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Antigo director adjunto do FBI despedido a 26 horas da reforma

Na hora da saída, soube-se que Andrew McCabe terá redigido vários memorandos em que relatava as interacções que teve com Trump, tal como que o ex-director do FBI James Comey.

McCabe foi adjunto de James Comey, que também foi despedido
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McCabe foi adjunto de James Comey, que também foi despedido Reuters/Kevin Lamarque

O secretário da Justiça norte-americano, Jeff Sessions, despediu esta madrugada o antigo director adjunto do FBI Andrew McCabe a pouco mais de 24 horas do início da sua reforma. McCabe, que foi forçado a demitir-se da liderança da polícia federal em Janeiro, acusa o Presidente Trump de liderar “uma guerra contra o FBI e contra os esforços da investigação do procurador especial” sobre as suspeitas de conspiração com a Rússia.

O ex-director adjunto terá redigido vários memorandos em que relatava as interacções que teve com Trump, à semelhança daquilo que o ex-director do FBI James Comey fez, disse à Associated Press uma fonte anónima “com conhecimento directo da situação”. O teor destes relatórios não foi revelado, mas os de Comey, por exemplo, davam conta de conversas em que Trump exigiu “lealdade” ao director do FBI e o pressionou a abandonar a investigação aos contactos entre membros da sua Administração e dirigentes russos.

A ira de Donald Trump contra Andrew McCabe era conhecida desde que o Presidente despediu, em Maio do ano passado, James Comey — McCabe assumiu a liderança da polícia federal por apenas um mês, até à nomeação de um novo director, Christopher Wray, em Agosto.

Depois disso, McCabe transformou-se no alvo da Casa Branca dentro do FBI — foi investigado por ter autorizado conversas com os media sobre a investigação à Fundação Clinton, que ele liderou; e era visto por muitos apoiantes do Presidente Trump como um membro daquilo a que chamam Deep state (estado profundo, em inglês), uma suposta teia de responsáveis norte-americanos que serão os verdadeiros líderes dos Estados Unidos, cuja existência nunca foi demonstrada.

O despedimento de Andrew McCabe foi anunciado na noite de sexta-feira, precisamente como resultado da investigação interna do FBI. Esta semana, o departamento de assuntos internos recomendou que McCabe fosse despedido e remeteu a decisão final para o secretário da Justiça, Jeff Sessions — um responsável que também já foi repreendido publicamente pelo Presidente, em Julho do ano passado, numa entrevista ao The New York Times, quando Trump disse que nunca o teria escolhido para o cargo se soubesse que ele iria afastar-se dos comandos da investigação sobre a Rússia.

“Grande dia para a Democracia!”

A decisão de Sessions foi anunciada por volta das 22h de sexta-feira, a 26 horas do início da reforma de Andrew McCabe. No FBI desde 1996, McCabe estava de licença desde Janeiro, quando se demitiu de director adjunto, e esperava por este domingo, o dia em que completa 50 anos de idade, para se reformar.

Pouco antes da meia-noite, o Presidente Trump congratulou-se no Twitter com o despedimento do antigo director adjunto do FBI: “Andrew McCabe foi despedido, é um grande dia para os homens e mulheres trabalhadores do FBI — um grande dia para a democracia. James Comey foi o patrão dele e fez do McCabe um menino de coro. Ele sabia tudo sobre as mentiras e a corrupção que estavam a acontecer no topo do FBI!”

McCabe é acusado de ter favorecido Hillary Clinton quando liderou as investigações sobre a Fundação Clinton e de não ter independência para supervisionar as investigações do FBI sobre as suspeitas de conluio entre a campanha de Donald Trump e a Rússia.

Com esta decisão, McCabe deverá ter de esperar entre sete e 12 anos para começar a receber a sua pensão, e mesmo então o valor será menor do que se não tivesse sido despedido. Devido às operações em que esteve envolvido em mais de 20 anos no FBI, e aos cargos que desempenhou, teria direito a um bónus especial – que, mesmo assim, não deveria dar-lhe um cheque anual superior a 60 mil dólares (49 mil euros), segundo contas feitas pela CNN.

De acordo com os jornais norte-americanos, o secretário da Justiça informou o antigo director adjunto do seu despedimento por e-mail minutos antes de ter anunciado publicamente a decisão.

Pouco depois, Andrew McCabe emitia um comunicado com graves acusações contra a Casa Branca: “Este ataque contra a minha credibilidade faz parte de um esforço maior, não apenas para me caluniar, mas também para manchar o FBI, as forças de segurança, e os profissionais dos serviços secretos em geral.”

Mas as acusações foram ainda mais longe: “Faz parte de uma guerra da Administração contra o FBI e contra os esforços da investigação do procurador especial [Robert Mueller]. A persistência [da Administração] nesta campanha salienta a importância do trabalho do procurador especial.”

Na prática, o antigo director adjunto do FBI (que assistiu ao despedimento do seu antigo chefe, James Comey, em Maio do ano passado) acusou a Casa Branca de obstrução à Justiça – uma das principais linhas de investigação do procurador especial e aquela que abre mais possibilidades a uma eventual acusação formal. “O que está em causa é o que pode acontecer quando as forças de segurança são politizadas, quando os profissionais são atacados e quando as pessoas que deveriam proteger as nossas instituições se transformam em instrumentos para causarem danos a essas instituições e a essas pessoas”, disse McCabe.

O antigo director adjunto do FBI salientou também que o seu testemunho sobre as suspeitas de interferência da Rússia nas eleições de 2016, perante a investigação da Comissão de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes (que acabou abruptamente esta semana, contra a vontade do Partido Democrata), indicou que ele “iria corroborar” o depoimento de James Comey sobre as conversas que teve com o Presidente Trump – o antigo director do FBI disse que o Presidente lhe pediu que jurasse a sua lealdade e que “deixasse cair” a investigação ao então conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn.

Apesar de depender da Casa Branca, por intermédio do Departamento de Justiça, o FBI tem uma tradição de independência do poder político, pelo que qualquer pedido de lealdade que não seja à justiça pode ser encarado como uma forma de pressão.

Segundo o advogado de McCabe, Michael R. Bromwich, essa separação entre a Casa Branca e o FBI foi posta em causa, dando como exemplos os tweets de Donad Trump sobre o seu desejo de ver Andrew McCabe fora do FBI, e de uma declaração da porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, na quinta-feira – nesse dia, Sanders disse que “está bem documentado que ele [McCabe] teve um comportamento preocupante”.

“Esta intervenção da Casa Branca e do Departamento de Justiça no processo disciplinar não tem precedentes, é profundamente injusta e perigosa”, disse o advogado de Andrew McCabe.

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