Reportagem

Na antiga Triumph os trabalhadores vigiam a porta e convidam o Governo a entrar

A vigília dos trabalhadores da Têxtil Gramax Internacional tornou-se num vigia à fábrica até que seja nomeado um administrador de insolvência. Até lá há um acampamento montado, dia e noite. “Se nós não fizermos isto, isto vai para o esquecimento. E não é coisa que se esqueça, que está aqui a vida de muita gente”, diz uma das costureiras.

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Dora Viegas e Florbela Malheiros terminam o seu turno pelas 20h, deixando as quatro horas seguintes à responsabilidade de Paula Duarte Miguel Manso
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Nos últimos meses pouco ou nenhum trabalho chegava às mesas de trabalho Miguel Manso
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Em Novembro, a administração comunicou que iria despedir 150 pessoas por "falta de clientes". Miguel Manso
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Os trabalhadores iniciaram a vigília no dia 5 de Janeiro, depois de ter ficado claro que a fábrica entrara em processo de insolvência Miguel Manso
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Os trabalhadores estão de vigia à fábrica. Nunca Florbela Malheiros imaginara estar aos 60 anos à porta da confecção, pronta para agarrar o braço de quem quer que tente retirar material lá de dentro. Nem Beatriz Henriques, de 62, se vira obrigada a apertar na lista das compras. Tampouco Paula Duarte, de 49 anos, pensaria ter que depender dos filhos. À décima segunda noite de vigília dos trabalhadores da antiga Triumph, em Sacavém, é certo que “dali ninguém sai sem um processo de insolvência”. Pedem ao Governo que interceda no garante dos seus direitos.

Há um acampamento montado. Sob uma tenda, nas cadeiras viradas para a estrada, uma dezena de trabalhadores conversa de encontro às brasas que ardem aos seus pés. O jantar, coelho, já foi servido. “Alguém quer chá? Café?”. Mesmo à porta da fábrica, actual Têxtil Gramax Internacional, as rotinas continuam. Há sempre alguém de vigia à entrada, não vá mais alguém tentar retirar alguma coisa da fábrica. A administração e um cliente já o tentaram, dizem os trabalhadores. “Mas nós também somos credores e nada vai embora até que venha o administrador nomeado pelo tribunal”, garante Florbela Malheiros.

Isso, ninguém sabe quando acontecerá. Por agora fazem turnos de quatro horas, rendendo de dezena em dezena os colegas de trabalho que até esta vigília muitos não conheciam. “Oxalá a gente não passe aqui o Carnaval. Mas isso também não seria problema: faz-se um desfile da Triumph e ainda nos vamos rir todas disso, que a gente aqui não perde a guerra”, riposta Dora Viegas, de 55 anos, 26 de firma.

Estar ali tornou-se uma espécie de obrigação para parte dos 463 trabalhadores quando se soube que a fábrica entrara em insolvência. “Com um pé lá dentro, outro no desemprego”, não fazem senão “lutar” pelo que, dizem, lhes pertence: os salários em atraso, o subsídio de desemprego para uns, a reforma para outros.

Parte dos trabalhadores já assinou uma declaração que lhes permite estar em casa, sem cortes no salário, quando este vier a ser pago. Mas quem ficou, pica o ponto à hora certa, como num dia normal.

“Se nós não fizermos isto, isto vai para o esquecimento. E não é coisa que se esqueça, que está aqui a vida de muita gente”, diz Dora Viegas. “Há situações muito complicadas de colegas sozinhas com filhos. Há casais e até uma mãe, filha e genro, todos trabalhadores desta casa”, continua Beatriz Henriques. Todos viram o salário de Novembro ser cortado em cinco dias. Não receberam em Dezembro nem o subsídio de Natal.

Dora não percebe o que é preciso “para que o Governo perca a vergonha e venha cá ver” o que se passa. “De que é eles têm medo? O ministro [da Economia] veio dar a palmadinha nas costas quando os donos pegaram nisto. A gente queria é que ele viesse cá agora”, insta a costureira e delegada do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis, Lanifícios, Vestuário, Calçado e Curtumes do Sul, afecto à CGTP.

O ministro, Manuel Caldeira Cabral, admitiu na terça-feira na Comissão Parlamentar de Economia, Inovação e Obras Públicas a existência de interessados na fábrica, mas, caso não se confirme, ressalva ser importante que, "pelo menos, se acautele os direitos dos trabalhadores".

Já passaram pela vigília dirigentes sindicais, os líderes do PCP e Bloco de Esquerda e associações. Os escuteiros montaram uma das tendas, o Partido Comunista outra, a câmara de Loures instalou um monobloco e uma casa de banho. Os bombeiros de Sacavém levaram e cortaram lenha, que chega diariamente pelas mãos de outros voluntários. As pastelarias entregam bolos e salgados. Amigos e vizinhos distribuem palmadas nas costas, um aconchego e comida. Parte do que ali chega é entregue “às colegas mais necessitadas”.

“Disse-nos que éramos um fardo”

À luz do candeeiro da rua e da lâmpada improvisada numa barraca, uma centena de pessoas corta e cola as memórias de uma fábrica que foi das maiores do concelho de Loures. Recordam as festas, os prémios que compunham o salário e desafogavam as contas, o frenesim das encomendas e milhares de peças cortadas, cozinhas e armazenadas por dia. “A gente não fazia soutiens e cuecas, a gente fazia dinheiro”, recorda Dora Viegas.

“Éramos quase só mulheres com a quarta ou a sexta classe, mas éramos umas máquinas. E nem tempo tínhamos para olhar na cara umas das outras. Era comum termos 50 mil peças por semana. Era tudo para ontem”, continua Florbela Malheiros, costureira da casa há 30 anos. Fala de uma fábrica feita máquina, com uma marca à cabeça de quem “todos vestiam a camisola”.

“O trabalho na Triumph ajudou-me muito na vida, a fazê-la com algum desafogo”, conta Beatriz Henriques, a mais velha de nove irmãos, empregada de limpeza nesta confecção há 28 anos. Perdida a oportunidade de estudar depois do quarto ano, trabalhava desde os 14 e pensava chegar à reforma na fábrica onde se viu “crescer”. “Mas, um dia, a Triumph disse-nos que erámos um fardo”. Ficou sem salário, com o marido de baixa médica.

Mas, se a deslocalização da Triumph foi “uma tristeza, um choque” para os trabalhadores, a partir daí, poucos acreditaram no regresso aos bons tempos. A vigília começou precisamente um ano e um dia depois de a suíça Gramax ter anunciado que ia investir um milhão de euros na fábrica de Sacavém, que nem quatro meses antes comprara à Triumph. Acompanhado por Caldeira Cabral, o director-geral Alexander Schwarz dizia ambicionar tornar a "empresa competitiva”.

Era aparentemente o último dos suspiros de alívio para os trabalhadores, depois de no Verão de 2015 se ter confirmado que a Triumph ia mesmo deslocalizar a produção para a Ásia.

À data do acordo com a Gramax, a Triumph comprometera-se a manter, durante um ano, um volume de encomendas à antiga unidade. Doze meses passados, os antigos patrões cortaram definitivamente os laços e os trabalhadores viram-se com “migalhas nas mãos”. Pouco trabalho chegava à secção de corte, a primeira da linha de montagem, onde Paula Duarte estava. Em Julho, foi mandada uns dias em casa. Já em Setembro, algumas secções alternavam semanas de trabalho com as paragens na produção. “Chegavam a mandar uma folha que daria para 400 peças para cortarmos 20 ou 30”, diz. Era claro para os trabalhadores que as dívidas se acumulavam em contraciclo com a falta de produção.

Em Novembro, a administração disse que iria despedir 150 pessoas por "falta de clientes". No final do ano ficou clara a entrada em processo de insolvência. A câmara de Loures, o Parlamento e a comissão de economia, por proposta do PCP, começaram então a pedir a intervenção do Governo para travar o encerramento.

Mais uma noite fria

A ideia romântica desta vigília fica-se pela ideia. À porta da fábrica, “nada é fácil”, confessa Paula Duarte. Há dias mais tensos. Afinal, “estar parado cansa mais que o trabalho a sério”. E a pressão psicológica da inactividade e falta de rendimentos começa a extremar. É-lhe “muito difícil” sentir que pode de alguma forma depender financeiramente da mãe ou dos três filhos. Agarrou-se à ideia de que a meio de Fevereiro “as coisas estarão resolvidas”. Até lá, “saberá Deus as voltas que esta gente dará”.

Pelo que estes trabalhadores sabem que a administração entregou o processo de insolvência no tribunal de Loures na segunda-feira à noite. O juiz só o deverá analisar para a semana. Soma-se a possibilidade de pedir novos documentos, mais o tempo que os levará a analisar. Por isso, estes trabalhadores puxam as mantas, que esta é mais uma noite fria.