Entrevista

“Para ter hipóteses de ganhar, é preciso pôr a imigração no centro da campanha”

Fabio Wolkenstein, professor de Ciência Política da Universidade de Aarhus (Dinamarca), destaca a forma como Sebastian Kurz personalizou o poder no partido conservador ÖVP.

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O "novo estilo" do conservador Sebastian Kurz Leonhard Foeger/REUTERS

O que destacaria desta campanha?

O que é o mais interessante e que pode mudar totalmente a dinâmica de poder na Áustria é a forma como Sebastian Kurz se tornou o líder do que apresentou como um novo partido, a “Lista Sebastian Kurz”, e remodelou a imagem do partido conservador ÖVP dando a ideia de que é um novo movimento. Conseguiu que lhe cedessem o poder para o personalizar. A mudança que Kurz promete está ainda ligada à possível formação do novo Governo, porque o que promete é não voltar à “grande coligação” [centro-esquerda e centro-direita] que esteve no poder nos últimos dez anos. E por isso é que parece inevitável que o FPÖ (extrema-direita) entre no Governo, não há outra opção.

Escreveu que Kurz apresentou políticas de restrição de imigração “com mais bom gosto” do que o FPÖ – o que quer dizer?

Kurz tem um estilo diferente de apresentação de argumentos. Enquanto o FPÖ é controverso, Kurz tem lidado com a questão da imigração evitando retórica inflamatória. O que Kurz fez foi com que pessoas do centro-direita, para quem de repente a imigração é uma preocupação, considerem votar nos conservadores. E a imigração e a integração são um tema tão forte que nenhum político o pode evitar. Para ter alguma hipótese, tem de o pôr no centro da campanha. A questão da justiça social – usada pelos social-democratas – simplesmente não é mobilizadora. O que mobiliza é a imigração.

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Fabio Wolkenstein, professor de Ciência Política DR

Parte da estratégia doFPÖ tem sido preparar-se para entrar no Governo?

O FPÖ tem-se vindo a apresentar como um partido que pode governar, uma tendência que existe também noutras formações de extrema-direita europeia, como a Frente Nacional de Le Pen, que se livrou dos elementos mais radicais, e se vira para uma postura não só de crítica mas de propostas políticas. O que muda não é a substância, é a forma como se apresenta.

O líder do FPÖ, Heinz-Christian Strache, está à frente do partido há já muito tempo e tem uma formação coesa, consistente em termos de pessoas e de ideologia – ao contrário do que aconteceu com [Jörg] Haider que, quando chegou ao Governo em 2000, tinha um partido dividido, o que o prejudicou muito.

Ao contrário do que dizíamos há dez anos, estes partidos têm aprendido com os seus erros e têm aprendido a estar no Governo – é o caso da Hungria, ou da Noruega, em que estão a dar-se muito bem.

O FPÖ tem ainda uma diferença em relação a muitos destes partidos na Europa: tem uma longa tradição, existe há umas três décadas e está muito ancorado na sociedade austríaca.

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