Morreu Peter Hall, o padrinho do teatro britânico

Encenador e empresário fundou a Royal Shakespeare Company, dirigiu o National Theatre e criou uma companhia com o seu nome, onde trabalhou com grandes actores de todo o mundo.

Peter Hall em 1988
Foto
Peter Hall em 1988 Reuters

Desapareceu um gigante, uma lenda, o pai e o padrinho do teatro britânico: as reacções são unânimes no comentário à morte, esta segunda-feira, de Peter Hall, aos 86 anos. O encenador e empresário, que fundou a Royal Shakespeare Company (RSC) e dirigiu o National Theatre (NT), morreu no hospital do University College, em Londres, rodeado pela família. Sofria de demência, que lhe fora diagnosticada em 2011, altura em que abandonou a actividade profissional e a vida pública.

“Todos nós nos apoiamos nos ombros de gigantes, e os ombros de Peter Hall suportaram todo o teatro britânico como hoje o conhecemos”, disse à agência Reuters o actual director artístico do National Theatre (NT) britânico, Rufus Norris. “A sua tenacidade e visão lendárias criaram um legado extraordinário e duradouro para todos nós”, acrescenta o encenador e cineasta vinculando também a nova geração de profissionais do teatro à dívida para com Hall, mesmo se não foram directamente tocados pela sua influência.

Nascido em 1930, numa comunidade rural de Suffolk, no leste de Inglaterra, filho de um chefe-de-estação dos caminhos-de-ferro, Peter Hall formou-se na Universidade de Cambridge, onde iniciou também a sua actividade teatral, como actor e encenador. Em 1953, tem a sua primeira experiência profissional, numa peça de Somerset Maugham, A Carta, no Theatre Royal Windsor.

Dois anos depois, Hall começa a impor o seu nome sobre os palcos encenando, em Londres, no Arts Theatre, a estreia britânica de À Espera de Godot, de Beckett. O sucesso da produção tem reflexos do outro lado do Atlântico, e Tennessee Williams confia-lhe também a estreia londrina de peças como Camino Real (1957) e Gata em Telhado de Zinco Quente (1958). Outras peças que Hall dirigiu em estreia britânica foram The Homecoming, de Harold Pinter (1965), e Amadeus, de Peter Shaffer (1979).

Em 1960, com apenas 29 anos, Hall funda a Royal Shakespeare Company em Stratford-upon-Avon. Mantém-se à frente da companhia até 1968, período durante o qual expande a sua acção também para Londres, para o Aldwych Theatre. “Ao fundar a Royal Shakespeare Company, ele criou um grupo que liderou as produções de Shakespeare em todo o mundo, mas que triunfou também na apresentação de novas peças de todos os géneros”, salientou Trevor Nunn, antigo director da instituição nacional de teatro entre 1997 e 2003, citado pela Reuters.

Em 1973, Hall é nomeado director do National Theatre, e é também sob o seu mandato que a instituição muda as suas instalações de Old Vic para um novo edifício construído de propósito na margem sul do Tamisa. Em comunicado divulgado após a morte de Peter Hall, o NT elogia igualmente “a extraordinária carreira que se estendeu por meio século", e que "influenciou, sem paralelo, a vida artística britânica no século XX".

Terminado o seu vínculo com o National Theatre, em 1988, o encenador-empresário decide fundar uma companhia com o seu próprio nome, que dirigirá até ao fim da sua vida activa, em 2011. Paralelamente, em 2003, cria o Rose Theatre Kingston.

 “Peter Hall foi uma das grandes figuras na história do teatro britânico, numa linha de empresários que remonta a James Burbage [1530-1597]”, salienta Nicholas Hytner, outro antigo director da instituição nacional de teatro, citado pela BBC, que o classifica ainda como “o grande caixeiro-viajante do teatro do século XX”. Já Trevor Nunn descreve Hall como “um encenador emocionante e penetrante”.

Se enquanto esteve à frente da RSC e do NT, Hall moldou a realidade do teatro britânico, convocando para as suas produções os grandes intérpretes do Reino Unido – Maggie Smith e Peggy Ashcroft, Laurence Olivier e John Gielgud, Judi Dench e Antony Hopkins, estes dois últimos numa produção de António e Cleópatra, em 1987 –, já com a sua própria companhia alargou os elencos aos actores americanos, com nomes como Dustin Hoffman, Jessica Lange ou Kim Catrall a associarem-se a Vanessa Redgrave, Alan Bates ou Elaine Page.

Em Janeiro de 2011, a marcar o que seria a sua despedida dos palcos, Peter Hall regressou ao National Theatre para uma última – e muito elogiada – nova encenação de Shakespeare, Noite de Reis, com a sua filha Rebecca Hall no elenco.

Mas se o teatro foi o principal palco da carreira de Peter Hall, ele cultivou também a ópera, tendo dirigido produções nos principais palcos da Europa e da América. Em 1983, por exemplo, encenou para o Festival de Bayreuth o ciclo O Anel do Nibelungo, com o maestro Georg Solti, no centenário da morte de Richard Wagner.

No ano a seguir, assume a direcção do prestigiado festival de ópera de Glyndebourne. Em declaração à BBC, Gus Christie, director executivo do festival, recorda que essa foi “a época de ouro” para Glyndebourne. “Ele criou produções eternas, e era adorado tanto pelos espectadores como pelos artistas”, acrescenta.

Peter Hall foi ainda realizador. Se na vintena de títulos que fazem a sua filmografia a maior parte corresponde à adaptação televisiva de produções teatrais suas, não deixou de experimentar o grande ecrã, como em Nunca Fales com Estranhos (1995), um thriller com Rebecca De Mornay e Antonio Banderas, ou a comédia Aquela Sexta-Feira (1970), com Ursula Andress, Stanley Baker e David Warner.

Em paralelo com uma carreira sempre em trânsito entre as grandes instituições públicas e companhias comerciais, Peter Hall foi sempre “um feroz defensor do apoio público às artes”, como agora sublinha o NT. Esta sua atenção ao serviço público valeu-lhe distinções e homenagens em diferentes lugares, como a ordenação como Cavaleiro no seu país (1977), o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras em França (1965), ou a inscrição do seu nome no American Theater Hall of Fame, em Nova Iorque (2005).

Casado quatro vezes – a sua primeira mulher foi a actriz francesa Leslie Caron (que em Um Americano em Paris dança com Gene Kelly, e foi a Gigi no filme homónimo de Vincente Minnelli) –, Peter Hall deixa seis filhos (com os quais trabalhou em diferentes palcos) e nove netos.