Jardim Botânico da UTAD

Quando uma universidade brinca às escondidas com um jardim

O jardim botânico em Vila Real é um dos maiores da Europa. Esconde o eco-campus da UTAD e todos os dias recebe dez mil pessoas, que, muitas vezes, não perdem tempo a perder-se nele.

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PAULO PIMENTA
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Ocultam-se um ao outro. E jogam os dois tão bem às escondidas que é difícil perceber se, em Vila Real, foi plantado um jardim botânico numa universidade, ou se a jovem Universidade de Trás os Montes e Alto Douro (UTAD) teve de desbravar jardim para ali se poder cimentar.

Pouco interessa: nunca se tratou de uma competição. Os dois têm vindo a crescer em “integração permanente” desde que “a primeira árvore [oficial] do Jardim Botânico da UTAD” — uma Metasequoia (metasequoia glyptostroboides), da família Cupressaceae, foi plantada, em 1988. Por essa altura, já a instituição de ensino público, até então um instituto politécnico, era reconhecida como universidade há dois anos (1986).

Agora, quase sempre as folhas mais altas ultrapassam os telhados mais altos. É quase um segredo, mas o pulmão de mil espécies vegetais vivas respira por uma área total de mais de 130 hectares que, além das 16 colecções temáticas do jardim botânico, compreendem ainda as escarpas do rio Corgo, uma área agrícola, vinhas e matas de castanheiros, carvalhos, pinheiros e eucaliptos. O jardim a nordeste de Portugal apresenta-se como o “maior da Península Ibérica e um dos maiores em toda a Europa”. É um espaço aberto, sem barreiras, que pode ser visitado gratuitamente, sem marcação.

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Alguns exemplares da colecção de resinosas do jardim Botânico da UTAD

O desenho em escada — da autoria de Luís Fernando Torres de Castro, antigo professor e pró-reitor —, com a vegetação mais baixa junto às vias e as árvores de grande porte junto aos edifícios, permite que, ao sair de um laboratório, não se vislumbre o próximo destino do campus universitário. É a paisagem natural a alegrar laboratórios cinzentos — e a desorientar os novos estudantes que, esta semana, começaram a chegar para mais um ano lectivo.

Amadeu Borges já não se perde. Orienta-se pelo jardim sem precisar de prestar atenção às placas que assinalam cada uma das colecções temáticas. E acaba sempre a demorar-se numa, mais do que nas outras: a colecção das resinosas ornamentais. Pinheiros desenvolvidos, completamente adaptados, que conseguem suportar desde o frio siberiano aos calores tórridos do hemisfério sul. São, devido à capacidade de resistência, uma homenagem viva “àquelas que com a sua imaginação e sacrifício conseguiram que a vida na Terra fosse possível”.

E são, também por isso, a colecção predilecta do pró-reitor que conhece o jardim desde os tempos de estudante. “Na minha altura as pessoas agarravam-se muito ao jardim”, conta o responsável pela área do património e sustentabilidade. Encontravam “cantinhos” que declaravam seus e era para lá que iam ler, estudar, almoçar. Namorar. “Quando os cursos passaram pelo processo de Bolonha [tornando-se geralmente mais curtos], as pessoas deixaram de se agarrar tanto a ele”, acredita.

Mas os que ainda param no meio do trânsito da “pequena cidade” que é o campus da UTAD — por dia passam por lá dez mil pessoas — para “contemplar” a natureza, “deixam-se fascinar muito facilmente pela beleza e pela quantidade diferente de plantas”. “Eu fascinei-me”, confessa Daniel Ribeiro que, mesmo depois de se formar em engenharia agronómica, continua a voltar ali todos os dias.

Em conjunto com um pequeno grupo de amigos, formou a Rupestris. Uma cooperativa agrícola multissectorial que resulta de um protocolo estabelecido entre a UTAD e alunos e ex-alunos da academia, de áreas tão diferentes como a engenharia florestal, a biologia, a ecologia ou a comunicação multimédia. “A ideia fundamental passa por fazer com que as pessoas percebam que nós temos cá recursos que podem utilizar e conhecer”, anuncia.

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Uma das estufas ao cuidado da Rupestris, uma cooperativa de estudantes e ex-estudantes da UTAD Paulo Pimenta

Começaram por organizar visitas guiadas ao jardim botânico — recebem cerca de 1500 pessoas por ano, normalmente escolas —, a convite de António Crespi, professor e conservador do jardim. Dinamizam ainda workshops de observação e fotografia de aves, produção de sabonetes artesanais, ou de técnicas básicas de sobrevivência na natureza selvagem (bushcraft). Gerem também duas estufas cedidas pela universidade, onde produzem maioritariamente plantas aromáticas, medicinais ou ornamentais, utilizando fragmentos de outras, através do método de propagação por estacas.

“Isto às vezes é mais anti-stress do que para produção”, ri-se Daniel, 30 anos, apontando para algumas suculentas que crescem em vasos feitos por eles, a partir de o tronco de um pinheiro. Não têm “comprado nada fora”, fruto de “uma política um bocadinho restrita” e de uma preocupação crescente com a “preservação” e a “recuperação”. Valores, que, diz, desenvolveram ao estudar envolvidos num “eco-campus”, “regido por uma estratégia ética ambiental”.

São estas iniciativas sustentáveis que a universidade vai dar a conhecer durante este sábado, 22 de Agosto. Por cada participante vai ser plantada uma árvore no parque Natural do Alvão, convidam. Ao longo de um programa de 24 horas, o [email protected] propõe ver as estrelas, acampar na UTAD e acordar com a biodiversidade (ou seja, às 6h da manhã), participar em oficinas de artesanato, concertos e passeios nas 300 bicicletas, algumas eléctricas, que vão passar a estar disponíveis para os estudantes, num esforço para diminuir a quantidade de carros que circulam dentro do campus. E que passam ao lado de um jardim que merece ser visto por dentro — com calma, pelo menos uma vez em cada estação do ano.