Entrevista

“Costa é o único neste momento capaz de construir consensos”

Pedro Soares dos Santos, líder do grupo Jerónimo Martins, diz que os parceiros da coligação, Bloco e PCP, “só atrapalham”. E defende reformas estruturais no Estado e ataque à dívida pública, entre vários elogios ao actual primeiro-ministro.

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Pedro Soares do Santos, presidente e administrador-delegado da JM SGPS Rui Gaudêncio

Na mais recente aparição pública, durante a apresentação de resultados do grupo do qual é administrador delegado desde Abril de 2010 e presidente desde Dezembro de 2013,  assumiu a sua admiração pelo primeiro-ministro António Costa. Agora, Pedro Soares dos Santos especifica as razões.

Na área laboral, defende uma maior flexibilidade, sobretudo de horários, que considera necessária ao sector do retalho, assente no factor humano.

Na apresentação dos resultados disse que o “contexto socioeconómico parece estar melhor”. Este “parece” tem a ver com dúvidas sobre os dados, optimistas, ou sobre se a economia ainda não está assente em fundamentais sólidos?
Está a acontecer — não posso negar —, mas está a acontecer desde 2013. Há pequenos sinais que a economia está a melhor de uma forma tímida, mas muito limitada. Atribuo essencialmente esta recuperação a um ciclo positivo que a Europa está a viver, e que está a arrastar todas as economias para uma conjuntura de crescimento favorável — mas quer em Portugal, quer de uma forma geral no mundo. Portugal tem o mérito de já ter saído da intervenção da falência que teve em 2011. Temos ainda uma economia muito fraca. Não temos uma economia forte e segura que consiga viver a contraciclos.

Com pouca resistência?
Quase nenhuma. Não consegue, num contraciclo, ter força. E enquanto não lutarmos — que isto é um problema estrutural do país —, não posso considerar que a economia portuguesa esteja bem. A poupança está nos mínimos históricos deste país, há uma enorme insuficiência de investimento e os níveis de produtividade continuam muito baixos. E a criação de emprego qualificado está praticamente inexistente. Isso torna as economias mais frágeis.

Mas Bruxelas tem feito elogios aos últimos desenvolvimentos de Portugal no contexto da União Europeia.
Sim, mas Bruxelas… é político. São afirmações de contexto político. Aqui vivemos da realidade. A dívida em Portugal não está controlada totalmente e a nossa carga fiscal não baixa. Nem ninguém fala nisso. Só se fala em aumentar.

A sugestão do primeiro-ministro de criar um imposto na UE sobre as transacções financeiras não é recomendável?
Eu não gosto de aumento de impostos, seja por que razão for.

Nenhum cidadão, à partida, gosta. Mas é depois necessário financiar o Estado, não?
É, mas o Estado pode ser menos Estado.

Como assim?
Pode ser mais regulador do que interveniente na economia. Quando uma economia é forte e o consumo é sólido, o Estado tem sempre dinheiro para fazer o seu papel. Mas também tem que definir qual é o papel que quer ter na vida real das pessoas. Há Estados que querem mandar na nossa vida, que querem decidir tudo, que gostam de criar leis para tudo e de dizer o que podemos ou não fazer. Há Estados que dão liberdade ao cidadão, obedecendo ao Estado de direito que é a lei. Os Estados normalmente dos países menos capacitados em termos de qualificações gostam de ser mais intervenientes e dar menos liberdade às pessoas.

Mas hoje há mais intervenção? Um Estado menos interventivo continua a ser social?
Menos interventivo do ponto de vista, não do exercício das funções de regulador, mas do ponto de vista económico — não deve ter praticamente intervenção nenhuma se não na regulação da economia. Concordo que haja o Estado social, mas que não só haja obrigações como também direitos.

O Governo, com base na coligação como está, tem reivindicado mais direitos ou deveres às empresas?
Tem reivindicado mais deveres do que direitos. No discurso dos parceiros do Governo, só os vejo a reivindicar. Não os vejo a falar que há obrigações. A vida é feita de obrigações e deveres. Não encontro esse equilíbrio nessa discussão.

Quando mencionou [nos resultados] a pressão do mercado laboral, estava a falar do aumento do salário, no banco de horas ou na TSU [taxa social única]?
O banco de horas é uma coisa muito importante para todos. No nosso sector é crucial. Aquilo que o negócio, a margem, permita pagar melhor, as companhias devem fazer sempre: seja 4%, seja 5%, o que for. Porque isso é para o bem de todos, da comunidade. Na TSU, como não gosto de carga de impostos… Aumentar não faz sentido. Fazer uma redução pode fazer sentido desde que não faça perigar uma coisa que já é muito instável, que é a sustentabilidade da Segurança Social para o futuro. Não há descontos suficientes para pagar a Segurança Social.

Então qual é a alternativa?
Temos todos que nos sentar e pensar que tipo de Segurança Social queremos ter. Acho muito injusto, àqueles que toda a vida descontaram, que se lhes seja cortado [a pensão]. É uma enorme injustiça. Hoje, em Portugal, quando uma pessoa se reforma está condenada a piorar as suas condições de vida. Mas, se se tem que fazer isto, então prefiro que se sentem e tenham uma conversa séria e honesta e nos digam: “este modelo é insustentável. Vamos ter de discutir isto e como é que resolvemos a situação”.

E se a conclusão for que temos de aumentar a carga fiscal para sustentar a Segurança Social?
Se a sociedade como um todo estiver de acordo… Mas é um consenso.

Consenso que pressupõem uma negociação do bloco central?
Não. Pressupõe uma negociação dos políticos e da sociedade civil. Há gente da sociedade civil que pode não estar representada no Parlamento.

E esse diálogo é possível em Portugal, no actual contexto?
Deveria ser possível. [Na apresentação de resultados] mostraram-se muito espantados com a minha admiração pelo António Costa. Ele tem a capacidade de negociação, de construção de consensos, talvez única em Portugal neste momento. E com o actual Presidente da República, também.

Portanto, é um bom líder neste momento?
Acho que ele é um bom líder. Tem a capacidade para construir a paz social para que isto se consiga fazer. E é dos poucos, neste momento, que tem essa força interior e esse conhecimento suficiente do Estado português.

Mas preferia vê-lo sozinho?
Eu não preferia vê-lo sozinho. Preferia vê-lo com aqueles que no fundo acreditem que o país tem que sofrer reformas estruturais que estão, principalmente ao nível do Estado, ainda por fazer. E atacar o problema da dívida. Se pudermos todos ter uma conversa aberta e sã sobre isto, ainda melhor. Se não, tem que ser com aqueles que consigam fazer a diferença.

Mas quem é que elege para fazer esse diálogo?
Quem tem que eleger é o povo. Agora, eu não acredito que com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista seja possível.

Estão a atrapalhar?
Eu acho que só atrapalham. Porque eles acham que o Estado deve tomar conta de nós como pessoas e não concordo com isso.

A negociação entre PS e PSD devia ser alargada a que temas?
Um deles é a dívida, porque é isso que nos vai trazer mais ou menos liberdade para depois ter políticas mais ou menos sociais. E a reforma do Estado como um todo. Que tipo de Estado é que queremos em Portugal.

“Com os trabalhadores, se a gente quiser, acerta-se tudo — é fácil”

Sobre aumentos salariais aos 4,5% que os sindicatos estão a reivindicar a APED [associação de empresas de distribuição, hoje presidida pela JM] disse ao Negócios serem “muito”.
A APED é um conjunto de retalhistas. Há uns que estão mais bem preparados para que isso aconteça e há outros que podem não estar. Eles tentam conciliar essa situação. O JM já fez a sua reforma, os seus ajustamentos salariais: vai custar ao grupo, em ano e meio, 34 milhões de euros que são directos ao resultado da companhia Pingo Doce. Mas numa negociação não é preciso ser só o salário – há muitas outras coisas que podem ser negociadas. Até se pode dar esse montante se houver outras contrapartidas.

Tais como?
Flexibilidade dos horários de trabalho, fortalecer o banco de horas, flexibilidade nos postos de trabalho…

Maior mobilidade?
Maior mobilidade, mas dentro da própria loja – uma caixeira fazer mais coisas do que faz, haver essa liberdade. Há muita forma de negociar as coisas.

Um sindicato que o ouvisse diria que essa é uma outra forma de dizer “trabalhar mais”.
Não. Mas há muitas formas de trabalhar. Porque é que uma pessoa não pode ser contratada em função do número de horas que quer trabalhar na semana? Por exemplo, você quer fazer um part time e diz que quer fazer 12 horas, mas quer fazer 12 horas num dia. Porque é que não pode ser feito?

E há essa vontade da parte dos trabalhadores?
Então não há! Há muita vontade de muita gente. Mas os enquadramentos legais não o permitem. Porque é que não é possível?  Nem querem falar, nem querem negociar o assunto.

Quando diz “não querem” são sindicatos ou trabalhadores?
Os sindicatos. Com os trabalhadores, se a gente quiser, acerta-se tudo – é fácil.

E quando diz trabalhadores, está a falar um a um?
Um a um. Nós não temos comissão de trabalhadores, se calhar com muita pena minha.

Sobre a flexibilidade, as questões laborais normalmente acabam no banco de horas. E têm a ver com: não só os trabalhadores são avisados no próprio dia, como, usando o argumento do CESP (afecto à CGTP) são pagos a uma tabela inferior do que seriam se fossem horas extraordinárias.
Não. A questão não pode ser vista dessa maneira. Muitas vezes os horários – e é uma grande chatice – não coincidem com aquilo que as pessoas estão à espera. Mas isto também tem muito a ver com os próprios.

Como assim?
Porque se você tem uma loja, de manhã, que está preparada para receber 14 pessoas para trabalhar e chegam dez – o absentismo mexe com o horário de trabalho. O facto de as pessoas não terem respeito, entre elas, com os horários leva a que as coisas muitas vezes sejam alteradas à última hora.

Mas assim não está a dar um argumento a um acordo colectivo do banco de horas, ao dizer que o colectivo pode prejudicar o individual?
Não. Se há um acordo colectivo, tem que ser respeitado, por todos. Se você é mãe, naquele dia de manhã um filho está doente, não pode aparecer, algum colega seu tem que a substituir. E essa substituição cria logo uma desarticulação no horário. E mexe logo com os horários de todos os outros que estão a seguir. Se não conseguimos perceber isto, não conseguimos resolver nunca o problema. Então, não se abre a loja? Não se faz o trabalho?

Há a intenção de voltar ao pré-troika, de revogar a negociação individual do banco de horas — se o Governo mantiver esta ideia, advoga um modelo específico para o retalho?
A flexibilidade tem que ser introduzida para que possa ser reajustada em função do modelo de negócio. Eu não posso ter um modelo de negócio de uma indústria que não tem nada a ver com a minha. O meu trabalho está muito dependente das pessoas – não dependo de máquinas, de programações. Eu dependo do número de pessoas que aparecer de manhã e fizer o trabalho. O factor humano é crucial.

A CIP diz que só uma empresa tem 29 mil contratos individuais em banco de horas. É a JM?
Até pode ser.

Quantos trabalhadores têm em Portugal?
Temos 28 mil/29 mil só no Pingo Doce. É possível. Fizemos isso, mas com uma adesão de quase 90% das pessoas, voluntariamente. Que é isso que os sindicatos não gostam. Até porque temos uma força sindicalizada baixíssima.

O que os sindicatos dizem é que negociar com um trabalhador em situação de precaridade eventual é mais fácil do que lidar com um sindicato e que o contrato colectivo reforça mais os direitos…
Eu não acredito nisso. Porque nenhuma companhia gosta da precaridade. Gosta de ter gente que goste de trabalhar. E nós, que dependemos de uma mão-de-obra tão intensiva, é isso que queremos. A nossa força é muito trabalho sem termo.

Há possibilidade de agravar a TSU para os contratos que são a prazo, compensando para os contratos sem termo. Apoiaria?
Íamos beneficiar, claro. Porque hoje a maior parte é sem termo.

Têm uma média do aumento salarial em Portugal no grupo?
Foi dividido em três partes. Terá sido em média cerca de 8%. Tem mais valor o pacote do que o salário: do subsídio de almoço, dos prémios, das ajudas que a gente dá, os programas de responsabilidade social. Temos creches nos maiores centros de distribuição do país, a custo zero, com horários alargados para os turnos dos país.