções mais ou menos disseminadas socialmente do que é consentimento”, explica. “Não estava a tentar focar-me nisto como a origem de todo o mal. Estava a dar um exemplo, entre vários, sobre como há uma naturalização deste passar por cima do ‘não’”, acrescenta, fazendo uma ponte com o tipo de retóricas que surgem frequentemente no contexto do MeToo — como, por exemplo, referir a roupa que alguém vestia para justificar a falta consentimento. Por outras palavras, “nestas pequenas práticas promove-se este ultrapassar do ‘não’”, clarifica.

Para o pedopsiquiatra Rui Ferreira Carvalho, “estamos a discutir um conceito que é essencial e que deve ser ensinado desde cedo: o consentimento e o carinho consentido, dado de livre vontade — portanto não forçado”. “Percebo o incómodo que causou nas pessoas um exemplo que nos é tão próximo”, mas, ressalva, “esta questão do consentimento faz todo o sentido, independentemente da pessoa com quem estamos a lidar.” Não é uma questão simples, admite. “Mexe com dinâmicas de poder” e incide sobre “a barreira ténue entre o que é a educação e o que é que é a protecção”.

A questão fundamental, aponta o especialista, é “ensinar desde cedo que o nosso corpo é nosso”, tendo em conta que as interacções em infância têm as suas repercussões. “Estes padrões de exprimir carinho e afecto são facilmente reproduzíveis na vida adulta. A forma como lidamos com as emoções e como exprimimos carinho tem influência na forma como vivenciamos relações no futuro. E situações abusivas são facilmente replicáveis”, aponta.

Não quer dizer que exista uma relação de causalidade directa, como o próprio Daniel Cardoso refere. "Existe co-relação, por exemplo, entre jovens que têm pais com comportamentos invasivos da sua privacidade e jovens que têm mais dificuldade em recorrer a esses próprios pais quando se sentem ameaçados ou ameaçadas por alguma coisa."

A vontade da criança

Constança Ferreira, terapeuta de bebés no Centro do Bebé, em Lisboa, e mãe de três filhos, alerta para a polarização no debate à volta da intervenção de Daniel Cardoso. Em parte, “estamos a discutir outras coisas, os medos profundos das pessoas”, comenta. “Todas as questões que têm a ver com a autoridade sobre a criança e o medo que a vontade da criança prevaleça são polémicas entre os adultos”, acrescenta. De um lado está a ideia de que qualquer questão que se coloque equivalha à total ausência de regras e que se a criança não obedecer a tudo vai ficar “selvagem” e do outro está o “endeusamento excessivo” das crianças. “As pessoas têm estes dois pólos e têm medos de um lado e de outro.” A terapeuta reforça que “em momento algum [Daniel Cardoso] falou de crianças mal-educadas ou de se ignorar o avô que chega”, mas sim do beijo como “algo de íntimo. Se calhar houve muitos pais que ouviram aquilo e imaginaram os filhos distraídos com um brinquedo. E [os seus pais a responder] ‘não queres cumprimentar o avô, então pronto, fica aí’. Para mim isso também seria chocante.”

Para José Morgado, professor do departamento de psicologia e educação do ISPA- Instituto Universitário, discute-se também a “gramática das relações de afecto”. “A nossa cultura contempla um determinado tipo de comportamento como sendo habitual para expressar relações de afectos. É importante educar as crianças e sensibilizá-las para os gestos de afecto das pessoas de que nós gostamos”, comenta. Mas esse tipo de expressão não deve resultar de uma imposição de força, antes de uma vontade própria.

Exemplifica com uma pergunta e resposta: será que os netos devem ser obrigados pelos pais a darem um beijinho ao avô? “Não quero que eles façam isso!”, garante. “Eu quero que os miúdos percebam que há uma relação de afecto que se expressa também nos gestos que lhe dirigimos. E é natural que o meu neto se sente no meu colo para lhe contar histórias.” Ao mesmo tempo adverte que em relação a quem não conhecem devemos “educar as crianças que o seu corpo e a sua intimidade é uma reserva que não devem tornar acessível a qualquer pessoa que se lhes dirija”.

Ter atenção aos sinais

Segundo o neuropediatra Nuno Lobo Antunes, a situação mais comum é que as crianças demonstrem com beijos e abraços o afecto pelos membros mais próximos da família. O contrário, defende, deve ser sinal de alerta. “Se a resposta for constante e for intensa na sua manifestação não forçaria o beijinho, mas investigaria até ao fundo as causas que levam a essa relutância”, comenta. “Claramente o foco não seria dar ou não dar [um beijinho]”, mas antes, perceber, por exemplo, “se se passa o mesmo com outras pessoas, se existem sensibilidades ou se, do ponto de vista social, a criança se isola ou tem outros comportamentos atípicos”.

“A meu ver, é mais frequente o carinho ser natural e ser espontâneo”, afirma também Rui Ferreira Carvalho. “Nestas recusas é que devemos ter uma perspectiva mais flexível de reflectir um bocadinho no que pode estar por detrás.” O psiquiatra apela ao bom senso e à empatia dos pais: “Quando estamos perante situações que nos deixam dúvidas, pararmos para reflectir que respostas alternativas temos, o que pode estar a justificar isso, e não partirmos imediatamente para pensamento automático que de que a criança está a ser mal-educada, sem termos os dados todos presentes.”

Daniel Cardoso realça que a questão da normalização “não tem a ver com a representatividade ou a frequência de um determinado comportamento”, mas sim com “perspectivas e percepções sociais" em relação ao mesmo. “A normalização de um comportamento tem impactos sócio culturais próprios, que são relativamente ou pelo menos parcialmente independentes do quão comum ou incomum esse comportamento efectivamente é”, atira.

Para Lobo Antunes, “não faz sentido que [o acto de dizer às crianças para darem um beijinho aos avós] seja visto como uma violência, à excepção de casos muito peculiares”, como por exemplo quando se trata de crianças com autismo ou algum tipo de “hipersensibilidade”. “Os laços familiares que se criam são extraordinariamente importantes para o estabelecimento da segurança e de um sentimento de pertença a um grupo. É importante para o seu crescimento psicológico saudável”, refere ainda. Segundo o especialista, “educar é passar valores”. “Inclui a consideração, o sinal de respeito, mas também uma diferenciação de intimidade. Quando os pais dizem dar um beijinho à avo ou a um amigo íntimo, [isso] faz uma separação clara entre aqueles que pertencem ao seu grupo familiar e podem ser confiados e aqueles em que não podem ser confiados. Aqueles a quem devemos uma obrigação de respeito”, justifica o especialista.

O médico reconhece que “a maior parte dos abusos se passam dentro da família” e “as pessoas devem estar atentas a sinais de alerta”, mas, continua, “não faz sentido vivermos numa sociedade em que o medo do abuso seja tão intenso e tão generalizado. A enorme maioria das crianças está protegida dentro do seu ambiente familiar”.

Uma expressão cultural para todos?

“Todos devemos ter gradientes de proximidade nos comportamentos de acordo com o grau de proximidade afectiva e das circunstâncias em que estamos”, afirma José Morgado. O especialista defende que o beijinho na cara é algo com um certo nível de intimidade e que não deve ser expectável que as crianças o utilizem com pessoas que não conhecem. Não significa que não devam aprender a ser cordiais com as pessoas, simplesmente devem poder fazê-lo de outra forma.

Daniel Cardoso refere que existem “formas positivas de ensinar às crianças que elas devem tratar as outras pessoas com respeito”, mas considera que não existe “demonstração universalmente válida de respeito”.

“A empatia neste caso é o desempatador”, sugere Constança Ferreira. “Se eu chegar a uma sala com 50 pessoas, gosto de cumprimentar individualmente cada uma? Ou posso encontrar uma ferramenta socialmente aceite que não implique um cumprimento íntimo?”, exemplifica. “Nós adultos fazemos isso instintivamente.” Assim, a terapeuta sugere que desde cedo o foco seja transmitir estas ferramentas às crianças. “Há uma gama muito grande de comportamentos sociais, a vários níveis, que não tem de passar pela intimidade física.”

Tendo em conta que vivemos numa sociedade em que a norma é as pessoas cumprimentarem-se com beijinhos, estas interacções podem ser desconfortáveis e difíceis de gerir para os pais. Neste sentido, Constança Ferreira aconselha que se evitem “situações de limite” — aquelas que normalmente resultam num desconforto do ponto de vista social. Refere, por exemplo, episódios em que os pais insistem perante outra pessoa que os filhos dêem um beijo, enquanto estes recusam. “Torna-se um conflito, com duas partes a tentar prevalecer. E há a ideia de que a vontade da criança não pode prevalecer, portanto vai acabar mal. Não é muito inteligente, nem socialmente ficamos muito bem. O que pode ser interessante, se compreender os motivos da minha criança, é dizer ‘ele não conhece e quando não conhece preferem só dizer bom dia’. E dizer isto com naturalidade.”

Ainda assim, Rui Ferreira Carvalho, considera que estamos a falar de situações pontuais, dado que a maioria das crianças irá assimilar os comportamentos que vê à sua volta. “É importante encontrarmos um equilíbrio: simultaneamente educar para o respeito (auto-respeito e respeito pelos outros) e ao mesmo tempo promover a defesa do nosso próprio corpo.”