Sofia Coppola abre nova secção do Porto/Post/Doc

The Beguiled tem passagem única em sala na abertura do festival, a 27 de Novembro no Teatro Rivoli. Jean Rouch, arquivos e memória em foco no programa do festival.

<i>The Beguiled</i>, de Sofia Coppola
Foto
The Beguiled, de Sofia Coppola DR

Pelo quarto ano consecutivo, o Porto/Post/Doc – Film & Media Festival descerá à Baixa do Porto para, durante uma semana, mostrar as novas experiências do cinema documental. Mas não só: este ano, o festival abre com a antestreia nacional do novo filme de Sofia Coppola, The Beguiledremake da adaptação que em 1971 Don Siegel fizera do romance de Thomas P. Cullinan; e fecha com Lucky, de John Carroll Lynch, gesto de homenagem ao recém-desaparecido Harry Dean Stanton (1926-2017), numa das suas últimas aparições no grande ecrã. E isto significa a entrada de uma nova secção – Highlights – no cardápio do Porto/Post/Doc, que este ano decorrerá de 27 de Novembro a 3 de Dezembro.

Filme sobre a condição feminina, quando o original de Siegel, Ritual de Guerra, com Clint Eastwood no principal papel, era feito do ponto de vista masculino, The Beguiled, que teve estreia na competição de Cannes, vai ter nessa noite de 27 de Novembro a única exibição no circuito comercial nacional, já que de seguida entrará directamente no mercado do DVD, explicou Dario Oliveira esta terça-feira, na apresentação do programa da quarta edição de um festival que quer ser, cada vez mais, “mais do que uma simples mostra de filmes, antes um evento cultural, educativo e social na Baixa do Porto”

Já se sabia que o tema genérico do programa deste ano será o Arquivo, através de uma primeira série de desdobramentos que ele permite, “e que dará para muitos anos”, disse o director do festival, especificando que, desta vez, a selecção de filmes irá centrar-se nas questões da pós-memória, do colonialismo e dos regimes totalitários.

É aqui que entra, também, o ciclo de homenagem a Jean Rouch (1917-2004), no centenário do nascimento deste cineasta-etnólogo francês que é “um símbolo das formas mais criativas da não-ficção na história do cinema”. Aos seis filmes já anunciados – Os Mestres Loucos (1955), Eu, um Negro (1958), Chronique d’un Été (1961), A Pirâmide Humana (1961), Jaguar (1968) e o documentário afectivo co-realizado com Manoel de Oliveira no Porto, En une poignée de mains amies (1966), o Porto/Post/Doc acrescenta um Fórum do Real (30 de Novembro), promovido em associação com o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

A utilização do arquivo como meio de produção de novas narrativas documentais que interrogam a história do século XX é o programa dos três painéis de debate, a decorrer na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), nos quais intervirão o director do ANIM Tiago Baptista, o investigador espanhol Vicente Sanchez Biosca, os escritores Paulo Faria e Raquel Ribeiro, o crítico argentino Jorge La Ferla e os realizadores José Miguel Ribeiro e Filipa César, esta última exibindo também a sua longa-metragem Spell Reel, premiada no Doclisboa, ao lado de Albertina Carri e Paz Encina.

Além de Jean Rouch, dois outros autores vão estar em foco no quarto Porto/Post/Doc: em carta-branca à compatriota Jana Sevciková, o montador e realizador checo Miroslav Janek, com dois filmes sobre o universo da cegueira, The Unseen e Hamsa I Am; e o suíço-canadiano Peter Mettler, alvo de um Foco Expanded, de quem serão exibidos os documentários Picture of LightGambling, Gods and LSD e The End of Time.

Já a secção Transmission, que cruza cinema e música (e também o tema do arquivo), vai trazer ao Porto o próprio Peter Mettler, que com o músico dos The Young Gods Franz Treichler e o antropólogo Jeremy Narby apresentarão a performance Yoshtoyoshto. A movida musical de Berlim na década de 80 registada por Mark Reeder em B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin, 1979-1989, e que será também pretexto para uma festa pós-filme; um documentário sobre o músico brasileiro Jorge Mautner, O Filho do Holocausto, de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt; e, em estreia mundial, Não consegues criar o mundo duas vezes, com que Francisco Noronha e Catarina David documentam o nascimento da cultura hip-hop na cidade do Porto, são outras propostas da Transmission, que vai ainda acolher o DJ e cineasta britânico Don Letts, a testemunhar sobre a cena punk na Londres dos anos 70 com o seu documentário Two Sevens Clash: Dread meets punk rockers e um DJ set.

 

À espera do Ministério

A competição internacional do festival terá este ano 12 filmes, abrindo com a co-produção luso-brasileira Era Uma Vez Brasília, de Adirley Queirós, premiada em Locarno com uma menção especial. Entre as obras escaladas contam-se ainda Dragonfly Eyes, igualmente oriundo da competição de Locarno, que o chinês Xu Bing montou inteiramente a partir de imagens de câmaras de vigilância; Makala, do francês Emmanuel Gras, vencedor do Grande Prémio da Semana da Crítica de Cannes; Gray House, um híbrido entre a ficção e o documentário que marca a estreia na longa-metragem de Austin Lynch, filho de David Lynch; e dois filmes sobre as consequências da guerra civil na Síria, City of Ghosts, do americano Matthew Heinemann (sobre o quotidiano na cidade ocupada de Raqqa, filmado pelos seus próprios habitantes), e Taste of Cement, do libanês Ziad Kalthoum (sobre refugiados sírios no Líbano). Este ano, ao contrário de edições anteriores, não há nenhuma produção portuguesa na competição oficial, embora haja longas nacionais noutras secções (como dois títulos estreados no Doclisboa, I Don’t Belong Here, de Paulo Abreu, e Quem É Bárbara Virgínia?, de Luísa Sequeira). 

Novidade também na edição deste ano é a criação de um Prémio Cinema Novo, novo nome para uma secção competitiva dedicada a filmes de escola. A atenção à educação na área do cinema e à produção escolar é, de resto, uma preocupação do festival, reforçada este ano com o início de uma parceria com a FBAUP, em cujo auditório serão exibidos filmes para públicos de diferentes faixas etárias, do pré-escolar ao universitário. Num desses programas, Teenage, e na intercepção com o Highlights, será exibida a versão longa do documentário em que Terrence Malick aborda o nascimento da vida, Voyage of Time: Life’s Journey (2016), com narração de Cate Blanchett. Esta secção terá como destaque os filmes da dupla de cineastas André Santos e Marco Leão, que terão ainda carta-branca para dar aulas de cinema para jovens a partir dos 16 anos.

O Porto/Post/Doc 2017 vai voltar a ter como casa-mãe o Teatro Rivoli e estender-se, como nos outros anos, ao Passos Manuel e ao espaço Maus Hábitos, além do auditório da FBAUP.

À imagem também das edições anteriores, o festival conta com um orçamento de 130 mil euros (25 mil dos quais assegurados pela Câmara Municipal do Porto, além da cedência dos espaços e serviços do Rivoli). E vai ficar à espera de saber se, no próximo ano, vai finalmente contar com o apoio do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA). “Temos uma relação muito promissora com o Ministério da Cultura”, explicou Dario Oliveira, anunciando ter a direcção do Porto/Post/Doc finalmente concorrido ao apoio estatal para o triénio 2018-20, já que só o poderia fazer após a realização de três edições.