Harry Dean Stanton (1926- 2017) Uma vida que foi um filme

O actor tinha 91 anos e uma longa carreira no cinema. Trabalhou com Carpenter, Coppola, Scorsese e Lynch.

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Harry Dean Stanton no filme Lucky dr
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Danny Moloshok/reuters

Há um momento, no documentário Harry Dean Stanton: Partly Fiction, de Sophie Huber, em que o realizador David Lynch e o actor norte-americano Harry Dean Stanton, que morreu nesta sexta-feira, aos 91 anos, de forma pacífica num hospital de Los Angeles, e desempenhou papéis em filmes como Paris, TexasO Padrinho: Parte IIRepo Man ou na série Twin Peaks, estão sentados num sofá, separados por um cinzeiro, e Lynch lhe pergunta: "Como te descreverias a ti próprio?" O actor responde: "Como nada, não há eu-próprio." Riem-se os dois e Lynch continua: "Como é que gostarias de ser lembrado?" E ficam ambos em silêncio depois da resposta: "Não importa."

David Lynch já reagiu à morte do actor sublinhando a grandeza de Stanton. “O grande Harry Dean Stanton deixou-nos”, escreveu Lynch, citado pela Variety. “Não há ninguém como Harry Dean. Toda a gente o adorava. E com razões para isso. Ele foi um grande actor (na verdade, para lá de grande) — e um grande ser humano.”

Filho de um agricultor, Stanton nasceu em 1926 numa zona rural do estado do Kentucky. Serviu como cozinheiro da Marinha norte-americana durante o conflito do Pacífico na Segunda Guerra Mundial, e, depois de regressado, estudou Jornalismo mas não terminou o curso. Queria ser escritor e músico,mas acabou por seguir pelo caminho da representação, no qual, iniciando o seu caminho com alguns papéis secundários, foi ganhando destaque até que passou a ser um dos favoritos de alguns dos mais notáveis realizadores de Hollywood.

Com uma carreira de 60 anos, iniciada em 1956 com um pequeno papel, não creditado, no The Wrong Man/O Falso Culpado, de Alfred Hitchcock, Harry Dean Stanton conta com 236 créditos referenciados em filmes ou séries de televisão, tendo trabalhado com realizadores como Ridley Scott (Alien), John Carpenter (Fuga de Nova IorqueChristine), Francis Ford Coppola (Do Fundo do Coração), Wim Wenders (Paris, Texas), Martin Scorsese (A Última Tentação de Cristo) ou David Lynch (Um Coração SelvagemUma História Simples). David Lynch teria mesmo pensado nele para um dos principais papéis de Blue Velvet, a personagem do perturbante Frank, mas o papel foi entregue a Dennis Hopper depois da recusa de Stanton, desagradado com o tipo de violência contido no filme. Apesar dessa "nega", Lynch não se esqueceu dele, e, de Um Coração Selvagem (em 1990) à última variação sobre Twin Peaks, Stanton tornar-se-ia um dos rostos "muito lá de casa" de Lynch, com repetidas presenças nos seus filmes.

Para além dos realizadores acima citados, muitos outros foram os nomes de monta que recorreram a Stanton, de Arthur Penn (The Missouri Breaks) a John Milius (Dillinger, Red Dawn), de Bob Dylan (Renaldo and Clara) a Alex Cox (Repo Man), passando por Sam Peckinpah (Pat Garrett and Billy the Kid) ou John Huston (Wise Blood), e fizeram dele um dos actores mais emblemáticos das zonas mais marginais da(s) nova(s) Hollywood de entre os anos 60 e os anos 80. Imperioso, nesse contexto, é citar a sua colaboração, várias vezes repetida, com um cineasta como Monte Hellman, em filmes como Ride in the Whirwind, Cockfighter, ou aquele que é porventura mais conhecido em Portugal, Two Lane Blacktop — e no qual Stanton aparecia com uma aura assustadora e misteriosa que parece uma prefiguração das personagens que criaria para Lynch.

Embora na sua filmografia abundem, sobretudo dos anos 90 para cá, os filmes anódinos e/ou medíocres, ele nunca deixou de representar uma presença mais ou menos marginal, sempre digna e sempre magnética, e nalguns casos já tornada "símbolo", como no (péssimo) filme americano de Paolo Sorrentino, This Must Be the Place, em que a sua presença era um eco deliberado do Paris, Texas de Wenders, um dos mais memoráveis trabalhos de Stanton, que arrecadou a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1984, e regressou em Fevereiro deste ano às salas de cinema portuguesas numa versão restaurada. Aquela personagem que compôs para Wenders, o Travis amnésico e perdido no deserto, tem a força de um ex libris, mas Paris, Texas, que deu a Stanton um, apesar de tudo, raro papel de protagonista, também mostrava a intensidade dramática que o actor podia convocar, como o atestam as comoventes cenas finais no peep show, e o diálogo telefónico e "envidraçado" com a personagem de Nastassja Kinski.

No final deste mês chega às salas norte-americanas Lucky, a última produção a contar com Stanton no elenco. O realizador, John Carroll Lynch, dizia, durante a apresentação do filme no festival de Locarno, que só ouvir o seu “nome pronunciado ao lado do de Harry Dean Stanton” o fazia “sentir humilde”. “Ele é um mestre zen”, dizia também o argumentista Logan Sparks. “Ele costuma dizer ‘Adoro não fazer nada e depois descansar um bocadinho’”, revelando que se inspirou na própria vida de Stanton para escrever Lucky. Em 2012, Sophie Huber também abordara a vida e a carreira de Stanton em Partly Fiction, filme inteiramente construído — como um pequeno exercício testamentário — sobre a figura do actor, as suas ideias, a sua peculiar filosofia de vida (o documentário de Huber foi exibido em Portugal no festival IndieLisboa).

Para além da carreira no pequeno e grande ecrã, Harry Dean Stanton enveredou também pela música, liderando uma banda em que era vocalista e guitarrista, e que se chamava, num primeiro momento, Harry Dean Stanton and the Repo Men. Depois, o nome foi alterado para Harry Dean Stanton Band.

Como lembra a revista Variety, Stanton era amigo íntimo de Jack Nicholson, tendo sido, inclusivamente, padrinho de casamento deste em 1962. Aliás, ambos viveram juntos durante dois anos depois do divórcio de Nicholson. O actor desenvolveu também uma relação de amizade com Bob Dylan, tendo participado em Renaldo and Clara, o único filme de ficção realizado por Dylan. O videoclip oficial de uma canção de Dylan, Dreamin' of you (gravada durante as sessões de Time Out of Mind, em 1997), também tem Stanton como protagonista.

Conhecido pelo seu aspecto magro e desmazelado, Stanton nunca foi casado, apesar de ter chegado a afirmar que tinha “um ou dois filhos”, refere a mesma revista. Desvalorizava o seu percurso e a posição alcançada na indústria cinematográfica. "No final, acaba-se por aceitar tudo na vida — sofrimento, horror, amor, perda, ódio —, tudo isso. É tudo um filme, de qualquer forma", afirmou ao Observer em 2013.