Governo quer mais uma mulher no topo do Banco de Portugal

Governador propôs nova administração, mas Governo pediu pelo menos uma mulher. Há um nome tremido e três confirmados.

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Carlos Costa já conta com Elisa Ferreira na sua equipa. Governo de António Costa quer mais mulheres Daniel Rocha

As mudanças no órgão de topo do Banco de Portugal (BdP) abriram uma nova troca de argumentos entre o Governo e o governador: o Executivo manifestou dúvidas sobre um dos três nomes propostos por Carlos Costa para o Conselho de Administração do banco central, apurou o PÚBLICO. E pediu ao governador para incluir na lista pelo menos uma mulher, alegando que, num momento que as quotas de género estão a ser impostas aos bancos, o próprio supervisor não podia nomear apenas homens, mantendo no seu órgão de topo apenas uma excepção (de género): a ex-eurodeputada socialista Elisa Ferreira, que chegou ao banco central há menos de um ano já com a rubrica de António Costa. 

Desagradado com o facto de dois dos nomes indicados por Carlos Costa terem aparecido na imprensa antes de uma aprovação formal pelo Governo, este pediu ao governador que lhe entregasse uma nova proposta, com uma mulher incluída. Segunda uma das versões ouvidas pelo PÚBLICO, o governador terá aceite sem contrariar, face a um cenário que já teria colocado há mais tempo em cima da mesa (embora não tenha sido essa a sua proposta inicial). O Banco de Portugal, contactado, não quis comentar.

A questão colocou-se porque há dois novos lugares prestes a serem deixados vagos pelos actuais vice-governadores, Pedro Duarte Neves e José Ramalho - ambos já fora de mandato, numa situação que se arrastou pelas dificuldades na venda do Novo Banco. Juntando-se a isto o facto de haver pelo menos mais dois lugares que não foram preenchidos por Carlos Costa na actual composição da sua equipa.

Foi aí que o governador avançou com três sugestões a António Costa e ao ministro das Finanças: a subida de José Cadete de Matos e Rui Carvalho, actuais directores do departamento de estatística e do departamento de mercado do BdP, chamando-se ainda Luís Laginha de Sousa, o ex-presidente da Euronext que Mário Centeno há meses nomeara para chefiar a comissão de fiscalização da CGD (ao tempo de António Domingues). 

O Governo aceitou o primeiro e o último nomes, mas deu indicações de discordância no outro, Rui Carvalho, olhado com pouca confiança em alguns sectores do Executivo. Se relativamente a Rui Carvalho ainda há versões contraditórias se ficará na proposta a aprovar pelo Governo, a verdade é que Carlos Costa já entregou ao Governo um nome feminino para ocupar um dos lugares vagos: trata-se de Ana Paula Serra, actualmente vogal do Conselho de Auditoria do Banco de Portugal, docente na Faculdade de Economia do Porto. Será ela, assim, a juntar-se a Elisa Ferreira, que é a actual responsável pela supervisão prudêncial. 

Elisa Ferreira seria, de resto, o nome preferido do Governo para subir a vice-governadora, mas formalmente a decisão sobre os lugares mais importantes no banco central é do próprio Governador (ao contrário do que acontece com os novos nomes da administração, que são propostos por Carlos Costa, mas têm que ser aprovados pelo Governo em Conselho de Ministros). 

Tensão, da campanha a Louçã

É sabido que as relações entre este Governo e o governador não começaram com o pé direito. Da campanha eleitoral sobraram críticas dos socialistas à gestão de casos como o da resolução do BES. Mantendo-se o clima tenso com a venda/resolução do Banif - quando à esquerda se pedia a António Costa para demitir o chefe máximo do banco central.

Nos últimos meses, o clima pareceu amenizar-se: o BdP juntou-se às negociações sobre os ditos “lesados” do GES; António Costa e Carlos Costa apareceram de acordo sobre a necessidade da criação de um veículo para o crédito malparado. Mas nas últimas semanas voltaram os sinais de tensão. Primeiro, com a notícia do Expresso dizendo que o nome proposto pelo BdP para o Conselho de Finanças Públicas (o de Luís Vitório, ex-chefe de gabinete de Paulo Macedo) não tinha tido luz-verde das Finanças, alegando não ser um macroeconomista. E depois com a nomeação-supresa de Francisco Louçã, ex-líder do BE um crítico feroz de Carlos Costa, para o novo Conselho de Supervisão do BdP, no Conselho de Ministros da última quinta-feira.

O Banco de Portugal não reagiu publicamente a qualquer das duas notícias, mas que o comentador da SIC Marques Mendes, amigo de Carlos Costa, não deixou de anotar como uma “provocação” vinda de Mário Centeno ao governador, mesmo aceitando que aquela nomeação era justificada, face ao currículo académico de Louçã.