Opinião

O PSD tem futuro. O PCP não tem

O PCP perdeu 40 anos a fazer do PS “o inimigo principal”. Voltar à mesma conversa é hoje muito mais difícil.

1. A crise financeira, a crise do euro e a crise existencial da própria União Europeia tiveram, como hoje sabemos, um efeito devastador sobre a paisagem política das democracias europeias. Grandes partidos habituados a governar desapareceram, ou quase, enquanto emergiam forças políticas populistas e nacionalistas um pouco por toda a parte, baralhando as regras do jogo.

Países vistos até agora como oásis de estabilidade, como é o caso da Alemanha, viram-se finalmente confrontados com a volatilidade dos eleitores, atingindo as forças do centro. As coligações, que são o pão nosso de cada dia dos países mais ricos do Norte, tornaram-se muito mais difíceis de construir e muito mais eclécticas. Veja-se a Holanda, há seis meses sem conseguir formar governo. Há governos europeus que vivem hoje com o apoio parlamentar de forças da direita xenófoba.

Finalmente, a social-democracia europeia, com algumas excepções, confronta-se penosamente com a sua própria crise, deixando os votos fugir, incluindo para a extrema-direita (como aconteceu ao SPD), incapaz de encontrar as ideias que a tornem de novo atractiva. O PASOK desapareceu em combate. Os trabalhistas holandeses também. O PSOE, entalado entre o Podemos e o Cidadãos, tentou virar à esquerda, mas não lhe serviu de nada. O SPD alemão não consegue afirmar-se como alternativa desde 2005. Acaba de escolher uma líder parlamentar que representa a ala esquerda do partido e que promete regressar às origens. Mas quais?

No Reino Unido, pelo contrário, o regresso da velha esquerda do Labour está a ter um assinalável sucesso, em grande parte devido à tempestade que assola os conservadores, incapazes de ter uma ideia sobre o que deve ser o “Brexit”, enquanto se entretêm no tiro ao alvo a Theresa May. É penoso de ver, mas abre espaço a um crescimento do velho Labour em direcção ao centro que ninguém conseguia imaginar há meia dúzia de meses. Jeremy Corbyn conseguiu dominar o partido e controlar as suas facções moderadas, graças a uma calculada ambiguidade entre os velhos tempos de Tony Benn, antieuropeu e anticapitalista, de que fez parte, e uma massa eleitoral onde estão os mais convictos defensores do “Remain”. No congresso de Brighton, conseguiu que o debate sobre o “Brexit” ficasse fora da agenda, com o argumento de que já estava resolvido.

2. Para quê lembrar isto tudo? Para tentar compreender o que se passou por cá nas eleições autárquicas. Na imprensa europeia, Portugal, com o seu governo minoritário do PS apoiado pela esquerda radical no Parlamento, tem sido apontado como um exemplo para a salvação do centro-esquerda. Os “invejosos” querem saber a receita que permite ao Governo conseguir o apoio dos comunistas e da esquerda radical e, ao mesmo tempo, cumprir rigorosamente os compromissos europeus da zona euro. Há diferenças, a primeira das quais é, obviamente, a história do sistema partidário português, distinta da de muitas outras democracias europeias. A ausência de um partido populista ou nacionalista, contrariando a norma europeia, deve-se, porventura, à memória do fascismo. Mas talvez também se deva ao facto de o PCP continuar a ser uma raridade arqueológica, conseguindo concentrar muitos votos de protesto contra o capitalismo, as grandes empresas, a Europa, a globalização.

3. Mas a crise não deixou de provocar transformações importantes, que foram agora testadas nas autárquicas. O PSD entrou numa fase de turbulência que, como já se está a ver, não vai ser nada fácil de resolver. É interessante observar como uma parte, mais histórica, do partido insiste em reivindicar-se de “social-democrata” (acusando Passos de a ter abandonado), como se fosse essa a sua raiz ideológica, sobrepondo-se a um Partido Socialista que é genuinamente social-democrata desde a origem, com Soares, com Guterres ou, o que é ainda mais relevante, com António Costa.

O PSD nasceu e cresceu como um “catch all party” — por isso se dizia que era o mais português dos partidos portugueses. Não tinha ido lá fora buscar uma família ideológica, como o PS e o CDS foram buscar a social-democracia e a democracia cristã. Devia ter mantido o nome de PPD, que sempre foi. Até Passos era uma mistura doseada de conservadorismo (nos costumes), de neokeynesianismo (no tempo de Cavaco) e de liberalização económica, mas não do neoliberalismo. Passos chegou à liderança rodeado por um grupo restrito de gente que não vinha do velho PSD dos barões, mas de sectores que sempre foram minoritários, convencidos de que tinham a missão histórica de romper com o passado (do centrão) e criar uma força verdadeiramente liberal, que nunca ninguém tinha conseguido criar à direita. Era uma iniciativa louvável. O programa de ajustamento começou por parecer uma bênção. Servia de pretexto para mudar as coisas, mudando também o partido. A cegueira ideológica com que impôs a austeridade, desprovida de qualquer preocupação social, travou-lhe o futuro.

Mas não foi só isso. Ninguém contou com a ruptura que António Costa se preparava para fazer na bipolarização “coxa” que impedia o PS de ter aliados à esquerda, enquanto o PSD contava com um parceiro para lhe garantir maiorias. Foi uma ruptura arriscada. Com uma particularidade que a direita ainda não conseguiu compreender: o PS não saiu do sítio. Continuou a ser o mesmo partido de centro-esquerda que sempre foi, desde a sua fundação, forjada na luta contra os comunistas e na defesa de uma democracia pluralista e europeia. Foi esta a sua génese. Nenhuma aliança a consegue destruir. O Governo é pelos mercados, pela livre concorrência, pela Europa, pela relação transatlântica. Nunca poria em risco a pertença ao euro nem enveredaria por qualquer política económica virada para as nacionalizações (como Jeremy Corbyn) ou pela penalização excessiva dos ricos e das empresas (como Hollande). Os resultados estão à vista.

4. Vai ser agora mais difícil manter os parceiros de coligação satisfeitos, quando António Costa tem de iniciar uma nova etapa, mais virada para o médio prazo do que para a devolução de benefícios. Para o Bloco, não há problema. É um partido de elites citadinas, herdeiras do radicalismo esquerdista dos anos do PREC. O seu destino é o PS, como já aconteceu noutros períodos da história dos socialistas. Para o PCP é um enorme fardo, mas talvez não apenas pelas razões que têm sido apontadas. Provavelmente, a fuga de votos para o PS seria inevitável independentemente da coligação.

Os comunistas foram atingidos, como teriam de ser um dia, pela volatilidade do voto, num contexto em que o pragmatismo do eleitorado pesa mais do que as velhas ideologias. Por culpa própria, e não do PS. As caras mais jovens, saudadas como um sinal de renovação, não são nada disso. O discurso é exactamente o mesmo, no tom, nas palavras, nas ideias. A estranha fidelidade ao marxismo-leninismo impõe-lhe a amizade com a Coreia do Norte, talvez o indício mais patético do seu isolamento. Ainda tem as greves para pressionar o Governo. Mas outras greves, como as dos juízes (já desconvocada, mas nunca vista numa democracia) ou dos enfermeiros, com reivindicações que fazem da CGTP uma força moderada, ou a da Função Pública já anunciada, são a expressão de uma classe média ligada ao Estado que quer manter os privilégios de antes da crise, mas já não pode. E que, maioritariamente, não vota PCP.

O dilema dos comunistas portugueses é irresolúvel. Não querem mudar mas não podem abandonar o Governo. Qualquer resposta é má. Já perderam a oportunidade de se “reformar”, como aconteceu há décadas na Itália, na Espanha ou França. E perderam 40 anos a fazer do PS “o inimigo principal”. Voltar à mesma conversa é hoje muito mais difícil. Ao contrário do PSD, que tem futuro, os comunistas não têm.