A Batalha é muito mais do que o seu mosteiro

É um museu que se faz pela comunidade local, com dinossauros e estátuas romanas, no meio da malha urbana da Batalha. Talvez a sua grande obra (que lhe tem valido vários prémios) seja a acessibilidade que pôs em todos os corredores, vitrines e legendas. Até a casa de banho tem um espaço dedicado aos cães-guias.

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Antes mesmo de começarem a montar o museu, perguntaram a miúdos da escola o que era para eles um museu, o que é que lá gostariam de ver e de fazer. “Um museu é uma casa com coisas antigas, coisas do passado”. Ou então, um espaço com “um T-Rex gigante” no meio.

No Museu da Comunidade Concelhia da Batalha, não há um T-Rex, mas há desenhos nas vitrines e uma vértebra da cauda de um Stegosaurus, um dinossauro herbívoro, cuja espécie foi identificada na Batalha no início do milénio. Na altura, a descoberta teve direito a uma referência na revista científica alemã Naturwissenschaften, que dava conta da “primeira prova incontroversa de um membro do género Stegosaurus encontrado fora da América do Norte”, talvez fácil de explicar por se tratar de uma altura em que a Europa ainda se encontrava ligada à América. 

As explicações são dadas por Ana Moderno, técnica do museu que abriu portas em 2011 para contar um bocadinho mais sobre a história daquela terra, um pouco encoberta pelo fausto do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, tantas vezes chamado apenas de Mosteiro da Batalha. 

É um projecto que apesar de recente - tem apenas sete anos -, começou muito antes a ser pensado, quando o espólio - "parco" - que o município tinha andava espalhado pela vila ou encaixotado. Em 2003, decidiu-se que os batalhenses já mereciam ter um museu que lhes contasse a sua história. A partir daí, conta Ana Moderno, que faz parte do projecto desde o início - “eu própria sou já uma peça de vitrine”, brinca -, começou um trabalho com a comunidade, munícipes, instituições, outros museus e centros de investigação do Instituto Politécnico de Leiria, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, do Museu de História Natural. 

É uma casa com paleontologia, geologia, arqueologia, história e arte dentro. Mas talvez a grande obra deste museu seja o facto de ter sido pensado para não ter quaisquer barreiras e ser acessível a todos. 

Neste caminho, o museu quis recuperar quanta história fosse possível, recuando a um tempo em que o mar por ali entrava. Recua-se ao Jurássico Inferior, que é como quem diz, mais de 170 milhões de anos. Segue-se o trilho discreto no chão escuro, uma ajuda a quem é invisual ou tem dificuldades de visão. Mal se sente uma seta, sabe-se que naquela direcção está um objecto em que se pode tocar. Quiseram também que algumas das peças do museu, em vez de enfiados em caixas de vidro, pudessem estar disponíveis para serem tocadas. Há, por exemplo, um bloco calcário, onde se podem sentir ostras e corais fossilizados, representando o ambiente salobro, de águas pouco profundas, e quentes que cobriam a maior parte do concelho da Batalha.

Seguindo sempre o trilho, dá-se conta da “estrela” do museu. “Jaime”, assim o tratam carinhosamente no museu, é um Homo Erectus feito em Madrid, em tamanho real, que ali representa as primeiras comunidades desta região. 

Collipo, a cidade romana

Faz-se uma viagem no tempo para a época romana, quando a Batalha era a cidade de Collipo. Os romanos chegaram ali cerca de 200 anos a.C para fixar esta cidade, num ponto alto e fértil, onde havia água, árvores e animais para caçar. 

A figura de um magistrado ergue-se em mármore, imponente, ao centro de uma sala. Foi a primeira peça a ser colocada no museu quando este estava ainda em obras. É que este colosso de mármore, com 1200 quilos e que fora desenterrado durante as escavações ali feitas na década de 1960, só poderia teve mesmo de entrar pelo tecto, com a ajuda de uma grua.

Está sem braços e a justificação dada por Ana Moderno para tal prende-se com o facto de que de cada vez que se mudava de líder político da cidade, a figura representada teria de ser substituída. Já na altura se queria evitar trabalhos maiores, por isso o corpo mantinha-se, coberto com a toga, representando o poder, e os braços, assim como a cabeça, eram substituídos por outros com um sistema de encaixe. 

Pouco resta desta cidade. Collipo, que estaria maioritariamente edificada em terreno batalhense, na actual freguesia de Golpilheira, no topo da colina de São Sebastião do Freixo, acabaria por ser saqueada, usada como pedreira para construir Leiria. A Batalha acabaria depois por se tornar “uma terra de ninguém”. Passaram por ali vários povos: muçulmanos durante a ocupação árabe do território. Há vestígios de uma igreja visigótica não muito longe dali, em Famalicão da Nazaré. 

O Mosteiro da Batalha

Até que chegamos à época que havia de pôr aquela região nos mapas nacionais: a Batalha de Aljubarrota, que a 14 de Agosto de 1385 opôs as tropas portuguesas, comandadas por D. João I de Portugal e o seu condestável D. Nuno Álvares Pereira, e o exército castelhano, que sairia derrotado. D. João I cumpria a promessa que havia feito, a de mandar construir um faustoso mosteiro pela vitória na Batalha.

Promessa real a cumprir-se. Até que às tantas, na viagem pelo museu, se vê parte da lápide do mestre Boytac, que terá participado na construção do mosteiro, com um orifício no meio e com uma forma quadrada. Forma estranha esta, até se perceber que de lápide se lhe adaptou o uso. “A igreja [de Santa Maria-a-Velha que também foi mandada construir por D. João I e se tornou num local de culto para os artistas que ergueram o mosteiro] destruiu-se e alguém encontrou esta pedra e pensou ‘olha tão jeitosa para fazer um tampo de esgoto’”, conta Ana Moderno. Coisa comum de acontecer, diz a técnica, lembrando que também o Castelo de Leiria tem epígrafes romanas na própria construção.

Por ora, é preciso subir ao segundo piso. A ideia, diz Ana Moderno, é imaginar que se está a subir para as capelas imperfeitas, já que grande parte do segundo piso do museu é dedicada ao mosteiro que se manteve séculos em construção. Em 1388, o mosteiro foi entregue aos frades Dominicanos e assim se manteve até à expulsão das ordens religiosas em 1834. É que depois de D. João I, que ali está sepultado, a obra foi sendo acrescentada pelos reis que lhe sucederam. Essas fases estão expostas em maquetes de construção do mosteiro feitas pelo carpinteiro da câmara. Afinal, este é um museu da comunidade.

Um “casamento” entre acessibilidade e exposição

O museu acabou por nascer mesmo no meio da malha urbana da Batalha, num espaço que já tinha sido um banco, e que tem como vizinho o imponente mosteiro, património mundial. 

Em Maio de 2013, apenas com dois anos de vida, o museu recebeu aquele que terá sido o maior reconhecimento que já lhe tinha sido prestado. O Fórum Europeu dos Museus distinguiu-o com o Prémio Kenneth Hudson, que anualmente destaca os museus que têm as soluções mais inovadoras para mostrar as suas colecções. E um ano antes já fora considerado pela Associação Portuguesa de Museologia (APOM) o Melhor Museu Português de 2012.

À entrada, uma bancada informativa com relevo e com cores contrastantes cumpre a função para quem é invisual ou tem baixa visão. Há um sistema de audioguias e conteúdos em língua gestual. Há trilhos no chão, setas direccionais gravadas no piso para encaminhar quem se guia com a ajuda de uma bengala. Ali, até as casas de banho tem um bebedouro para os cães-guia que acompanham os visitantes do museu. 

O que se lhes impôs ali foi fazer um “casamento” entre a acessibilidade e a exposição. Para António Viana, o museógrafo que teve essa responsabilidade, foi também “um desafio” desenhar as vitrines, os expositores, colocá-las a uma altura mais baixa, para que todos consigam chegar a toda a informação. 

Sete anos depois da abertura, continua a ser uma espécie de “laboratório” onde todos os dias se afinam formas de incluir quem tem mais dificuldades. “[É preciso] ter a humildade de reconhecer que nem sempre todas as soluções são boas para toda a gente. Mas o que queremos é que a mesma solução seja boa para o máximo de pessoas possível”, reconhece Ana Moderno. Foi por isso que trabalharam com a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) e a Associação de Surdos da Alta Estremadura (ASAE) que os ajudaram a melhorar estas soluções. 

O museu tem ainda um espaço dedicado a exposições temporárias ou de média duração, que dá visibilidade a trabalhos de investigação comunitária. A que está agora em exibição versa sobre as minas de carvão, “uma actividade que ainda está muito recente na memória das pessoas”, diz a técnica do museu. Faz uma viagem sobre a exploração dos carvões do Lena que havia na Batalha e se estendia até Porto-de-Mós, e contou com os testemunhos dos próprios mineiros de Alcanadas. Recentemente, o museu recebeu uma menção honrosa por causa deste trabalho de investigação, atribuída pela APOM. 

Mas é a preocupação posta nas acessibilidades que é sempre a mais reconhecida. Hoje, são procurados por outros museus, por outros técnicos que querem conhecer o que ali é feito para que todos possam ter acesso à cultura. 

“Isto não tem limites. É um trabalho sempre em evolução”, reconhece a técnica. É por isso que não raras vezes o museu convida a comunidade a fazer esse exercício de se pôr na pele de quem, por uma razão ou outra, não consegue tirar total partido de uma experiência no museu. Já fizeram uma visita de olhos vendados, guiada por pessoas cegas. Trabalham com os miúdos das escolas dos concelhos, fazem tertúlias e até festas de aniversário. 

Quando ainda antes de montar o museu perguntaram aos miúdos o que é era para eles um museu, houve quem se atrevesse a dizer que é “um espaço com objectos modernos e antigos”. E esta talvez seja a definição preferida de Ana Moderno, que faz questão de ter sempre presente que um museu não se pode fazer só de passado. “Será sempre também sobre o presente e o futuro”.