Floresta e revitalização do interior. Marcelo diz que autoridades “estão a fazer o que podem”

No dia em que se assinala um ano do incêndio de Pedrógão Grande, responsáveis políticos voltam ao terreno.

Marcelo Rebelo de Sousa, Castanheira de Pêra, junho de 2017 Portugal incêndios florestais, Leiria
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PAULO CUNHA/Lusa

Falta caminho, mas o percurso está a ser feito. Um ano depois do incêndio que deflagrou em Pedrogão Grande e causou a morte a 66 pessoas, o Presidente da República voltou à região. Regressou com a mensagem de que os responsáveis políticos estão a fazer tudo o que podem para esbater os problemas que as chamas deixaram a nu. Mas isso pode não ser suficiente, alerta.

Marcelo Rebelo de Sousa começou a manhã ao falar no Congresso Nacional de Queimados, em Pedrógão Pequeno, frente a uma plateia onde estavam alguns dos feridos mais graves dos incêndios de 17 de Junho de 2017. Perante a pergunta hipotética dirigida pelo Presidente aos responsáveis políticos, o próprio respondeu afirmativamente, mas com um aviso: “Os senhores estão aí e estão a fazer o que podem? Acho que os responsáveis estão a fazer. Todos. Mas provavelmente ainda não chega. É preciso mais."

E também não basta fazer só o que é possível fazer agora. Marcelo deixa um aviso para o futuro: “Hoje estamos aqui. E daqui a um ano, quando estivermos a um ano das eleições, estaremos cá os mesmos com a mesma preocupação? Com a mesma mobilização? E no ano seguinte, em que não há eleições, estaremos os mesmos a retirar as lições do passado e a construir o futuro?”

Minutos antes, o presidente da Associação Amigos dos Queimados, Celso Cruzeiro, tinha já feito um apelo à memória. Apontou que os problemas dos queimados nunca tiveram tanta visibilidade, mas lembrou também tragédias do passado. “Torna-se imperativo que este tema não volte a cair no esquecimento.”

Um esquecimento que, aponta Marcelo, deve ser corrigido e que começou com o pagamento de indemnizações “não apenas às vitimas mortais, mas aos feridos graves”, uma medida “sem precedentes em Portugal”. O pagamento das verbas representa o “assumir de uma responsabilidade colectiva”. Não apenas de uma responsabilidade sobre o momento dos incêndios, mas uma responsabilidade “com décadas, porventura com séculos de inação ou de omissão”. Pelas assimetrias regionais, pelo que não se fez na floresta, mas também na prevenção e na capacidade de resposta, sublinhou.

Ao assinalar a tragédia de Pedrogão Grande, Marcelo fez questão de recordar também a de 15 de Outubro. Os dois são territórios diferentes, mas tendo em comum “ambos serem relativamente esquecidos, desconhecidos, compreendidos por esse outro Portugal”, a parte metropolitana do país. E essa parte do país deve perceber que “sozinho não chega lá”. Ou seja, é um problema de coesão. “Estamos todos no mesmo barco. Quem está na proa não chega sozinho”. E se o lastro daqueles que ficam para trás nesse barco for tão grande” pela desigualdades das condições de vida, prossegue, “o barco não chega lá”.

A viagem desse barco, se chegar ao destino, vai demorar. À saída de uma missa para assinalar a data em Pedrógão Grande, António Costa disse mesmo que há questões que “levarão o seu tempo”. O primeiro-ministro voltou a identificar a revitalização do interior e a reforma da floresta, duas matérias que “ganharam visibilidade com esta tragédia”. Ao mesmo tempo que se faz esse “trabalho a longo prazo”, não se pode “deixar de dar resposta no imediato” a quem vive nesses territórios, sublinhou.