O papel do jornalista “é informar, contar histórias, entreter, mas não é prejudicar”

Com o livro Planeta Cor-de-Rosa, Luísa Jeremias mostra os bastidores da imprensa cor-de-rosa. A directora da revista Flash! defende que pratica um jornalismo sério.

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Miguel Manso

Como é que as revistas cor-de-rosa conseguem surpreender os políticos, os actores ou os futebolistas na praia ou numa saída à noite? Como é que sabem que A namora com B? Como é que são as festas frequentadas por celebridades? De onde surgiu a expressão “brigada do croquete”? Em Portugal existe jet set? Há quem faça de tudo para aparecer nas páginas das revistas? Luísa Jeremias responde a estas e a outras perguntas no livro Planeta Cor-de-Rosa: confissões de uma diretora de revistas de sociedade, lançado nesta quinta-feira, em Lisboa, pela Casa das Letras.

Este não é o primeiro livro que Luísa Jeremias, directora da Flash! há quase uma década, redige, mas é o primeiro que é uma espécie de guia do “social”, escrito com ritmo, em que o leitor é convidado a conhecer figuras do passado e do presente, a perceber como evoluiu esta imprensa, que, há anos, acompanhava o frágil jet set  português e que, hoje, se dedica às vidas de figuras que fazem de tudo para serem públicas — algumas são mesmo “carne para canhão”, escreve a autora, para quem não há arrependimentos mas, admite, muitos assuntos têm de ser tratados com “pinças” e com muito “bom senso”.

A experiência de 25 anos de trabalho não faz Luísa Jeremias — que começou a sua carreira no Diário de Notícias, em 1992, e passou pelos extintos A Capital24 Horas e Tal&Qual — ter qualquer dúvida de que no jornalismo cor-de-rosa também se faz investigação, declara em entrevista ao PÚBLICO, e que a imprensa cor-de-rosa é tão séria quanto a restante. “É tudo a mesma coisa, nós acabamos por lidar com os assuntos rigorosamente da mesma forma. Vamos dar um exemplo prático: a Bárbara Guimarães é vítima de agressão. Este é um assunto que interessa à imprensa séria, porque é um caso de violência doméstica, e que interessa à cor-de-rosa, porque não só há violência doméstica como esta é com uma figura pública.”

Mas cada um trata o tema de maneira diferente? Não, responde Luísa Jeremias. “Tem de tratar da mesma forma. Relatando os factos, não se deixando influenciar, tem de haver distanciamento das fontes, dos protagonistas, caso contrário perdemos todos, perde toda a imprensa, que fica descredibilizada.” E a directora da Flash! regressa ao mesmo exemplo: “Houve quem conseguisse tratar o tema tentando fazer o menos mal possível, tentando ser isento, não veiculando informação manipulada, vinda deste ou daquele lado.” Porque os jornalistas são manipulados? “Todos os dias”, exclama. A sabedoria reside em fazer a distinção “entre o que querem que nós veiculemos e o que nós queremos veicular”, continua. “Quando uma informação me chega, pergunto sempre: a quem é que serve?”

Neste caso, as crianças foram expostas, vale tudo? Uma notícia numa revista cor-de-rosa pode destruir uma vida, quando isso acontece não se sente culpa? Luísa Jeremias ri e tem dúvidas se, realmente, se destrói alguém, mas volta a assumir uma postura séria para dizer que um jornalista não tem de se sentir culpado quando relata um facto. “Nunca se farão investigações porque estaremos sempre a destruir vidas? Não. Eu faço o meu trabalho e não faço juízos de valor.” Afinal, o papel do jornalista “é informar, é contar histórias, é entreter, mas não é prejudicar”.

Entreter? “Todos temos, cada vez mais, uma maior componente de entretenimento: a imprensa cor-de-rosa entretém quando divulga as imagens de uma festa; a imprensa séria pode fazer rigorosamente o mesmo entretenimento quando noticia fait divers de celebridades. É uma tendência ‘cor-de-rosar’ a vida para a tornar mais apelativa”, responde.

"A ética tem que ver com bom senso"

Não se prejudica ninguém quando um fotógrafo se esconde à espera de que alguém cometa um deslize? Onde é que fica a ética? Porque um jornalista deve “utilizar meios leais para obter informações, imagens ou documentos”, diz o código deontológico, e “a identificação como jornalista é a regra e outros processos só podem justificar-se por razões de incontestável interesse público”. “A ética tem que ver com o bom senso, voltamos sempre à boa e velha questão do bom senso. Quando vou investigar as casas de Sócrates, isso é ético? Quando sigo uma pessoa, é ético? Para todos os efeitos, já está a ser julgado em praça pública quando ainda não foi condenado pela justiça e, no entanto, estas coisas são feitas. As questões colocam-se da mesma forma — tem de haver um momento para parar e perceber o bom senso da questão”, diz.

Luísa Jeremias confessa que das “coisas que mais confusão” lhe fazem é mostrar funerais. “É um horror. Fazemos uma capa com tudo o que as pessoas querem ver. As pessoas querem emoções — agora chamam-se experiências — e querem ver alguém a chorar. Como é que se lida com isto?”

— E quando a pessoa pede recato? — pergunta o PÚBLICO.

— Pedem todos, agora — responde.

— O que é que a revista faz?

— O que é recato? É não dar imagens? Mas tem de se dar...

— Aí não há ética?

— E qual é a ética de toda a gente pedir recato sobre tudo? Voltamos ao bom senso. Eu tenho de dar o funeral porque as pessoas querem ver. Ponto final parágrafo. Não vale a pena andarmos com falsos moralismos. As pessoas queriam ver a cara da Judite Sousa quando perdeu o filho, querem ver o José Sócrates a ser preso, querem ver o Rui Vitória a sair do estádio quando perde. É a busca da emoção. Como é que se dá isto? Com pinças, inevitavelmente, tem de ser dado com muito bom senso, porque as fronteiras são muito ténues e é preciso recato a fazer as coisas sem deixar de as dar. É muito complicado — admite a jornalista.

Muitas destas decisões dão origem a processos em tribunal? Sim, como em toda a imprensa, desvaloriza a directora. “O problema maior é o da autocensura. Isso leva a que haja coisas em que pensamos dez vezes antes de escrever, mesmo que tenhamos toda a história, e depois há o lado B, a possibilidade de irmos a tribunal e de podermos ser condenados. A censura começa em nós, e quando pensamos dez vezes temos um problema”, reconhece.

“A indústria mudou”

Actualmente, “as coisas são mais tranquilas do que há dez anos”. Antes, “havia a cultura dos paparazzi, era tudo mais exagerado, hoje há mais cuidados a lidar com esses temas”. Entretanto, os paparazzi entraram em vias de extinção. Tudo mudou porque há menos dinheiro — a crise chegou aos meios de comunicação social e estes, além de dinheiro e de publicidade, perderam também leitores à conta das redes sociais. “A indústria mudou, a vida passou a ser mais exposta e, quando se mostra tudo, as coisas deixam de ter interesse. Se tenho uma actriz que todos os dias aparece de biquíni nas redes sociais, porque é que hei-de pô-la de biquíni na revista? Só se houver uma história para contar”, argumenta Luísa Jeremias, que fez a sua estreia nas revistas de sociedade em 2003 como directora da TV7Dias, foi convidada para a Nova Gente, esteve na Focus, mudou-se para a TV Guia e esteve ainda na formação do canal de televisão CMTV.

Por um lado, “temos um mestre de propaganda e imagem que é o nosso Presidente da República, não há melhor do que ele, é genial, comove-se como ninguém e nem sequer precisa das redes sociais para nada”. Por outro, “temos o Cristiano Ronaldo, um mestre nas redes sociais”. Que só faz passar aquilo que lhe interessa, contrapõe o PÚBLICO. Não necessariamente. “As redes sociais são para o bem e para o mal”, responde Luísa Jeremias, recordando um episódio com o craque português e umas festas em Marrocos. “É preciso fazer trabalho por cima do que eles põem nas redes sociais.” Ou seja, as celebridades publicam o que querem nas suas contas — tendo com isso tirado trabalho aos fotógrafos —, mas cabe aos jornalistas “saber sempre mais qualquer coisa”.

No livro, a autora descreve quem foram e quem são as figuras públicas que as revistas seguem. Há umas décadas havia aristocratas, depois vieram os actores e agora as celebridades dos reality shows. Houve uma decadência? “Houve uma adaptação”, responde. Mas queremos que essas pessoas sejam modelos de vida para os nossos filhos? A verdade é que são, responde Luísa Jeremias, lembrando o fenómeno dos youtubers. “O que é que mudou? Há várias realidades. Quem compra papel ainda olha para algumas figuras que são a nossa realeza: o Marcelo Rebelo de Sousa, a Cristina Ferreira é uma plebeia que se tornou uma princesa da televisão, a Alexandra Lencastre é uma duquesa fantástica porque tem aquela pose. Criámos o nosso próprio modelo de estrelas num país onde não há casas reais nem aristocracia. E onde o dinheiro desapareceu de cena. O que há é dinheiro novo dos Cristianos Ronaldos desta vida que fazem como as Kardashians nos EUA, que têm estatuto de celebrities. O Cristiano Ronaldo joga à bola e é o melhor do mundo… apenas! Mas se não fosse, podia ser uma celebridade porque toda a família, toda a entourage, já entrou numa fase de reality show”, avalia Luísa Jeremias.

Quem não compra revistas e anda na Internet, os mais jovens, procura outras figuras. “É dramático perceber isso, mas a vida online é tão rápida, tão instantânea, tão superficial…” Mas quando a imprensa cor-de-rosa noticia uma miúda que a única coisa que fez na vida foi mostrar as mamas na televisão, o que é que está a fazer? “Entretenimento.” E onde fica o serviço público? Noutro “tipo de informação”, por exemplo, as investigações — Jeremias orgulha-se de uma que a revista fez sobre a fortuna de Mário Soares —, notícias sobre alimentação, vagas no ensino superior, enumera. “Fazemos de uma forma mais light, mas a imprensa séria também se está a tornar light”, avisa.

E voltamos ao início da conversa: imprensa séria versus cor-de-rosa. Há preconceito? “Sim. A séria caminha rapidamente para uma cor-de-rosa? O mais possível. E a cor-de-rosa? Tentei sempre ser séria dentro da cor-de-rosa porque sempre acreditei que é mais difícil fazer uma revista onde se pare para ler uma história do que enchê-la de festas e desfiles de roupas. Isto é possível fazer em revistas de sociedade desde que haja dinheiro. Quando se tenta fazer isso é mais difícil? Dá trabalho? Sim, mas o resultado final é muito mais agradável.”

Quais são as consequências da falta de dinheiro? “Passamos a sair menos, mas cada vez que saímos trazemos sempre coisas boas. Às vezes o sair até pode ser ficar à secretária, mas com tempo para fazer uns telefonemas, porque sem tempo é… toca a andar. O New York Times já passou por isto tudo e concluiu que vale sempre a pena uma boa história, mas para isso temos de ter dinheiro. Tudo se reduz a isso”, conclui.