O homem que quer ser marciano

Elon Musk podia ter-se dedicado a uma pacata vida de milionário tecnológico. Em vez disso, quer resolver alguns problemas da humanidade e, um dia, levá-la a habitar outro planeta.

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Elon Musk já afirmou que gostava de dizer adeus à Terra e morrer em Marte Mike Blake/Reuters

Elon Musk tinha 30 anos e já era um multimilionário da tecnologia quando pegou numa mala cheia de dinheiro e aterrou em Moscovo com o objectivo de comprar um míssil balístico intercontinental. Queria usá-lo para construir um foguetão. Estávamos em Fevereiro de 2002 e com ele iam um amigo dos tempos da faculdade, um investidor e o engenheiro aeroespacial Michael Griffin, que três anos mais tarde viria a tornar-se director da NASA. O grupo tinha um encontro marcado com responsáveis da Kosmotras, uma empresa de aeronáutica. Na reunião, Musk perguntou quanto custava um míssil. Oito milhões de dólares cada um, responderam os russos. Musk tentou regatear. Nada feito. Além disso, os russos deram a entender que achavam que o americano não tinha dinheiro para o negócio. O jovem empresário acabou por sair de rompante da reunião.

A história, contada pelo biógrafo oficial de Musk, Ashlee Vance, é um dos muitos episódios conturbados da vida do empresário, que é há muito um nome conhecido nos círculos da tecnologia, mas que só nos últimos anos começou a ter um reconhecimento global. Deve a fama sobretudo a projectos futuristas como os carros Tesla –  inteiramente eléctricos e com capacidade de condução autónoma – e os foguetões reutilizáveis da SpaceX. Mas parte da popularidade deve-se também à excentricidade (recentemente, financiou uma das suas empresas vendendo uma espécie de lança-chamas na Internet) e ainda aos avisos catastrofistas que tem feito sobre o futuro da inteligência artificial – uma tecnologia que, argumenta insistentemente, pode vir destruir a humanidade.

Elon Reeve Musk nasceu em Pretória, a 28 de Junho de 1971. Acredita que herdou do lado da mãe o gosto pelo risco. Os avós maternos tinham emigrado do Canadá para a África do Sul e faziam com frequência longas e arriscadas viagens num pequeno avião. Também levavam os cinco filhos em expedições de carro pela savana africana. A mãe era uma dietista que foi finalista do concurso Miss África do Sul e que se casou com um engenheiro. Depois do divórcio, Musk (e o irmão um ano mais novo, Kimbal) foi viver com o pai, de quem recebeu uma educação muito dura, mas que lhe ensinou noções de engenharia.

A infância e adolescência foram difíceis. Musk era uma criança introvertida. Foi vítima de bullying na escola e uma vez foi espancado por colegas até ter ficado inconsciente. Pouco antes de fazer 18 anos, decidiu ir para o Canadá, onde tinha alguns familiares. A mãe e os dois irmãos (para além de Kimbal, a irmã mais nova, Tosca) acabaram por rapidamente juntar-se a Elon Musk. Em 1989, foi estudar para a Universidade de Queen’s, em Ontário. Foi aí que conheceu Justine Wilson, uma aspirante a escritora que viria a ser a sua primeira mulher. Em 1992, seguiu com uma bolsa de estudo para a Universidade da Pensilvânia, uma das universidades americanas de elite, onde decidiu estudar economia e física.

Em meados daquela década, surgiam as primeiras grandes empresas de Internet, como o Yahoo, o eBay e a Amazon. Em 1995, Elon e o irmão decidem criar uma empresa a que chamaram Zip2. A ideia era ser uma espécie de Páginas Amarelas para empresas, que podiam assim ter uma presença na Web, mas acabou por transformar-se num prestador de serviços para os jornais criarem guias online de cidades. No início de 1999, a fabricante de computadores Compaq ofereceu 307 milhões de dólares para ficar com a Zip2 e melhorar assim o seu motor de busca, o Altavista. A oferta foi aceite. Kimbal ficava com 15 milhões de dólares. Elon, que tinha uma fatia maior da empresa, receberia 22 milhões de dólares. Tinha 27 anos.

Sonhos espaciais

Ambicioso, não ficou quieto. Depois da venda da Zip2, Musk criou a X.com, uma empresa de serviços financeiros online. Acabou por fundir-se rapidamente com uma rival, que tinha um produto para transferência de dinheiro chamado PayPal. Em 2002 o PayPal foi comprado pelo eBay por 1500 milhões de dólares. O negócio rendeu 170 milhões de dólares a Musk. Podia dedicar-se a uma pacata vida de multimilionário, mas usou boa parte daquele dinheiro para lançar uma empresa de exploração espacial com uma meta ambiciosa: a SpaceX pretende transportar pessoas até Marte e dar início à colonização daquele planeta.

Por alguma razão, porém, achou que uma empresa aeroespacial não era o suficiente e interessou-se por uma outra empresa recente chamada Tesla, que queria fabricar carros eléctricos. A Tesla foi fundada em 2003 por dois engenheiros americanos. Musk, que foi um dos primeiros investidores, é oficialmente considerado também um fundador.

Dispersar-se por duas empresas exigentes fez danos na fortuna de Musk e ter-se divorciado, em 2008, também não ajudou. Para os padrões dos milionários da tecnologia, Musk tinha problemas de liquidez, embora os seus múltiplos investimentos valessem, teoricamente, fortunas. Teve de ajustar o estilo de vida, o que significou, entre outras coisas, deixar de usar o jacto privado.

Em 2010, voltou a casar-se, com a actriz britânica Talulah Riley, 14 anos mais nova. O casal foi morar para a casa emprestada de um amigo rico de Musk (o par já se casou duas vezes e divorciou-se outras tantas). Naqueles tempos, o empresário desdobrava-se em contactos e manobras para salvar as suas duas empresas da falência. Acabou por ser bem-sucedido, embora ainda esteja por provar que as empresas são um bom negócio. A Tesla (que, ao contrário da SpaceX, é cotada em bolsa e divulga resultados financeiros) teve 675 milhões de dólares de prejuízos em 2016.

Basta seguir Musk nas redes sociais para perceber que fervilha de ideias e que, com frequência, tenta passá-las à prática. Tem uma empresa chamada The Boring Company com que pretende resolver o problema do trânsito com recurso a túneis baratos de construir. Também projectou um novo meio de transporte futurista, chamado hyperloop, que consiste em comboios subterrâneos de alta velocidade. Disponibilizou livremente o conceito para quem o quisesse usar. E tem uma empresa chamada Neuralink que pretende fazer implantes para ligar directamente o cérebro a computadores (a mais curto prazo, os desenvolvimentos da Neuralink podem ajudar no combate a algumas doenças).

Apesar de todo o entusiasmo com a tecnologia, Musk não parece partilhar o optimismo quase ilimitado de muitos dos seus pares. Tem-se mostrado apreensivo quanto ao futuro, em particular com os riscos colocados pelo desenvolvimento da inteligência artificial. Já argumentou que a automação acabará por fazer melhor do que os humanos todos os trabalhos e não se coíbe de traçar cenários apocalípticos, ainda que pouco plausíveis: “Continuo a fazer soar o alarme, mas até as pessoas verem robôs a descerem as ruas e a matar pessoas, elas não vão saber como reagir porque parece tão etéreo”, disse uma vez.

Talvez seja esta pouca confiança quanto ao futuro que o faz sonhar com um plano de fuga para outro planeta. “Gostaria de morrer em Marte”, disse numa conversa com o seu biógrafo. “Mas não de impacto. Idealmente, gostaria de fazer uma visita ao planeta, voltar e estar cá uns tempos e, depois, ir para lá, aos 70 anos ou assim, para ficar.”