O dia em que Espanha perdeu a Catalunha

Puigdemont abre a porta à declaração unilateral de independência já nos próximos dias. “Votámos, votámos”, é o grito mais ouvido agora entre os catalães. “Independência, independência”, repetem. Rajoy não está a ouvir.

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Celebração do referendo na praça da Catalunha, em Barcelona SANTI DONAIRE/EPA

O primeiro-ministro espanhol parece não ter-se dado conta, mas este domingo a Catalunha ficou mais longe do que nunca da Espanha pós-guerra civil e pós-franquismo. “Fizemos o que tínhamos de fazer e cumprimos a nossa obrigação, actuando dentro da lei e sempre dentro da lei”, afirmou, ao início da noite. Da boca de Mariano Rajoy não saiu uma palavra sobre os 847 feridos, alguns em estado grave, nem dele se ouviu a expressão carga policial.

Já se sabia que a distância política entre Barcelona e Madrid é cada vez maior do que a geográfica. Mas este domingo bastava a Rajoy ter saído à rua, talvez bastasse ir à janela, e teria ouvido os manifestantes que se juntaram nas Portas do Sol de Madrid para condenar a repressão com que a Polícia Nacional e Guarda Civil desalojaram assembleias de voto por toda a Catalunha. “Madrid está com o povo catalão”, cantou-se.

As imagens, essas já nunca vão desaparecer. Foram vistas em Espanha e no resto do mundo. Terão de passar anos até começarem a ficar menos nítidas nas mentes de muitos catalães. Agentes a lançarem civis de diferentes idades escadas abaixo, a arrastarem gente pelos cabelos, a deixarem senhoras de cabelo branco de rosto ensanguentado, a espancarem jovens e menos jovens ou a arrancar urnas de voto da mão de voluntários e eleitores.

Marta Torrecilla fazia parte de uma mesa de voto na escola Pau Claris, de Barcelona. Há um vídeo onde se vê a ser arrastada pelo chão e depois por umas escadas, às mãos de membros da Polícia Nacional. “Só estava a tentar defender as pessoas mais velhas”, explicou depois, ouvida por diferentes jornais e rádios. “Nas escadas mexeram-me, com a roupa levantada, e depois partiram-me todos os dedos da mão, um a um. É muita maldade.”

“Viste os vídeos da violência? Eu já não consigo ver mais. No fim, entraram em poucas escolas, mas onde foram portaram-se como bárbaros.” Albert acordou domingo já muito nervoso, mal dormiu na verdade. “Fui eu que trouxe as urnas”, conta, sentado na sala de aulas que foi assembleia de volta e quando a contagem está mesmo a terminar na escola Joan Miró, no bairro residencial de Eixample.

“Dei voltas e voltas antes de entrar. Tinha as urnas em casa, mas só quiseram entregá-las de véspera. Nem imaginas os nervos com que andada. Nem nos deixavam levar os telemóveis para as reuniões”, descreve. Albert aguentou até aqui mas não pode mais. Baixa a cabeça e começa a chorar, é o momento de descompressão que adiou até poder.

“Rajoy faz o que quer”

Albert recompõe-se mas não consegue esquecer as imagens de catalães espancados nem as palavras do primeiro-ministro. “Se fosse outro, isto mudaria tudo. É o Rajoy, ele faz o que quer, não ouve ninguém.”

Horas antes, outro catalão que votou numa assembleia ali ao lado, no Liceu Ernest Lluch (o socialista catalão assassinado pela ETA em 2000), olhava incrédulo para o ecrã do seu telemóvel, vídeo após vídeo, imagens de outras escolas, algumas tão perto, e um cenário assustadoramente diferente. “Já viste isto?”, pergunta Carles, sentado num café. “Depois disto, como é que esperam que continuemos no país desta polícia, no país que dá estas ordens?”.

Carles tem outras dúvidas. Por exemplo: “Eles não diziam que isto não valia nada, que era uma brincadeira sem valor? Então, para quê tudo isso?”, pergunta. Depois de uns momentos em silêncio, parece ter chegado a algum tipo de conclusão. “Assim, foram eles que tornaram o nosso referendo importante, não é?”

Um país “livre”

Haverá certamente muitos catalães que não esperam continuar em Espanha, e é para o presidente da Generalitat que olham agora. “Ganhámos o direito a ter um Estado independente que se vai constituir em forma de república”, disse Carles Puigdemont, já a noite ia longa, numa intervenção transmitida pela televisão catalã e recebida na Praça da Catalunha aos gritos de “Independência, independência”.

“Tudo aconteceu de acordo com a Lei do Referendo e terá consequências”, garante o líder catalão, falando da lei aprovada pelo parlamento autonómico, suspensa pelo Tribunal Constitucional e considerada ilegal por Madrid. “Os catalães ganharam o direito a serem respeitados na Europa”, afirmou, antes de descrever Espanha como “este Estado que se comporta de forma autoritária”.

Rajoy falou em reunir com os partidos com representação no Congresso a partir de segunda-feira. Puigdemont em cumprir com o que foi aprovado pela maioria independentista no parlamento autonómico. “Temos direito a decidir o nosso futuro. Temos direito a viver em liberdade e em paz”, disse. Esse novo país, descreve, será “livre, digno e democrático”.

Greve geral

As milhares de pessoas que se juntaram na praça mais central de Barcelona para seguirem a noite gostaram do que ouviram. Logo depois da intervenção de Puigdemont cantou-se o hino catalão, Els Segadors. Depois, houve mais gritos de “Independência” seguidos da palavra de ordem que se ouve pela cidade desde as 20h: “Votámos, votámos”.

Antes do líder catalão falar já membros de alguns dos partidos que integram a coligação que o apoia, Juntos pelo Sim, tinham defendido uma greve geral a partir de dia 3, como já tinham antecipado algumas centrais sindicais antes do referendo. O mesmo fez a CUP (Candidatura de Unidade Popular), o partido à esquerda da coligação cujos votos são essenciais para assegurar a maioria que sustenta a actual Generalitat. “As ruas serão sempre nossas”, é outras das frases que mais se diz por Barcelona.

Da parte das formações que Rajoy voltou a insistir ter a seu lado, o Cidadãos (partido que nasceu na Catalunha para combater o independentismo) e o PSOE, ouviu-se o apoio do primeiro e as críticas do segundo. O líder socialista, Pedro Sánchez, condenou as cargas policiais e a repressão e pediu a Rajoy que inicie uma negociação com o governo catalão. Pablo Iglesias, do Podemos, defendeu aquilo que se esperava, a realização de um referendo negociado e vinculativo.

Os catalães chegaram a este dia com uma certeza: acontecesse o que acontecesse, este não seria mais um 9-N, como ficou conhecida a consulta de 2014. Agora, muitos não querem ouvir falar de negociações nem muito menos de outra ida às urnas. Em Madrid não se ouviu ainda, mas o que agora se grita em Barcelona é mesmo “Votámos, votámos”.