Editorial

Só não estamos satisfeitos é com a nossa economia

Portugal ocupa o quarto lugar numa lista de 23 em matéria de satisfação governativa e foi mesmo um dos que registou uma maior subida nesse capítulo

No European Social Survey, um estudo internacional realizado de dois em anos, Portugal ocupa o quarto lugar numa lista de 23 em matéria de satisfação governativa e foi mesmo um dos que registou uma maior subida nesse capítulo (entre 2014 e 2016). O trauma da troika explica muita coisa. A bonomia do presidente da República, um optimista crónico, e o optimismo irritante do primeiro-ministro contribuíram para um clima de alivio numa sociedade crispada e sem esperança. Um Governo do PS, com apoio parlamentar do BE e do PCP, pode ser contranatura ideologicamente para muitos socialistas e até ter um prazo de validade, como diz Francisco Assis. Para um empresário como Pedro Soares dos Santos, o líder do grupo Jerónimo dos Santos, o Bloco e o PCP “só atrapalham”, mas não é por isso que os portugueses estão mal com a vida que têm.

A geringonça funciona à esquerda e, quando não funciona esta, funciona à direita, como vimos, por exemplo, quando o PS se uniu ao PSD e CDS para rejeitarem os diplomas apresentados pelo BE, PCP e PEV para alterar a legislação laboral em temas como o banco de horas, a adaptabilidade e as convenções colectivas de trabalho. Como se vê, nem sempre o BE e o PCP são uma atrapalhação para António Costa. A governabilidade portuguesa é uma solução benigna comparada com o caos italiano ou espanhol, onde os níveis de insatisfação são bem maiores. E embora a crise da zona euro nestes países tenham sido supostamente ultrapassada, isso não se traduziu numa subida da confiança nas instituições, ao invés do que se verificou entre nós.

Mas ao contrário do que acontece na generalidade dos países objecto deste inquérito de satisfação com as instituições, abertura à imigração ou sentimento de felicidade, em Portugal há uma discrepância entre quem avalia o Governo e quem avalia a economia. O que preocupa os portugueses não é o Governo que têm; é o salário que auferem. Os países onde a satisfação com o Governo é mais elevada do que em Portugal são a Noruega a Suíça e Holanda, com os quais não nos podemos comparar a nossa economia e qualidade de vida. E o que dizem os portugueses que responderam a este inquérito é muito simples: quase nove em cada 10 inquiridos defende que o Governo deve tomar medidas para reduzir as diferenças entre os níveis de rendimentos dos cidadãos. Estamos mais satisfeitos e felizes, mas podíamos ganhar mais com isso. As desigualdades atrapalham muita gente.