André Santos e Marco Leão encerram histórias familares e viram-se para o sexo

Pedro, curta-metragem que a dupla leva a concurso no Festival de Sundance, é a pequena apoteose de um percurso singular, marginal. E fecha um núcleo temático ferozmente dedicado à intimidade de mães e filhos.

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Nuno Ferreira Santos
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Pedro: um filho (Filipe Abreu) e uma mãe (Rita Durão), um dia na praia, um engate dele, um encontro dela

Há uma euforia tintada a revolta em André Santos e Marco Leão – mais explicitada em André do que em Marco: “Trabalhamos há oito anos, nunca ninguém quis saber de nós, nada mudou no nosso cinema, e de repente este interesse todo... Estamos exactamente no mesmo sítio, mas a percepção que as pessoas têm de nós é outra. Mas é só mais um festival...”

É, é só Sundance, festival de cinema independente que decorre em Park City, Utah, EUA, até dia 29, que é considerado um “bastião liberal e activista” do cinema norte-americano (palavras do britânico The Guardian) e que esta edição apresenta ressonâncias ainda mais políticas. Arranca esta quinta-feira, um dia antes da tomada de posse de Donald Trump, e tem no menu dois documentários de peso: Trumped: Inside the Greatest Political Upset of All Time, feito pela equipa por trás da série The Circus e que acompanhou a corrida presidencial de 2016 que em Novembro conduziu à eleição do candidato republicano, e An Inconvenient Sequel: Truth to Power, a sequela de An Inconvenient Truth (2006), que valeu um Óscar ao antigo vice-Presidente democrata Al Gore.

É nesta edição que Marco e André apresentam, esta sexta-feira, Pedro, a sua última curta-metragem, que está em competição. É a primeira vez, confirma Margarida Moz, da Portugal Film, agência que trabalhou para fazer Pedro chegar ao festival americano, que uma curta de produção exclusivamente portuguesa chega ali. É uma pequena apoteose do interesse que programadores americanos, em festivais em Los Angeles ou em Montréal, vinham demonstrando pela dupla. Margarida, aliás, diz que o trabalho da Portugal Film é esse, farejar, estar atento ao interesse, e enviar as propostas de forma cirúrgica. A “linha narrativa que não é narrativa” nas curtas de André e Marco pareceu-lhe poder ser reconhecida pelos programadores de Sundance. Foi-o.

“Isso é bom [o interesse devido à presença em Sundance], mas sinto-me frustrado”, desabafa Marco, “porque o nosso trabalho não mudou...”

Não mudou, também, a sensação de “marginalização” que os acompanha: A Nossa Necessidade de Consolo (2007), homenagem que faziam às suas mães, Cavalos Selvagens (2010), em que prosseguiam as suas autobiografias, aparecendo à frente da câmara num momento de crise da sua própria relação, Infinito (2011), Má Raça (2013), Aula de Condução (2015) – agora, Pedro. “Não fazemos parte de um eixo cinematográfico, não viemos da Escola de Cinema. O nosso percurso não é o mais tradicional.”
Talvez não o seja, e talvez isso tenha consequências para um sentimento pessoal de frustração que não pode ser totalmente partilhável e que ainda é alimentado pelas biografias de cada um: Marco que, como ele diz, cresceu entre o mar e as serras (de Sintra), André que, como ele diz, cresceu entre o subúrbio e a cidade. Mas é esse “entre”, afinal, que faz a feroz coerência de um corpo de trabalho que, se ainda não chegou à longa-metragem (outra frustração?), continua a desenrolar-se como longo filme, como o mesmo filme. Seria, para alguns, uma descoberta, uma experiência de revelação, a possibilidade de ver esses filmes de seguida.

Com mais músculo de ficção ou com menos músculo de ficção neles, as curtas da dupla criam um território à parte, não habitam um centro figurativo estabilizado. Não é campo (mesmo com o interior dos bosques) nem é cidade (mesmo com ela à vista). É a intimidade. Que em conversa Marco e André, um dia, definiram como “o sítio onde as coisas aparecem” – desde logo é no seu espaço íntimo que nascem os filmes, rodados no círculo familiar ou de amizades (aos poucos os actores profissionais começaram a aparecer, mas nada muda), a partir de laços já existentes e que os filmes não alteram ou fabricam significativamente.

Pedro, é a esse nível, eloquente: história de um filho (Filipe Abreu) e de uma mãe (Rita Durão), um dia na praia, um engate dele, um encontro dela, continua um pacto inquebrantável com uma obra. Pedro caminha com a presença de Infinito. Quer dizer, aquilo que parecia inexpugável na curta de 2011 (talvez o filme mais abstracto e atmosférico da dupla), a ligação entre uma mãe e o seu bebé (um carro, um bosque, eles os dois e nada mais), é exposto na curta de 2016, alterado, reconfigurado.

“Sim, Infinito era um filme sobre o que é anterior a tudo” –  o filme “mais intuitivo e menos planeado” da dupla, “não havia guião”, o que faz todo o sentido, porque o contrário poderia correr o risco de violar a serenidade que pertencia a esses dois seres, as duas “personagens”, que eram mesmo uma mãe e o seu bebé. “Mas agora, em Pedro, tudo isso está corrompido pelo tempo, tudo mudou”. As histórias de cada um penetraram a serenidade. E se há uma praia, um engate, explicitação sexual, e se isso pode trazer à memória O Desconhecido do Lago (2013), de Alain Guiraudie, nada de mais. Marco diz que a curta foi escrita antes de terem visto o filme de Guiraudie. Mas interessa muito mais o facto de esse cenário de céu aberto, sempre utilizado e trabalhado no sentido do seu próprio constrangimento, como huis-clos, não permitir tanto o reconhecimento de algo alheio, como continuar qualquer coisa que lhes pertence, a André e Marco: o movimento para encontrar, reter e tocar a intimidade, o impossível consolo das saudades da infância.

Mas algo aqui já fala de futuro. “Pedro é um fecho das relações familiares e das mães. Está resolvido. Agora interessam-nos outras coisas. O sexo também. Estamos a ir para o lado mais obsessivo da nossa existência, para aquelas coisas que temos vergonha de mostrar aos pais. Estamos obcecados com o sexo em geral.” Escrevem já uma longa.