Retórica anti-muçulmana de Trump reforça Daesh, dizem analistas

Presidente dos EUA apresentou medida contra terroristas, mas diplomatas frisam que iraquianos que trabalharam para as tropas americanas são dos principais afectados por medida contraproducente.

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Manifestantes durante uma concentração, nesta sexta-feira em Nova Iorque, em solidariedade com os imigrantes e muçulmanos dos Estados Unidos JUSTIN LANE/LUSA

Malala Yousafzai, a activista paquistanesa Nobel da Paz 2014, foi uma das primeiras a reagir à assinatura do decreto pelo Presidente Donald Trump que proíbe todos os cidadãos de sete países muçulmanos de entrarem nos Estados Unidos, nos próximos três meses. O anúncio da medida transitória, que também suspende, durante 120 dias, as entradas de todos os refugiados no país, deitou por terra as esperanças de iraquianos que colaboraram com Washington durante a permanência das tropas americanas e que se vêem em risco de viver no Iraque.

“O Presidente Trump matou os nossos sonhos. Não tenho nenhuma esperança de algum dia ir para os Estados Unidos”, disse à Reuters a partir de Bagdad, um iraquiano que pediu para manter o anonimato por motivos de segurança, e cuja mulher trabalhou para a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). O casal é um dos muitos exemplos de cidadãos com medo de serem perseguidos no Iraque ou noutros países muçulmanos por terem trabalhado para a Administração norte-americana e que beneficiaram, nos últimos anos, de um programa de acesso facilitado a vistos.

A perspectiva é partilhada por um capitão da Marinha dos Estados Unidos, na reforma, que esteve no Iraque em 2003. E que também à Reuters, que contratou vários iraquianos como tradutores e intérpretes,sublinha que muitos milhares de iraquianos, que trabalharam para os Estados Unidos, "são vistos como colaboradores" e o risco que correm é grande. "Muitos tradutores estavam a tentar deixar o país porque estavam marcados por terem trabalhado com as forças norte-americanas."

Dar força aos extremistas

A assinatura do decreto que proíbe todas as pessoas do Iraque, Síria, Irão, Sudão, Líbia, Somália e Iémen, de entrarem nos Estados Unidos motivou análises muito pessimistas de diplomatas e especialistas em relações internacionais, para quem a retórica de Trump alimenta a cruzada dos extremistas do Daesh contra os Estados Unidos.

Numa declaração divulgada logo após o anúncio de Trump, Malala evocou as crianças de alguns desses países, crianças que, como disse, “não têm culpa de sere apanhadas” por anos de guerra. E deu o exemplo de uma amiga, Zaynab, que fugiu de três países – Somália, Iémen e Egipto – "antes dos 17 anos e a quem os Estados Unidos concederam um visto, permitindo-lhe aprender a língua e estudar para se tornar uma advogada de direitos humanos.”

E depois de se dizer “destroçada” ao ver que “a América vira as costas à tradição de acolher refugiados e imigrantes – as pessoas que ajudaram a construir o país, prontas a um árduo trabalho em troca de uma oportunidade justa para uma vida nova”, a activista deixou um pedido: “Nestes tempos de incerteza e instabilidade no mundo, peço ao Presidente Trump que não vire as costas às crianças e famílias mais indefesas do mundo.”

Apesar de, durante a campanha e já depois de tomar posse, se referir aos muçulmanos como alvo preferencial de algumas das suas políticas, Donald Trump apresentou a medida, nesta sexta-feira, não contra os muçulmanos mas contra os terroristas.

Prioridade aos cristãos

A percepção porém, segundo o jornal New York Times, é que o decreto assinala uma provocação porque tem nele subjacente a ideia de atingir os muçulmanos. Donald Trump disse que assim que os Estados Unidos voltarem a aceitar refugiados, os cristãos terão prioridade. O jornal cita um professor de relações internacionais na Turquia, Ilter Turan, para quem esta retórica pode até ser usada “pelos terroristas que passarão a dizer: ‘Estão a ver. O alvo não é o terrorismo, são os muçulmanos.”

Essa distinção estará agora em risco, de acordo com diplomatas conhecedores dos países árabes, como Ryan C. Crocker, que foi embaixador dos Estados Unidos em cinco países muçulmanos, incluindo o Afeganistão, o Iraque e o Líbano, entre 1990 e 2012, e que diz que este tipo de discurso dá força ao argumento do Daesh de que está em guerra contra os Estados Unidos.

Os analistas, citados pelo New York Times, também notam que embora a proibição de Trump seja ostensivamente baseada em receios relativos à segurança, deixa de fora países como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Paquistão, onde foram engendradas algumas das mais graves acções terroristas contra os Estados Unidos desde os atentados de 2001.