Falharam 537 chamadas na hora em que morreram pessoas em Pedrógão

Registo hora a hora das falhas do SIRESP mostra que as duas antenas que estavam operacionais na zona do incêndio às 20h não aguentaram as comunicações. Estação-móvel resolveu problema, mas tarde.

Foto
Daniel Rocha

Durante a fatídica noite de 17 de Junho, vários bombeiros e operacionais da Protecção Civil queixaram-se das falhas nas comunicações da rede de emergência nacional o que lhes dificultou o combate ao fogo e o socorro às populações. Na altura, o SIRESP garantia ter estado "à altura", mas apresentava os dados diluídos em várias horas. Uma análise hora a hora ao que aconteceu, a que o PÚBLICO teve acesso, mostra que pelas oito da noite, a hora a que a maioria das vítimas morreu, as comunicações na zona entre os operacionais falhavam à média de uma em cada três.

Durante aquela hora, a estação da Cabeça do Pião, em Castanheira de Pêra, registou 537 chamadas que não foram efectuadas à primeira (em termos técnicos designadas busies), de acordo com a avaliação feita pelo SIRESP e entregue a várias entidades e a que o PÚBLICO teve acesso. O que corresponde a 32,8% das chamadas efectuadas (1637).

Esta era a estação de comunicações mais próxima das aldeias mais afectadas e da Estrada Nacional 236-1, onde morreram 62 pessoas entre as 19h50 e as 20h40, de acordo com os dados do relatório da Comissão Técnica Independente (CTI) que avaliou o incêndio de Pedrógão Grande.

Durante aquela hora, apenas duas das três estações da área por onde o incêndio lavrou estavam activas - a estação de Pedrógão Grande entrou em "modo local" às 19h38, ou seja, ficou inoperacional e permitia apenas comunicações entre terminais registados na mesma estação.

Além da estação de Cabeço do Pião, estava apenas activa a estação-base de Figueiró dos Vinhos, que teve um aumento de chamadas (processou mais de mil naquela hora) e sem registo relevante de busies. Começaria a ter problemas a partir das 23h e acabou por sucumbir às 3h53.

A empresa que gere o SIRESP defendeu que a rede se manteve com um funcionamento "à altura", uma vez que a redundância é assegurada por outras antenas que estão na mesma zona. No caso, o SIRESP diz que houve 11 estações-base a cobrir as falhas de cinco, que entraram em modo-local, três delas na fase crítica do incêndios, das 20h às 21h, a hora para que confluíram todos os problemas daquele fogo.

Olhando para os dados fornecidos pela empresa, constata-se que, se estas estações redundantes processaram chamadas que deveriam ser feitas por aquelas que estavam em modo local, isso não se nota na quantidade de chamadas da maioria das antenas. Das 13 que estariam a assegurar as comunicações, de acordo com o SIRESP, apenas em três (Alvaiázere, Cernache de Bonjardim e Cabeço da Rainha) houve um aumento do número de chamadas.

Estação-móvel, a solução do Governo, falha apenas em 4% dos casos

O relatório da CTI não enfatiza as falhas do SIRESP, apesar de considerar este sistema de comunicações "obsoleto" e recomendar ou a sua actualização ou a sua substituição por completo. Contudo, as falhas mostram a necessidade de uma rede de redundância que processe as comunicações quando o SIRESP não funciona e isso passa, para já - assumiu o Governo -, pela compra de quatro novas estações móveis com ligação satélite, a juntar às quatro existentes, para reforçar as comunicações de emergência. No incêndio de Pedrógão acabariam por estar presentes duas (as outras duas ainda não estavam operacionais).

Nos mesmos documentos é também feita uma avaliação do desempenho da estação-móvel da PSP. Por esta antena passaram 15.700 chamadas no dia 18 de Junho e, de acordo com os mesmos dados, apenas falharam 735, o que corresponde a uma taxa de ineficácia de 4%.

Além da compra de mais quatro antenas, o Governo acordou com a PT o enterramento dos cabos nas zonas afectadas pelos incêndios. A maioria das estações que falhou teve esse comportamento porque os cabos e os postes do traçado aéreo se queimaram, e não por as antenas terem tido elas próprias problemas.

A solução para o SIRESP é uma das que ainda não são conhecidas na íntegra e deverá ficar àquém do que foi proposto pelos técnicos independentes. O Governo assume que quer manter o sistema SIRESP, mas não é certo em que moldes o fará. Certo é que o Estado vai entrar no capital da empresa que gere o sistema de comunicações de emergência para poder tomar decisões como accionista, e não apenas como cliente.