CSI na selva: ADN põe caçadores furtivos de rinocerontes atrás das grades

Um dos grandes perigos para os rinocerontes é a caça furtiva para lhes cortar os cornos. Agora, a polícia em África tem a ajuda de uma base de dados de ADN de rinoceronte para apanhar os caçadores furtivos e que já deu o seu contributo em mais de 100 casos forenses.

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Rinoceronte-branco com três anos na África do Sul a recuperar da extracção do corno Ilya Kachaev/REUTERS
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A investigadora Cindy Harper a dar formação a entidades oficiais LABORATÓRIO DE GENÉTICA VETERINÁRIA DA UNIVERSIDADE DE PRETÓRIA

A 3 de Junho de 2011, dois rinocerontes foram mortos e encontrados já sem cornos no Parque Nacional Kruger, no Nordeste da África do Sul, na fronteira com Moçambique. Como em muitas outras caçadas, os cornos foram retirados para tráfico ilegal. Mas uma equipa de cientistas já tinha criado uma base de dados com ADN de rinocerontes e as amostras recolhidas no local do crime foram logo aí inseridas. Mais tarde, um caçador furtivo moçambicano, Ali Cossa, foi apanhado pela polícia com cornos de rinoceronte. O perfil de ADN desses cornos e o perfil de ADN das amostras do local do crime coincidiu, e a 23 de Agosto de 2012 Ali Cossa foi condenado a 29 anos e três meses de prisão na África do Sul por caça ilegal, entre outros aspectos, por ter entrado ilegalmente no país. Este é só um dos nove casos (entre tantos outros já) que servem de exemplo de como o perfil de ADN pode levar um caçador furtivo à prisão, relatados num artigo na revista Current Biology esta segunda-feira.

O rinoceronte-negro (Diceros bicornis) e o rinoceronte-branco (Ceratotherium simum) são símbolos de África que têm as suas ameaças. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o rinoceronte-negro tem o estatuto de “criticamente em perigo” e o rinoceronte-branco está “quase ameaçado”. Um dos perigos que mais atormenta os rinocerontes é a caça ilegal para lhes cortarem os cornos. Por exemplo, na África do Sul, os casos de caça furtiva de rinocerontes aumentaram de 13 em 2007 para 1215 em 2014. “Isto aconteceu devido ao valor dos cornos no mercado negro”, indica ao PÚBLICO Cindy Harper, da Universidade de Pretória (África do Sul) e principal autora do estudo.

Os cornos dos rinocerontes são todos de queratina, sem base óssea. “São usados na medicina tradicional chinesa para curar febres e várias doenças há séculos e continuam a ser usados, em particular, no Vietname e na China”, diz a cientista. Talvez por serem cada vez menos, os cornos tornaram-se um símbolo de um estatuto privilegiado ou de saúde nesses países.

Os caçadores furtivos tiram os cornos aos rinocerontes de duas formas, explica Cindy Harper: matam-nos ou anestesiam-nos. “Os cornos são como as unhas e irão crescer outra vez”, refere. “A remoção dos cornos é um dos métodos para tentar proteger os animais da caça furtiva. Se for feita correctamente por um veterinário, a remoção do corno no animal vivo não tem efeitos.”

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Rinoceronte-branco e a sua cria no Uganda Edward Echwalu/REUTERS

Mas a caça furtiva nem sempre acaba mal só para os rinocerontes: os caçadores também são mortos pelos guardas dos parques naturais. Entre 2010 a 2015, quase 500 caçadores furtivos moçambicanos foram mortos na África do Sul, segundo o organismo governamental Parques Nacionais daquele país.

Por tudo isto, criou-se em 2010 uma base de dados com perfis de ADN de rinocerontes e com informação demográfica. É a RhODIS e é inspirada no Codis (Combined DNA Index System), a base de dados de ADN humano usada pelo FBI. Estamos assim perante um trabalho forense. Os cientistas recebem as amostras do local do crime dos rinocerontes caçados e traçam o seu perfil do ADN, que é introduzido na RhODIS. Mais tarde, quando os cornos são encontrados pela polícia (com o caçador furtivo), traça-se o perfil genético desses cornos. Por fim, tem de se perceber se o perfil de ADN dos cornos corresponde ao das amostras obtidas no local do crime. “A RhODIS permite fazer correspondências [genéticas] individuais que, tal como nos perfis de ADN humano, são usadas como provas directas nos casos criminais em tribunal”, frisa Cindy Harper.

E, tal como outras provas forenses, também as provas relativas aos rinocerontes têm de ter uma cadeia de custódia, que regista onde foram recolhidas, por quem ou quem acedeu a elas.

Saco preto com três cornos

Até ao momento, os cientistas já têm na RhODIS dados de quase 5800 casos forenses. E as suas amostras foram obtidas nos próprios rinocerontes caçados, em cornos recuperados, facas, martelos ou roupa. Ao todo, as ligações estabelecidas entre perfis de ADN contribuíram para condenar caçadores furtivos em tribunal em 120 casos. Destes, a equipa de cientistas seleccionou nove casos para o seu artigo. Por quê estes? Porque estes casos já estavam concluídos e incluem tanto rinocerontes-brancos como negros, explica Cindy Harper.

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Guardas do parque a recolher amostras do ADN dos rinocerontes para depois entregarem aos cientistas Laboratório de Genética Veterinária da Universidade de Pretória

Quatro dos casos envolvem caçadores furtivos moçambicanos, todos condenados na África do Sul: a maior sentença foi a de Ali Cossa, condenado a 29 anos e três meses de prisão. “Muitos caçadores furtivos vêm de Moçambique e atravessam a fronteira no Kruger para caçar rinocerontes”, explica Cindy Harper. “As redes de tráfico por grupos de crime organizado estão bem estabelecidas em Moçambique, que pagam e recrutam caçadores furtivos, particularmente nas comunidades mais pobres. Depois, empacotam e enviam os cornos para o Vietname e para a China através de vários países de trânsito.”

Nos casos referidos no artigo incluem-se ainda dois chineses, um condenado na África do Sul a seis anos de prisão ou uma multa e o outro a 14 anos na Namíbia; há também um vietnamita sentenciado a 15 meses na África do Sul; e um queniano condenado no Quénia a 11 anos de prisão. Por fim, há dois caçadores do Zimbabwe julgados na África do Sul.

Segundo Cindy Harper, um destes casos foi bastante importante para a RhODIS, por ter sido um dos seus primeiros sucessos e por ser descrito no livro de 2012 Killing for Profit, do jornalista sul-africano Julian Rademeyer. Era o caso do caçador furtivo Rodgers Mukwena, estava a ser procurado no Zimbabwe. Acabou por ser preso na África do Sul e levava com ele um saco preto com três cornos de rinoceronte. O perfil de ADN desses cornos era igual ao de duas carcaças de rinoceronte encontradas semanas antes. No decorrer da detenção, Rodgers Mukwena admitiu que tinha matado um dos rinocerontes. Foi condenado a dez anos de prisão, em Novembro de 2012.

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Rinocerontes no Parque Nacional Kruger na África do Sul REUTERS/Ilya Kachaev

Tem sido fácil pôr os caçadores furtivos de rinocerontes atrás das grades? “Sim, particularmente nos países em África. Recentemente, as leis têm-se tornado mais rigorosas, já que as pessoas tomaram consciência da extensão da caça furtiva”, responde Cindy Harper, acrescentando que as penas podem ser bem pesadas. E a investigadora destaca que a RhODIS poderá ir além dos rinocerontes: “Espero que seja visto como um projecto emblemático para outras espécies, como os elefantes, tigres e leões, para se criarem bases de dados de ADN para estabelecer a ligação entre produtos traficados e animais específicos e usar essas provas na acusação, não apenas de caçadores furtivos, mas também de traficantes e, com sorte, de distribuidores e consumidores.” É mesmo caso para se dizer que o CSI chegou à selva.