Opinião

A pressão de fazer “a escolha certa”

Muitas vezes, os jovens não conhecem sequer que alternativas têm para além dos cursos científico-humanísticos, como o ensino técnico-profissional e o artístico especializado. Para muitos, o único caminho ou única certeza é o ingresso no ensino superior

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Para além das provas formais, que orientam, mas não são a única resposta, o mais importante é informar e ajudar o jovem na fase de exploração Joana van Hellemond/Arquivo

Nesta fase do ano letivo, muitos jovens de 14 anos têm de começar a fazer uma escolha que vai ter impacto no seu futuro académico e até mesmo profissional. Mas, numa altura em que a sua personalidade está ainda em formação, o jovem muitas vezes não revela maturidade suficiente para realizar essas escolhas e, geralmente, não possuiu os recursos necessários para pesquisar e informar-se acerca das alternativas que tem.

Pior ainda, não se conhece ou não sabe identificar em si próprio características, aptidões e até mesmo interesses para que a sua escolha seja feita com alguma exatidão. Quando isso acontece, é frequente que as escolhas sejam baseadas em opiniões de terceiros com importância significativa (pais, professores, amigos), nas áreas com as saídas profissionais com maior probabilidade de sucesso ou com a suposta garantia de emprego. Isto conduz a escolhas por áreas mais “seguras” que, frequentemente, não poderiam estar mais afastadas do perfil e interesse do jovem. Muitas vezes, não conhece sequer que alternativas tem para além dos cursos científico-humanísticos, como o ensino técnico-profissional e o artístico especializado. Para muitos, o único caminho ou única certeza é o ingresso no ensino superior.

A preocupação com as médias é tão grande que, neste momento, vejo frequentemente em consulta verdadeiros “estudantes de alta competição” com horários escolares bastante exigentes e ainda horas extras de explicação e apoios que retiram muito tempo e espaço para o jovem experienciar outras atividades ou tempo de lazer. “Cai-se” no erro de ficar apenas focado nas médias de acesso à faculdade, na nota para ir a exame, de preparar até à exaustão esses mesmos exames. Não se nota preocupação em dotar o jovem de outras competências tão ou mais importantes, como o saber trabalhar em equipa, desenvolver capacidades e talentos, de estar em relação com os outros e até mesmo de saber estar consigo mesmo, sem horários, pressões ou exigências. Esse jovem torna-se cada vez mais ansioso e, por muito investimento escolar que faça, mais afastado fica dos seus sonhos, menos se conhece, menos se desenvolve e cresce enquanto indivíduo.

É o caso da Rita, jovem de 16 anos a frequentar o 11.º ano numa escola privada com horário completo das 8h às 20h sem espaço para viver a adolescência, sem experienciar o que é esperado para a sua idade, a descabelar-se (e atenção que esta expressão não é em sentido figurado) em consulta, desesperada a gritar e a chorar afirmando: “O que é que interessa que esta escola exigente me prepare para um exame, se não me dá a nota necessária para que o possa realizar!” A que custo valerá manter estes jovens infelizes e sem vida própria numa área ou curso seguro e com saídas “garantidas”, se essa questão é tão menos importante quando estes não podem viver o presente.

A definição mais atual de orientação vocacional consiste num conjunto de intervenções que procuram ajudar o indivíduo na identificação das suas formas identitárias subjetivas e encorajá-lo a encontrar formas de implementar procedimentos para conseguir transformar a expetativa em realidade, redefinindo prioridades, identificando apoios, cultivando recursos e envolvendo-se em atividades (Savickas, 2009). Durante o processo de orientação escolar e profissional (OEP), o jovem é ajudado a refletir sobre o seu percurso escolar até à data, como se perceciona em termos de competências de estudo, capacidade de se manter atento, de estabelecer metas e objetivos pessoais, entre outros.

Para além das provas formais, que orientam, mas não são a única resposta, o mais importante é informar e ajudar o jovem na fase de exploração, para, em última análise, conseguir atingir uma maior maturidade vocacional. Este processo faz sentido tanto no 9.º ano como ao longo do secundário, quando tantas outras questões se levantam, como: “Que exame irei escolher? Qual o melhor curso universitário? Como preparar o ingresso no mercado de trabalho?”

Pode também procurar este processo de OEP para validar a sua escolha, perceber se realmente é a mais adequada e procurar descobrir as alternativas existentes. É por isso importante permitir que este processo se traduza num maior autoconhecimento do jovem (a nível das suas caraterísticas de personalidade, aptidões interesses, valores, etc.), seja um momento para desenvolver as suas capacidades e prepará-lo para o mercado de trabalho, em constante mudança, sendo incentivados a tomar decisões.