Costa desvaloriza intervenções de Assunção Cristas e cola-a ao Bloco

Num debate sem história, o primeiro-ministro cavou mais um pouco o fosso da animosidade com PSD e CDS. À esquerda, elogiou a proposta do PCP para taxar empresas para financiar a Segurança Social.

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Manuel de Almeida/Lusa

O primeiro-ministro queria dar gás, no Parlamento, às medidas da nova estratégia de inovação 2018-30 que serão aprovadas num Conselho de Ministros especial desta quinta-feira, mas o debate quinzenal acabou por deambular por temas como a saúde, as reformas, as horas extraordinárias dos trabalhadores do porto de Lisboa ou os serviços públicos. Os anúncios de António Costa foram ignorados à direita e à esquerda, e o primeiro-ministro optou por uma estratégia de menorização da oposição, tentando esvaziar as intervenções de Hugo Soares e sobretudo de Assunção Cristas. Teve abertura, no entanto, para deixar no ar a ideia que, mais cedo ou mais tarde, vai aceitar a proposta do PCP para taxar o valor acrescentado bruto das empresas para financiar a Segurança Social.

O tema da saúde foi lançado por Catarina Martins que quis saber quando serão lançados os concursos para a contratação de médicos especialistas e quando haverá médico de família para todos os recém-nascidos. Lamentou que o dinheiro público continue a financiar a saúde privada e defendeu que o Estado internalize serviços como análises e exames, pelos quais paga 1,2 mil milhões de euros por ano aos privados.

Costa passou ao lado das perguntas da líder bloquista prometendo genericamente que os concursos “serão abertos”. E, quando questionado pela ecologista Heloísa Apolónia sobre o défice de recursos humanos na saúde, replicou que essa falta existe “em quase todos os sectores” públicos.

Assunção Cristas repetiu uma e outra vez as perguntas de Catarina Martins e o primeiro-ministro foi-se levantando ao mesmo ritmo apenas para lhe dizer que já tinha respondido, até que se disse “divertido” por ver a centrista mimetizar as perguntas da “colega deputada” do Bloco. "Devia olhar muitas vezes pelo retrovisor antes de criticar o Governo" que está resolver o que o anterior "deixou por fazer". Quando a centrista quis saber se subscreve o chumbo do PS à criminalização do abandono de idosos, Costa respondeu que o Governo “não comenta nem se pronuncia sobre votações no Parlamento” .

Hugo Soares, que teve neste debate a sua última intervenção como líder da bancada do PSD, questionou repetidamente António Costa sobre um despacho dos ministros do Trabalho e do Mar que alarga o trabalho extraordinário obrigatório dos trabalhadores do porto de Lisboa para as 850 horas anuais, mas este percebeu que o social-democrata o queria apanhar em contradição com os seus ministros e rematou a questão, dizendo que o despacho havia de estar “bem feito”.

A dois dias da mudança de líder no PSD, António Costa fez questão de saudar Pedro Passos Coelho - vincando a sua ausência do plenário - pela “forma empenhada e dedicada como serviu o país”, apesar de terem estado “reciprocamente quase sempre em divergência”. O diálogo com Hugo Soares ficou marcado por picardias constantes. O social-democrata vincou que, para estar ali, só precisara dos votos da uma bancada, a do PSD: "O senhor precisou dos votos de três". Costa respondeu: "O senhor deputado soma pouco, e por isso está na oposição, e nós somamos muitos". 

Jerónimo de Sousa optou por comentar a intervenção inicial de António Costa, a parte sobre inovação, modernização e digitalização. A revolução industrial 4.0 não pode ser "4 de exploração, zero no plano dos direitos", avisou o líder do PCP, que salientou ser preciso contrariar a tradição de os avanços da técnica “beneficiarem sobretudo a parte do capital”.

Para questionar Costa sobre a promessa de acabar com as penalizações na reforma para quem tem mais de 40 anos de descontos, o líder do PCP citou o caso concreto de uma operária de 61 anos e 42 anos de desconto que, sem as penalizações, receberia pouco mais de 400 euros de reforma, mas que, com as regras actuais, receberá apenas 297 euros. O primeiro-ministro lembrou que a aplicação da primeira fase (sem penalizações aos 46 anos de descontos) está a ser analisada em concertação social, deu como bons exemplos da diversificação do financiamento da Segurança Social os adicionais ao IMI e ao IRC já aplicados e considerou boa ideia a proposta do PCP de taxar o valor acrescentado bruto das empresas.