Reportagem

“Num segundo as chamas estavam a quilómetros, noutro já estavam em cima de nós”

Nas aldeias de Pedrógão Grande, o olhar é de desolação, assim como a paisagem, destruída depois das chamas.

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O desabafo é de Henrique Carmo, sucateiro, morador de Adega, uma pequena aldeia do concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, um dia depois de o fogo ter consumido tudo por onde passou. Há 61 mortos, segundo números oficiais até ao momento: “Bastaram alguns segundos e tudo ficou reduzido a cinzas. Num momento as chamas estavam a quilómetros, noutro já estavam em cima de nós." 

Enquanto olha estupefacto para os cadáveres carbonizados dos animais, apanhados pelas chamas no barracão do irmão, Henrique pouco consegue dizer. “Estou maluco com isto tudo”, resume. "Agora é este negro todo à volta.” 

Os carros e o ferro-velho com que negoceia estão reduzidos a nada. O sucateiro ainda não fez contas aos prejuízos. Nem tem cabeça para isso. “A casa da minha avó, onde eu às vezes também estou, também foi atingida”, lamenta.

A única imagem que guarda, desde que o fogo chegou à pequena localidade de Adega, é a das chamas a surgirem com uma força tal que mais pareciam "as ondas do mar que tudo levam à frente”. “Estavam ainda a uns quatro quilómetros e em segundos já estavam aqui nas casas”, recorda Henrique, mostrando as mãos negras, uma espécie de prova da passagem do fogo.

Maria da Conceição passou a noite em branco. “Ainda não fui à cama. Não consigo, tenho medo que o inferno volte." Em Chãos, a manhã deste domingo foi tempo de ver o que ficou. Destruição. Pouco mais. “A casa salvei, mas o resto foi tudo. Valeram-me os baldes de água, que bombeiros não vi cá nenhum”, afirma, em tom de revolta. Muda-se de terra, mas as queixas são as mesmas. “Eles chegaram, mas no fim”, ouve-se, em Graça. Vinte e quatro horas depois, centenas de bombeiros continuam a trabalhar, com apoio internacional

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A paisagem florestal é agora marcada pelo preto Adriano Miranda

A paisagem florestal nos cerca de 20 quilómetros de caminho entre Figueiró dos Vinhos e Pedrógrão Grande é agora marcada pelo preto. O chão transformou-se num manto cinzento, pontuado por troncos de árvores queimadas. Pelas estradas, postes de eletricidade tombados ou queimados.

Também há casas sem telhados, jardins destruídos e viaturas nas valetas queimadas, algumas das quais acidentadas. “As pessoas, em pânico, meteram-se nos carros para fugir. Umas despistaram-se, outras foram apanhadas pelas chamas”, conta Laurinda Pires, cujo ex-cunhado terá sido uma das vítimas.

“A minha vizinha disse-me que ele tentou fugir e o carro estava batido. Mas não sei o que se passou”, desabafa ainda com esperança.

Amélia Pires, de 80 anos, apenas diz que nunca viu semelhante tragédia. Habitante de Senhora da Piedade – outra aldeia do concelho de Pedrógão Grande –, ficou impedida de regressar a casa. No sábado, estava num convívio em Leiria quando soube que a terra estava a arder. Regressou de imediato mas não passou de Avelar, onde continuava neste domingo de manhã. Ela e muitos outros, que ali se refugiaram, e que só agora despertam para a realidade.

A área próxima ao campo de futebol local, junto ao IC8, foi transformada num local de recepção de centenas de pessoas que, ao início da tarde de domingo, ainda não tinham autorização para regressar a casa.

Nesta espécie de acampamento, acompanhado por elementos da Cruz Vermelha e outros profissionais da saúde e da assistência social, há quem procure informações sobre familiares. “Não nos dizem nada, cortaram-nos o caminho [para casa] e tivemos de passar aqui a noite”, lamenta Filomena Vilar, ansiosa por saber se os pais, com quem já não fala desde a madrugada de domingo, se encontram em segurança. 

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