Editorial

Super Mario deixa zona euro em suspenso

Até que os líderes europeus encontrem uma saída para o problema da dívida, resta agradecer a Super Mario que mantenha esse problema em suspenso.

O Banco Central Europeu (BCE) anunciou nesta quinta-feira que vai estender o programa de compra de dívida até ao final de 2017, embora em menor quantidade, passando as compras de 80 mil milhões de euros por mês para 60 mil milhões de euros.

A decisão assustou os mercados, que a interpretaram como o início da retirada dos estímulos monetários do BCE à economia da zona euro. Mas rapidamente Mario Draghi veio desfazer as dúvidas e acalmar os mercados, garantindo que, se a conjuntura económica o exigir, o BCE dirá presente e defenderá a estabilidade da zona euro.

Tem sido essa a imagem de marca de Mario Draghi, o banqueiro central que, entre muitas outras facetas, é conhecido por ser praticante de alpinismo, mas tem sido, essencialmente, a cara mais visível da defesa da moeda única.

Foi assim quando assumiu a liderança do BCE em Novembro de 2011 e, logo na primeira reunião em que liderou o banco, decidiu descer a principal taxa de juro da instituição. Foi assim em Julho de 2012, quando na fase mais aguda da crise das dívidas soberanas usou do poder da palavra para dizer que, durante o seu mandato, o BCE estava preparado para fazer o que fosse “necessário para preservar o euro”, deixando ainda a garantia de que tal seria “suficiente". Foi assim quando, em Janeiro de 2015, passou das palavras aos actos e anunciou um programa de compra de títulos de dívida na zona euro, mesmo tendo de enfrentar o cepticismo alemão.

Super Mario, como é conhecido, tem sido, mais de que qualquer outra personalidade da zona euro, o responsável que tem permitido continuar o projecto da moeda única. Portugal, por exemplo, conseguiu regressar aos mercados e consegue financiar-se nesses mesmos mercados porque a acção do BCE mantém as taxas de juro a níveis artificialmente baixos. O que nem Super Mario consegue, no entanto, é, por si só, resolver a crise das dívidas soberanas na Europa, que impedem que a mesma se desenvolva.

Tal como o antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, escreveu em Novembro no PÚBLICO, “a crise das dívidas soberanas não foi resolvida, mas basicamente está apenas suspensa devido à intervenção do BCE. Ou seja, os fundamentos da crise continuam presentes, a saber: o baixo crescimento, o alto desemprego e a elevada dívida pública”.

A decisão desta quinta-feira do BCE é mais um passo para que a Europa e, em particular, a zona euro ganhem tempo. A crise das dívidas soberanas continuam em suspenso. Só isso. A solução dessa crise não cabe a Mario Draghi ou, pelo menos, não é da sua exclusiva responsabilidade. Até que os líderes europeus encontrem uma saída para o problema da dívida, resta agradecer a Super Mario que mantenha esse problema em suspenso.