O castelo de cartas de Elon Musk está a tremer

Com um comentário infeliz no Twitter, o multimilionário da tecnologia Elon Musk passou de visionário extravagante que não gosta de críticas, a troll do Twitter. Os investidores da Tesla começam a questionar o génio de Musk.

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Para Musk, a humanidade não pode ficar presa à Terra para sempre Mike Blake/Reuters

Volta e meia, o nome do multimilionário Elon Musk faz manchete com as suas ideias excêntricas sobre o futuro da tecnologia, receios sobre robôs assassinos e o lançamento de foguetões com carros anexados para o espaço. Aos 47 anos, é mais conhecido por ter fundado a empresa aeroespacial privada de foguetões reutilizáveis, SpaceX, e ser o presidente executivo da marca de carros eléctricos e autónomos Tesla. Apesar de usar as redes sociais para descrever ambos projectos como “as coisas mais imbecis e difíceis” que fez em termos de investimentos lucrativos (em 2008, estavam ambas muito perto da falência), diz que se dedica a eles na esperança de “criar um futuro mais sustentável para a humanidade”.

A falta de filtro e o hábito de se atirar de cabeça a objectivos utópicos, depois de ter a fortuna feita aos 30, fazem de Musk uma personalidade interessante para as massas. Desde 2009 que o Twitter é das suas maiores ferramentas: foi lá que Musk anunciou uma misteriosa “nova linha de produtos que não são carros” (mais tarde soube-se, era uma bateria para casas alimentada por painéis solares), e os “lança-chamas mais seguros de sempre”, por 500 dólares cada, para angariar fundos. Também é lá que rebate as críticas que lhe chegam, sejam de jornalistas, analistas, ou antigos trabalhadores.

Na última semana, porém, passou de visionário extravagante que não gosta de críticas, a troll do Twitter. Bastaram cerca de 140 caracteres. Num momento de ira, usou a rede social preferida para chamar de “pedófilo” a um mergulhador que ajudou a resgatar 12 crianças presas numa gruta da Tailândia. O motivo: uma crítica sobre o seu novo submarino (criado, também, para esse efeito) ser uma “mera estratégia de publicidade”.

Arrependeu-se rapidamente e apagou logo a publicação, mas demorou três dias a pedir desculpa oficialmente. Durante o processo, as acções da Tesla, (que, ao contrário da SpaceX, é cotada em bolsa e divulga resultados financeiros) caíram mais de 3,5%, numa altura em que a empresa tinha finalmente atingido a meta de produzir cinco mil veículos Model 3 numa semana.

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Este mês a Tesla atingiu a meta de produzir cinco mil veículos Model 3 por semana Stephen Lam/Reuters

Nos últimos meses, a Tesla viu o seu posicionamento no mercado comprometido depois de vários atrasos na produção daquele modelo. Os prejuízos da empresa também estão mais altos que nunca, chegando aos 784,6 milhões de dólares (cerca de 673 milhões de euros), segundo os mais recentes resultados trimestrais da empresa, apresentados em Maio. Na altura, os números pareciam não preocupar Musk que interrompeu vários analistas para descrever as suas perguntas como “secas” e “aborrecidas”, levando a uma queda de 5% nas acções da empresa. Três meses mais tarde, Musk anunciava uma redução de 9% no número de trabalhadores da Tesla para cortar custos.

Os accionistas mantiveram a confiança em Elon Musk: em Junho, uma proposta para retirar Musk da posição de director executivo da empresa foi recusada. Agora, começam a questionar se o génio do empresário é de facto consequente e pode dar frutos.

Marciano desde o começo

Elon Musk nasceu em Pretória, na África do Sul no auge do regime de segregação racial apartheid. Embora tenha crescido num ambiente de relativo privilégio – como um rapaz branco de uma família de classe média –, durante anos foi vítima de bullying na escola, devido à personalidade introvertida e sonhos com viagens espaciais. Foi em 1984 que o público primeiro conheceu o seu nome, numa altura em que a Tesla, a SpaceX, e discussões no Twitter estavam muito longe de existir. Musk tinha 12 anos e a revista sul-africana PC and Office Tecnology publicava um artigo sobre um jovem rapaz que tinha criado um jogo de computador em que se tinha de se destruir uma nave de extraterrestres malévolos. Com os anos, a missão de levar a humanidade além das fronteiras terrestres tornou-se um objectivo de vida.

O percurso até multimilionário de tecnologia passou por saber identificar, desde cedo, onde investir o seu dinheiro. Pouco antes de fazer 18 anos, decidiu sair da África do Sul para o Canadá, onde conheceu Justine Wilson, uma aspirante a escritora que viria a ser a sua primeira mulher. Foi lá que ganhou uma bolsa para estudar economia e física na Universidade da Pensilvânia, uma das instituições de elite nos EUA.

Nunca chegou a ter um diploma. Em 1995 – quando surgiam as primeiras grandes empresas de Internet, como o Yahoo e a Amazon – Musk fundou a Zip2 com o irmão. No pico da era dot-com, era uma versão primitiva do Google Maps (com direcções de GPS para empresas), mas não tinha nenhum objectivo transcendente e Musk vendeu-a, quatro anos mais tarde. O dinheiro foi usado para lançar a X.com, aquilo que viria a ser o PayPal, que a eBay comprou em 2002 por cerca de mil milhões de dólares. Podia ter sido o começo de uma reforma antecipada, mas foi a base da “tecno-utopia” de Musk, que usou 100 milhões de euros para o arranque da SpaceX e 70 milhões para os carros eléctricos da Tesla.

Apesar do sucesso a nível profissional, 2002 foi o ano em que Musk perdeu o primeiro filho, por síndrome de morte súbita infantil. Nevada Musk tinha apenas 10 semanas. Na biografia oficial do empresário, a mãe de Nevada, lembra que o empresário não gostava de falar do que aconteceu, e optou por se dedicar, por inteiro, ao trabalho. Para Elon Musk, a Tesla e a SpaceX tornaram-se mais que duas empresas. São duas visões: uma de um futuro sustentável, com carros eléctricos que se conduzem sozinhos em Terra, e outra de expansão interplanetária. No começo, muitos duvidavam do seu êxito.

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Para Musk, a Tesla representa um futuro com menos combustíveis fósseis Joe White/Reuters

O "pior ano" de Musk?

Julho de 2018 não é a primeira vez que os investidores dos projectos de Elon Musk enfrentam uma crise de confiança. Há exactamente dez anos, em 2008, o empresário vivia aquilo que descreve publicamente como “o pior ano da sua vida”. Estava recém-divorciado, tinha a Tesla no limiar da falência (o eclodir da crise financeira dificultava a angariação de capital para produzir carros eléctricos), e via os foguetões da SpaceX a falhar sistematicamente o objectivo básico de atravessar atmosfera. O voo do primeiro foguetão, o Falcon 1, durou apenas 41 segundos antes de explodir. A história repetiu-se três vezes, com outros foguetões – o último, com satélites da NASA a bordo. Com falta de dinheiro para contratar profissionais experientes, Musk era o principal engenheiro responsável pelos aparelhos.

“Imaginem que estão a tentar convencer alguém a investir numa empresa de carros eléctricos, mas tudo o que se lê sobre a empresa soa terrível”, reconta Musk na sua biografia. Tudo isto, “no meio da recessão em que ninguém compra carros”. Numa última tentativa, depois de voar directamente até à Alemanha para falar com representantes da fabricante da Mercedes-Benz (a Daimler), um foguetão da SpaceX atravessou finalmente a atmosfera terrestre, e os alemães decidiram apostar 50 milhões de dólares na ideia de Musk.

Em 2018, o problema já não é a crise ou foguetões problemáticos. Em Fevereiro, o lançamento do Falcon Heavy, o foguetão mais potente que há hoje, com o carro do próprio Musk a bordo, foi um sucesso. São acima de tudo, as acções do empresário que motivam a perda de confiança dos investidores. Esta semana – além da controvérsia com o mergulhador – veio à tona que Musk terá doado cerca de 38 mil dólares, debaixo do radar, para apoiar um comité de acção política dedicado a ajudar o Partido Republicano a manter o poder na câmara dos representantes dos EUA. Nas redes sociais, há quem lhe chame hipócrita por isso, já que os ideais de uma boa parte dos republicanos vão contra a sustentabilidade ecológica defendida pela Tesla. Somam-se, também, várias discussões com jornalistas no Twitter, com o empresário a criticar a imprensa por se focar nas vítimas mortais dos acidentes com carros da Tesla

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Em Fevereiro, o lançamento do mais poderoso foguetão da Space X, o Falcon Heavy, foi um sucesso Thom Baur/Reuters

Os investidores pedem a Musk para abandonar aquela rede social. “O Twitter pode ajudar a manter a Tesla nas notícias, mas não ajuda em termos de produção e de produto”, escreve Gene Munster, um dos principais investidores da Tesla, numa carta aberta dirigida ao empresário. Para alguns investidores, a falta de reflexão do empresário no Twitter deve-se ao estado de exaustão depois de correr para cumprir o objectivo de produzir cinco mil carros Model 3 por semana.

Fora do palco das redes sociais, Musk reconhece o problema. “Cometo o erro de presumir que se alguém está no Twitter e está a criticar-me é um convite para eu retaliar”, admitiu o empresário numa entrevista com a Bloomberg no começo do mês. “Isto é um erro e vou corrigi-lo.” Dez dias depois, Musk acusava um mergulhador de pedofilia.

O especialista norte-americano em comunicações de crise, Bryan Reber, acredita que não é desta, porém, que os investidores abandonam Elon Musk. “Os investidores são leais”, diz Reber. “É preciso uma queda muito mais acentuada para mudar isso.” O impulso que leva Musk a partilhar todas as suas ideias na Internet, sem reflectir, é o mesmo que o motiva a investir em projectos que empurram os limites da tecnologia. Quando questionado sobre os seus objectivos, no Twitter, escreve: “Para a humanidade ter um futuro entusiasmante e inspirador, não podemos estar confinados à Terra para sempre.”