Editorial

A tendência humana para o precipício

As alterações climáticas geram guerras, refugiados, fenómenos climáticos, crises, conflitos, desigualdades, luta pelos recursos.

Em cada minuto de 2017, as florestas tropicais perderam uma área equivalente a 40 campos de futebol; a Antárctida perdeu três biliões de toneladas de gelo desde 1992; e a lista pode continuar indefinidamente. As alterações climáticas geram guerras, refugiados, fenómenos climáticos, crises, conflitos, desigualdades, luta pelos recursos. A crise síria, como ontem sublinhou no Porto Barack Obama, na conferência Climate Change Leadership, é indissociável de uma série de anos de seca extrema, na origem da concentração populacional nas principais cidades do país, de trágicas consequências políticas e demográficas.

As alterações climáticas, como alertou Irina Bokova, ex-directora-geral da UNESCO, são uma ameaça para o Património Mundial, nomeadamente para o centro histórico do Porto ou para o vale do Douro, comprometendo no futuro a produção vinícola desta região. O aquecimento global é um reflexo desse permanente conflito que resulta de um sistema económico que tem gerado tanta acumulação como desigualdade, que não olha a meios para atingir os fins que se propõe, mesmo sacrificando o planeta, seja nos EUA ou na China, respectivamente o maior produtor de combustíveis fósseis e o maior emissor de gases com efeito de estufa.

A administração Trump é o expoente quer do negacionismo em matéria de alterações climáticas, quer da placa giratória que senta nas cadeiras do Governo a poderosa indústria dos combustíveis fósseis. O negacionismo não é exclusivo de Washington. O capitalismo de Estado, seja ele russo ou chinês, preocupa-se tanto com o clima como a Exxon ou a BP. É imprescindível reduzir a emissão deste tipo de gases e a alternativa só pode ser a substituição dos combustíveis fósseis pelas energias renováveis, a poupança e eficiência energética, uma agricultura sustentável e em harmonização com a natureza, uma revolução alimentar, os transportes alternativos, etc.

Vivemos perante duas ameaças de autodestruição e ambas provam a tendência humana para o precipício: um eventual conflito nuclear e a progressiva destruição do planeta. A primeira está temporariamente num limbo desde o encontro entre Trump e Kim Jong-un. A segunda é constante e vai perdurar por muito tempo. Até que o ambiente se torne, um dia, lucrativo. Ou que cada um de nós seja capaz de mudar de hábitos e de forçar os Estados a fazer o mesmo.