Vitória dos conservadores austríacos abre caminho à extrema-direita

O Partido Popular venceu as eleições legislativas deste domingo, mas a chave do próximo Governo está nas mãos da extrema-direita. Verdes foram arrasados.

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Sebastian Kurz, líder do ÖVP, deverá procurar entendimentos com a extrema-direita do Partido da Liberdade (FPÖ) CHRISTIAN BRUNA/EPA

A remodelação operada pelo jovem líder do Partido Popular (ÖVP), Sebastian Kurz, deu frutos que se traduziram na vitória dos conservadores nas eleições legislativas austríacas este domingo. Mas para governar, Kurz terá de procurar entendimentos com a extrema-direita do Partido da Liberdade (FPÖ) que conseguiu superar as expectativas. Os social-democratas do SPÖ até conseguiram melhorar os seus resultados, mas devem ficar na oposição.

Os resultados mostram que os austríacos receberam bem as mudanças que Kurz instituiu no ÖVP, apostando, sobretudo, num endurecimento da política de acolhimento de refugiados. Dos 24% obtidos em 2013, os conservadores subiram para 31%.

Desde que ascendeu à liderança do partido, em Maio, Kurz colocou a imigração no topo da sua agenda, prometendo acabar com a “imigração ilegal”, cortes nas prestações sociais para imigrantes que vivam há menos de cinco anos no país e até encerrar as creches muçulmanas.

Propostas deste tipo levaram mesmo o líder do FPÖ, Heinz-Christian Strache, a acusar Kurz de se apropriar dos temas que estão no coração do programa do partido de extrema-direita. “Fizemos do impossível, possível”, disse Kurz no seu discurso de vitória. “Conseguimos abrir o Partido Popular e assim o fortalecemos”, acrescentou. Aos 31 anos, o até agora ministro dos Negócios Estrangeiros prepara-se para ser o mais jovem chefe de Governo do planeta.

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Apoiante da extrema-direita com uma foto de Stracher, o líder da FPÖ VALDRIN XHEMAJ/EPA

Segue-se agora o período de negociações para que seja alcançado um acordo de coligação. É improvável que Kurz queira reeditar a “grande coligação” com os social-democratas, o que obriga a um entendimento com a extrema-direita. O Governo cessante, composto pelos dois principais partidos, foi pródigo em desentendimentos, desde a reforma fiscal à política de acolhimento de refugiados – e foi o falhanço em chegar a acordos que precipitou a marcação de eleições antecipadas.

A dureza da campanha eleitoral – com a abertura de queixas judiciais entre ÖVP e SPÖ – também contribuiu para um clima de desconfiança entre os partidos que desde o fim da II Guerra Mundial têm partilhado o poder na Áustria.

Derrota da esquerda

Os social-democratas foram um dos derrotados da noite, apesar de terem tido praticamente o mesmo resultado que em 2013 lhes deu a vitória, 27%. Porém, a subida acentuada da direita impede a entrada do SPÖ no executivo. Uma das hipóteses para evitar a entrada da extrema-direita no Governo seria a demissão do líder social-democrata, o ex-chanceler Christian Kern. Porém, foi o próprio que garantiu que não se irá afastar.

O FPÖ foi o outro grande vencedor da noite eleitoral, obtendo perto de 26% dos votos, embora não tenha conseguido tornar-se a segunda força política. A extrema-direita fica agora com o caminho aberto para regressar ao Governo, quase duas décadas depois.

A integração da extrema-direita numa coligação governamental não é inédita na Áustria. Entre 2000 e 2005, o FPÖ, liderado então por Jörg Haider, manteve uma coligação com o ÖVP, levando à suspensão do direito de voto da Áustria no Conselho Europeu – essa sim uma decisão tomada uma única vez.

Hoje, o contexto europeu é consideravelmente diferente, com a progressão de várias forças políticas que partilham o ideário do FPÖ, tal como a Frente Nacional, em França, ou a Alternativa para a Alemanha, que recentemente se tornou na terceira força política do país vizinho. Uma das certezas é que o próximo Governo austríaco irá adoptar posições mais duras em relação à imigração, juntando-se a um conjunto de países (como a Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia) que têm bloqueado iniciativas europeias de relocalização de requerentes de asilo.

Muito penalizadas ficaram as formações mais pequenas como os Verdes, que, depois de terem conseguido fazer eleger o ex-líder Alexander van der Bellen como Presidente, correm o risco de não ter sequer representação no Parlamento. Já o partido liberal Neos e os ecologistas da lista Pilz, fundado por um dissidente dos Verdes, devem conseguir eleger alguns deputados.