Opinião

O (eterno) regresso da Guerra Fria

Vladimir Putin, Donald Trump ou o ministro dos Estrangeiros britânico, Boris Johnson, parecem ter tudo para ser amigos do peito.

O recente caso de envenenamento de um agente duplo de nacionalidade russa e da sua filha, numa cidade do Reino Unido, provocou um conflito diplomático que evoca os tempos mais sombrios da Guerra Fria entre o Ocidente e a então União Soviética e parece extraído de um clássico de John Le Carré. Com uma enorme diferença, porém. Nesses tempos, as personagens e intérpretes da intriga internacional pareciam demarcados uns dos outros como num filme a preto e branco dos anos 1950. Hoje, o que surpreende e chega a espantar são as suas semelhanças e cumplicidades secretas.

Vladimir Putin, Donald Trump ou o ministro dos Estrangeiros britânico, Boris Johnson, parecem ter tudo para ser amigos do peito e não seria difícil imaginá-los à volta de uma mesa partilhando jogos de guerra ou outras manias comuns. Vivem deslumbrados pelos respectivos egos e centrados sobre os seus umbigos, comungam de uma semelhante sobranceria autocrática e um idêntico desprezo pela democracia. Aliás, não foi por acaso que Putin se mostrou tão empenhado em favorecer a eleição de Trump e o "Brexit" (do qual Boris Johnson foi um dos artífices mais fervorosos).

Ei-los, porém, hoje, nas vésperas da reeleição do autocrata russo, envolvidos numa reedição nostálgica da Guerra Fria. Boris – logo um nome russo! – fez questão de encontrar um cenário adequado para a sua declaração bélica contra Putin: o bunker da Batalha de Inglaterra celebrizado por Churchill. Aí, o chefe do Foreign Office disse, preto no branco: "A nossa disputa é com o Kremlin de Putin e com a sua decisão. Achamos altamente provável que tenha sido decisão sua o uso do agente neurotóxico nas ruas do Reino Unido, nas ruas da Europa, pela primeira vez desde a II Guerra Mundial". Apesar da conhecida eurofobia de Johnson, nem as "ruas da Europa" deixaram de ser evocadas nesta declaração com óbvias pretensões churchillianas...

Quanto mais parecido contigo, mais preciso de distinguir-me de ti… – não só para evitar associações comprometedoras mas também para sublimar rivalidades entre irmãos de espírito. Além disso, foi uma oportunidade de ouro para disfarçar cumplicidades comprometedoras (no caso de Trump) ou fraquezas cada vez mais insustentáveis (no caso de Johnson e da primeira-ministra Theresa May por causa do "Brexit"). Daí a declaração solene que juntou os Estados Unidos, a Alemanha e a França ao Reino Unido, contra Putin – e que este terá porventura agradecido, enquanto contributo para a sua consagração como novo czar da Rússia Eterna. A Guerra Fria está de volta para responder ao caos das relações internacionais, ao mesmo tempo que a democracia vai definhando e o autoritarismo é promovido como novo horizonte político do mundo globalizado (veja-se o caso da China, exactamente ao contrário do que profetizava Francis Fukuyama no seu O Fim da História e o Último Homem).

A velha Guerra Fria colocou o Ocidente capitalista e o Leste comunista suspensos do "equilíbrio do terror" nuclear, enquanto à sombra dela se perseguiam múltiplas formas de dissidência (como aconteceu nos EUA durante o macartismo). Mas havia então uma divisão do mundo que tornava as fronteiras menos opacas do que hoje, nesta nova Guerra Fria onde se regressa à tentação do apocalipse com armas mais sofisticadas (é precisamente o caso da Rússia) e em que, porém, como à noite, todos os gatos são pardos: Trump, Putin, Johnson, o norte-coreano Kim Jong-un, o novo imperador chinês Xi Jinping e todos os aprendizes de feiticeiro do autoritarismo que se expande pelos quatro cantos do planeta.