E a vida continua, melancolicamente, sem Abbas Kiarostami

O seu último filme, 24 Frames, foi apresentado postumamente no festival para a celebração da 70.ª edição. Thierry Frémaux, o delegado-geral, anunciou gestos de homenagem em Cannes às vítimas do ataque terrorista de Manchester.

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O cineasta Abbas Kiarostami (1940-2016) NFS - Nuno Ferreira Santos
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24 Frames de Abbas Kiarostami dr
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“O que ele nos deixou foi isto” — que Thierry Frémaux apresentou como um filme em sketches —, “ao partir ainda abriu pistas e portas, que é o que fazem os artistas.” Este chamou-se Abbas Kiarostami (1940-2016), o festival de Cannes chamou-o, postumamente, para a celebração da 70.ª edição, apresentando o seu último filme, 24 Frames.

No dia seguinte ao ataque na sala do concerto de Ariana Grande em Manchester, o delegado-geral do festival, Thierry Frémaux, anunciando gestos de homenagem às vítimas e seus familiares (o habitual fogo-de-artifício nocturno não iria acontecer; minuto de silêncio na passerelle), terminou com “e a vida continua”, pedido de empréstimo ao filme de 1992 de Kiarostami. Tem de continuar a vida, a liberdade e partilha — Cannes também vai continuar.

Não é uma facilidade de citação, é verdade que 24 Frames é isso, começou logo a ser isso. Numa declaração do cineasta sobre o seu projecto, ele dizia que uma vez que os pintores e os fotógrafos só capturam uma imagem e nada do que acontecera antes ou depois dela, decidira utilizar as fotos que tirara nos últimos anos, acrescentando o que imaginara que tinha acontecido antes ou depois do imobilizado.

São 24 “cenas”, duas horas de filme, realismo imaginado, fabricado e animado, como se uma natureza-morta desenrolasse, sem precisar de autorização humana, a sua vida própria — é a melancolia que vai tomando conta da experiência de assistir a 24 Frames, de detectar vestígios dos homens (por exemplo, nas janelas de casas e de carros que enquadram e contemplam a neve, o mar, os animais, as vacas, os antílopes, os pombos), mas a narrativa a prosseguir apesar deles, apesar dos tiros que ecoam na neve, dos carros que ameaçam a reunião das aves... novas possibilidades de história, portanto. Faz todo o sentido o termo “sketch” empregue por Frémaux para este objecto, porque apesar de o cruzamento de materiais exibir a sua natureza de objecto compósito de cinema, fotografia e instalação, a sua determinação é imaginar histórias. E a vida continua, melancolicamente, sem Abbas Kiarostami. Última imagem que ele nos deixou: um The End ao som de Love Never Dies, de Andrew Lloyd Weber.

Para a 70.ª edição, outros amigos foram chamados para celebração, reunião do património do festival, Thierry Frémaux e Cia. propõem ainda dois episódios da nova série com que David Lynch regressa a Twin Peaks (e é um regresso ao festival porque Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer, o filme que Lynch realizou como prequela à série de 1990-1991, teve aqui, na edição de 1992, a sua primeira pateada); Carne y arena, uma curta-metragem, sete minutos realizados por Alejandro González Iñárritu e fotografados por Emmanuel Lubezki, marcando a entrada da realidade virtual no festival e provando, segundo o delegado-geral quando apresentou a programação, que “é uma arte e não apenas uma técnica” — serve de antestreia a uma instalação que mais tarde vai ser apresentada na Fundação Prada, em Milão; ainda, Top of the Lake – China Girl, dois episódios da série da neozelandesa Jane Campion, a única realizadora a ter recebido a Palma de Ouro — o corpo, não de Laura Palmer, mas de uma rapariga asiática dá à costa, em Bondi Beach.