Para a suíça Gramax ainda é sexy produzir lingerie em Portugal

Gramax investe um milhão na antiga fábrica da Triumph e quer tornar a maior empregadora do concelho de Loures numa referência europeia no fabrico de lingerie e fatos de banho.

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A fábrica de Sacavém emprega perto de 500 pessoas, das quais cerca de 460 são mulheres Miguel Manso
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O presidente da Câmara de Loures, o comunista Bernardino Soares, e o ministro da Economia, Caldeira Cabral, visitaram a fábrica nesta quarta-feira Miguel Manso

Menos de quatro meses depois de anunciar a compra da fábrica de Sacavém à Triumph, a suíça Gramax Capital revelou nesta quarta-feira que quer investir um milhão de euros nesta unidade. O anúncio foi feito pelo director-geral do grupo especializado em investimentos em pequenas e médias empresas europeias de vários sectores, Alexander Schwarz, durante uma visita à fábrica em que também participaram o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, e o presidente da Câmara de Loures, Bernardino Soares, do PCP.

A Gramax quer investir em maquinaria e na qualificação dos seus recursos humanos para fazer da Têxtil Gramax Internacional (TGI) uma “empresa competitiva”, com capacidade de diversificar o seu portefólio e bater-se por novos clientes e mercados de exportação, explicou Schwarz.

Com a mudança de donos, a fábrica de Sacavém continua a ser a maior empregadora do concelho de Loures (tem cerca de 500 colaboradores), mas o modelo de negócio é outro: o da produção para várias marcas. Se no passado, por via da ligação accionista, a totalidade da produção seguia para a Áustria, em 2017 a produção já está destinada a mercados como o alemão, austríaco, espanhol, norte-americano e francês, além do português.

E ainda que os vínculos com a Triumph não estejam completamente cortados – porque para que o negócio de venda fosse bem-sucedido foi fundamental a garantia de que o grupo alemão manteria durante um ano um volume de encomendas à antiga unidade, como explicou ao PÚBLICO o ministro da Economia – a TGI está já a aprender a andar pelas próprias pernas.

Com um volume de negócios anual em torno de 20 milhões de euros, a empresa que é agora presidida por Manuel Pereira, vai passar a produzir para um “leque diversificado de marcas nacionais e internacionais”. Sem adiantar grandes detalhes, para não ferir acordos de confidencialidade, fonte oficial da têxtil confirmou que “a Triumph continua a ser um cliente muito importante a nível internacional” e que as colecções da marca portuguesa de biquínis e fatos de banho Cantê também vão sair da fábrica de Sacavém. Há pelo menos uma marca inglesa – cuja identidade não foi revelada – que também está a contratar à TGI parte da produção. Neste caso, o design e os tecidos já vêm escolhidos pelo cliente, mas a TGI reforçou a equipa com engenheiros têxteis e designers para poder conceber os seus próprios produtos. Além disso, criou uma equipa comercial para abordar potenciais clientes.

Com os novos investimentos na optimização da produção e no reforço de competências dos trabalhadores, a TGI ambiciona nada menos do que “reforçar a liderança do sector de produção em Portugal” e afirmar-se “como um dos maiores players europeus na produção de lingerie, shapewear e swimwear para homem e mulher”.

São planos que abrem um novo ciclo na vida da fábrica que iniciou a produção na década de 60 e que começou a viver momentos de sobressalto em 2015, quando surgiram os primeiros rumores de que a Triumph se preparava para deslocalizar a produção para a Ásia. A mudança foi confirmada nesse Verão pela empresa, que no entanto assegurou estar à procura de comprador para a fábrica e afastou a ideia de despedimentos.

Mas, como é preciso ver para crer, a mobilização em defesa dos empregos começou com uma carta do autarca de Loures ao antigo ministro da Economia, António Pires de Lima, e prolongou-se (com manifestações, concentrações e reuniões) já sob a tutela de Caldeira Cabral. Aliás, uma das paragens do ministro na visita à fábrica foi mesmo para cumprimentar a D. Dulce, uma das delegadas sindicais que conheceu durante este processo (outra foi para cumprimentar a D. Maria José, a funcionária mais antiga, com 49 anos de casa).

Havia de correr um ano até que o negócio de venda à Gramax fosse finalmente oficializado. O anúncio foi feito em Agosto e foi em Outubro que Bernadino Soares ouviu da nova administração a garantia de que os 500 postos de trabalho eram para manter. A fábrica emprega cerca de 460 mulheres – mais de 300 são costureiras – e entre 30 a 40 homens – estes nas áreas de armazém, mecânica e manutenção. Dizendo ver "com agrado" a estratégia do novo accionista, o autarca comunista afirmou nesta quarta-feira que a diversificação de produtos e clientes "dá garantias de futuro" à empresa e aos trabalhadores.

Caldeira Cabral, que destacou o facto de nem os trabalhadores, nem a autarquia, nem o Governo terem “cedido à resignação” e a aceitar que a fábrica fechasse portas, explicou ao PÚBLICO, à margem do evento, que depois de conversas com a associação do sector têxtil foram feitos contactos com potenciais investidores através do AICEP. “Houve alguns interessados e todos reconheciam a qualidade do activo, mas o problema era a dimensão da empresa”, daí que tenha sido “tão importante a negociação com a Triumph” para assegurar a transição, explicou.

Foi um “processo complexo” já que a Triumph “estava a atravessar uma fase de reestruturação”, disse ao PÚBLICO Alexander Schwarz. Revelando que começou a olhar para o dossier em Março, o líder da Gramax não quis divulgar o valor do investimento, o primeiro em Portugal (e o primeiro no sector têxtil). Mas garantiu que o grupo está em busca de novas oportunidades no país: “Estamos interessados em outros sectores industriais”, adiantou, sem no entanto concretizar quais.