Entrevista

“As mulheres estão mais preparadas para o amor”

Frank Tallis é pragmático: "Ser feliz não se resume ao amor", embora o procuremos e o queiramos viver a vida toda. O psicólogo clínico britânico escreveu um livro no qual identifica as doenças do amor.

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"As mulheres têm uma visão mais alargada do sexo no contexto de uma relação, enquanto os homens têm um problema com as emoções", diz Frank Tallis Daniel Rocha

A capa e o título e até a citação do escritor Ian McEwan – "Mergulha fundo na própria essência do amor" – podem ser enganadores. Este não é um romance, embora o professor e psicólogo clínico Frank Tallis já os tenha escrito. O Romântico Incurável e outros casos de desejo e loucura é um livro de psicologia sobre as doenças do amor. Contando pequenas histórias de doentes que acompanhou em consulta, o especialista britânico vai identificando algumas doenças com a intenção de ajudar o leitor a prevenir comportamentos porque a linha que separa o amor normal do anormal é muito ténue. Nesta entrevista faz algumas revelações – não há donzelas perfeitas, nem príncipes encantados – e deixa o alerta: "Há uma ilusão que, se encontrarmos a pessoa certa, seremos felizes, mas é preciso mais do que isso. Ajuda muito, mas não é o suficiente."

No que diz respeito ao amor, há séculos que a natureza humana é a mesma, não muda?
Não, não muda, nem no que diz respeito às doenças relacionadas com o amor. Há referências desde o tempo dos egípcios, na poesia, onde é dito que os amantes procuram os médicos porque se sentem febris e instáveis. Os gregos e os romanos também as reconheceram, os poetas de todas as culturas... Nos séculos IX e X foram escritos livros por médicos islâmicos, mas as doenças do amor só foram levadas a sério a partir do século XVIII, no Ocidente. Depois houve uma altura, que perderam a importância e a medicina deixou de reconhecer algumas delas.

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E continuamos a desvalorizá-las?
Sem dúvida e mal, infelizmente. Mesmo quando o amor é normal, há sintomas ligados à obsessão, à euforia ou à depressão. Só que quando o amor é uma doença, esses sintomas podem ser catastróficos. Por exemplo, no mundo, 10% dos homicídios estão relacionados com o ciúme; a rejeição pode levar ao suicídio, sobretudo entre os mais jovens que não têm maturidade para lidar com isso. Portanto, se olharmos para as evidências, o amor deve ser levado a sério e a sociedade não o faz. Continuamos a ridicularizar quem está apaixonado e devíamos lidar com mais sensibilidade, desde muito cedo.

Isso aprende-se, por exemplo, na escola? Porque aí é ensinada a educação sexual, mas não o que é o amor.
Os dois [o amor e a educação sexual] deveriam andar juntos! Na escola fala-se sobre o ter sexo no contexto de uma relação amorosa, mas depois não exploram o que isso é, nem as consequências de estar numa relação amorosa. Quando estudei psicologia, em oito anos de formação, tive apenas uma palestra sobre o Amor Romântico e o tom foi quase como se fosse uma piada. E no entanto é, com frequência, a coisa mais importante na vida das pessoas, que nascem, vivem, procuram um companheiro, apaixonam-se, querem ter uma família e que os seus filhos encontrem o amor. 

E se não for a escola, podem ser os pais? É que por vezes, o que os filhos vêem são discussões...
Muitas vezes, quando os pais são um mau exemplo, os filhos quando crescem não sabem como amar e limitam-se a copiar o modelo dos pais. Por exemplo o ciúme sexual: tendem a ser os homens a senti-lo em relação às mulheres, querem controlá-las através da violência, agredindo-as e até matando-as. Por isso, mais uma vez, o amor é um assunto sério.

O que é um amor normal?
O psicólogo norte-americano Robert Sternberg desenvolveu a Teoria do Amor, ele diz que para um amor ser consistente são necessários três parâmetros: paixão, tem de haver atracção sexual, que não dura para sempre; intimidade, temos de gostar da pessoa, é mais do que ser amigos, é preciso haver um sentido de proximidade; e tem de haver compromisso mútuo. É uma fórmula simples mas consistente porque quando algo de errado acontece, percebemos que algum destes três indicadores falhou. Por exemplo, se só tivermos a intimidade mas não houver atracção sexual, então é uma relação fria.

À medida que envelhecemos, o sexo é menos importante?
Sim.

Escreve sobre o caso de uma viúva que sentia falta do sexo com o marido, com quem pouco partilhava. A intimidade não deveria ser mais importante?
É preciso haver intimidade, amizade, comunicação, mas o que esse caso mostra é que o sexo pode ser poderoso. É uma forma de amor e esse caso contraria o que pensamos sobre relacionamentos. É uma excepção. A maior parte das pessoas quando se apaixona é claro que quer ter relações sexuais mas, quatro ou cinco anos depois, o sexo torna-se menos importante e as pessoas continuam a ter relações que as preenchem completamente. O sexo é importante porque mostra um grau de compatibilidade, o nojo é muito importante.

O nojo?
(Riso) Sim, por exemplo, há muitas culturas no mundo em que as pessoas não se beijam porque é nojento. E quando temos sexo percebemos que é tão íntimo, que partilhamos fluídos, que há partes do nosso corpo que estão associadas a coisas menos higiénicas, mas para podermos usufruir do acto sexual é preciso suprimir todos esses pensamentos. A compatibilidade sexual tem a ver com a nossa capacidade de suprimir o que é considerado nojento. Portanto, tem muito significado, não é uma coisa simples, o sexo é muito importante.

E é mais importante para os homens do que para as mulheres?
Sim. Quando fazia terapia de casal, normalmente, as mulheres queixavam-se de que eles não falavam, não partilhavam as suas emoções, que se tornaram nuns estranhos; já eles queixavam-se de elas não quererem ter relações sexuais.

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Isso significa que, num determinado momento da relação, homens e mulheres querem coisas diferentes?
Parece que sim, se olharmos apenas para a prática clínica. Mas agora há muitos dados disponíveis na Internet, por exemplo, há análises sobre as perguntas que as pessoas põem ao Google, falamos de milhões e milhões de pessoas que na intimidade do seu lar fazem perguntas e há uma queixa comum entre as mulheres – “o meu namorado não quer ter sexo comigo”. E isto é muito revelador.

São mulheres que perguntam? E os homens?
Eles perguntam sobre o tamanho do pénis e coisas estúpidas com que se preocupam…

Então o que significa essa queixa feminina?
O que a Internet nos permite ver é que as mulheres preocupam-se com o sexo. Isto significa que quando, algumas, chegam à terapia não sentem confiança para dizer, tal como os homens, “eu quero ter mais sexo”.

É uma questão cultural?
Sim, são os estereótipos que prevalecem.

Por isso, uma mulher não fala de sexo, mas de emoções?
Na prática clínica acontece muitas vezes ouvirmos uma pessoa a dizer uma coisa, quando quer dizer outra. E aqui pode ser o mesmo: as mulheres também estão insatisfeitas sexualmente, mas falam de sentimentos. É muito complexo e é uma das razões por que escrevi o livro, para mostrar que estes temas são complicados.

Se lermos colunas de aconselhamento em revistas, livros de auto-ajuda, as respostas são sempre tão simples, mas a realidade não é assim. É importante resistir, sobretudo na prática clínica é preciso olhar para cada pessoa como única, como aquela mulher para quem o sexo era tudo, ou seja, é importante resistir à simplificação.

Quem são os seus leitores, estudantes de psicologia e psiquiatria?
Não. Qualquer pessoa que já esteve apaixonada! Qualquer pessoa que já tenha procurado um ex-namorado no Google, isso mostra que há alguma obsessão. O livro não é só de estudos de caso, é uma exploração de todas as áreas do amor e do sexo. A editora diz que este é um livro que será mais lido pelas mulheres, mas os homens também precisam de o ler.

Porquê?
Porque os homens não pensam sobre o amor, pensam sobre sexo, mas não percebem que quando buscam o sexo, este pode vir com o amor. E essa é uma experiência que os deixa confusos, que pode ser esmagadora. Curiosamente, as mulheres estão mais preparadas para o amor.

E, no entanto, elas “googlam” sobre a falta de sexo. Isso significa que há uma mudança na forma como olham para o amor?
Não. As mulheres têm uma visão mais alargada do sexo no contexto de uma relação, enquanto os homens têm um problema com as emoções. Muitos dos casos de pessoas que não conseguem lidar com a intensidade das emoções são de homens que são mais imaturos, que não estavam preparados e, por isso, quando se apaixonaram e não resultou foi devastador para eles. 

É porque são imaturos que quando chegam à meia-idade procuram mulheres mais jovens?
Sim! (risos) É verdade, porque em primeiro lugar dão prioridade ao sexo. Uma das consequências dessa opção é que esses homens mais velhos acabam por tornar-se muitíssimo ciumentos das suas jovens mulheres. Esperam que a beleza e a juventude delas lhes traga o paraíso na Terra e torna-se num inferno.

Isso significa que o amor e a felicidade deveriam ser sinónimos?
Deveriam ser, mas não o são frequentemente. Na verdade, na nossa cultura, se olharmos para o amor romântico, é quase como se acreditássemos que este tem de ser atormentado, que o nosso coração tem de se rasgar. É muito interessante olharmos para a história do amor romântico, a sua origem é islâmica, tem a ver com a o anseio da alma por Deus. Os trovadores não compreenderam que este amor era uma alegoria e confundiram os objectivos espirituais com os terrenos, importando uma série de expectativas irrealistas para o amor, a ideia de encontrar uma mulher perfeita. São expectativas e ninguém está à altura. Em particular para as mulheres, isto é muito exigente, o ser linda e perfeita.

Mas as mulheres também procuram o “príncipe encantado”. Não é o mesmo princípio?
Sim. Contudo, essa é uma ideia que vem reforçar a falta de poder das mulheres e uma série de outros estereótipos que não devem ter lugar no mundo moderno. Mas o amor romântico continua à procura das mulheres bonitas e perfeitas e que estas assim o serão para sempre.

É isso que nos faz querer ser “felizes para sempre”?
Nós queremos isso, mas temos de ser realistas. Primeiro é impossível porque alguém [no casal] vai morrer primeiro. É preciso perceber que os primeiros sentimentos não vão durar para sempre e que temos de reconhecer que ser feliz não se resume ao amor, que há imensas coisas na nossa vida que nos completam.

O amor pode resistir a coisas menos boas como o desemprego ou a morte de um filho?
Se olharmos para o divórcio, esta é a experiência mais traumatizante por que as pessoas têm de passar – a morte do amor –, a par da morte de um filho ou do companheiro. Quando o amor morre é apreendido como a pior coisa que pode acontecer. Por isso é importante ter uma vida preenchida, realizada. Há uma ilusão que, se encontrarmos a pessoa certa, seremos felizes, mas é preciso mais do que isso. Ajuda muito, mas não é o suficiente.

Precisamos de ter vida própria?
Sim. Para medir o quão autêntico é o amor é preciso ver quanto tempo consegue um casal estar longe e continuar apaixonado, porque cada um é uma pessoa, um indivíduo. Porque nunca se é um só.

Mas não é essa a ideia: ser um só?
Lá vem outra vez a ideia islâmica do amor romântico que chegou ao cristianismo.

Mas é uma ideia bonita!
Linda! E, de certa maneira é verdade quando o casal tem filhos, ou seja, a ideia que o amor se estende para a eternidade, mas as pessoas são indivíduos. Se investirmos toda a nossa vida noutra pessoa, não é uma boa ideia porque um dia pode ir-se embora. Por isso, funciona melhor se os indivíduos se complementarem verdadeiramente, mas nunca serão um só.

Essa individualidade de que fala pode levar-nos a trair mais? No livro diz que 20 a 40% dos homens casados e entre 20 a 25% das mulheres casadas traem e que 70% dos namorados são infiéis.
Eventualmente, mas há aspectos na sociedade moderna que vão noutra direcção. Por exemplo, os jovens que evitam ter relações sexuais.

É uma nova tendência?
Sim e preocupante.

Não é uma coisa dos EUA por razões religiosas?
Não. Também está a acontecer no Reino Unido.

Mas no Reino Unido a taxa de gravidez adolescente é muito alta. Por isso, essa tendência pode ser boa!
(Riso) O que estamos a assistir é que os jovens têm medo de ter relações sexuais porque vêem pornografia na Internet e pensam que é aquilo que lhes é exigido, uma performance ininterrupta com múltiplos orgasmos, com muitas companheiras. As raparigas temem que lhes seja exigido fazer coisas com as quais não se sentem confortáveis. Este é um verdadeiro problema no Japão, com o governo preocupado com o futuro do país, porque estes jovens isolam-se e evitam o sexo. 

Então, voltamos a falar da necessidade de educar?
Sim, na escola. É importante fazer as pessoas compreenderem que quando nos apaixonamos há emoções que são normais, alertar os mais novos para a complexidade do amor e que podem sentir-se instáveis, obsessivos, que podem ter um rival que desejam matar, que todas essas coisas fazem parte da vida e que se souberem como geri-las, melhor. 

Há amor à primeira vista?
Se olharmos para os dados, 70% das pessoas acredita que sim, 50% diz que já o experimentou, mas se pensarmos racionalmente é impossível. Como é que olhamos para alguém, pela primeira vez, e acreditamos que "estava escrito nas estrelas"? Não pode ser verdade. Pesquisas recentes sugerem que as pessoas sentem uma forte atracção sexual, juntam-se, o cérebro prega-lhes uma partida e pensam que é amor, mas na maior parte das vezes é luxúria. (Risos) Depois, as pessoas reescrevem a sua história.

Porque precisam de o fazer, porque o amor não é racional.
Não é racional e não temos controlo sobre ele, mas em última instância podemos dizer que é um mecanismo de evolução, como diria Darwin. Podemos escolher não ter sexo, mas pomos em risco a sobrevivência da espécie. Em 20 mil anos, o amor não mudou, interpretamos, com instrumentos culturais, sociais, mas é profundo, está gravado no nosso cérebro e no nosso corpo. Vemos que há mudanças subtis, mas a linguagem base do amor permanece inalterada. Os homens tendem a exibir-se, as mulheres tendem a escolher. O sexo é importante até a questão da procriação estar resolvida. Há padrões que se mantêm os mesmos. Mesmo quando se criam sociedades utópicas ou disruptivas, acabam por não ter sucesso, e voltam à família tradicional.

No final o amor vence?
Sim.

E o amor é tudo o que precisamos (Love is all we need)?
Não. Eu não concordo com Paul McCartney. É importante, mas precisamos de outras coisas!