Ela devia ser tão famosa como Lawrence da Arábia (e já foi)

Escalou os Alpes, percorreu os desertos do Médio Oriente quando poucos se arriscavam a fazê-lo e ajudou a definir as fronteiras do Iraque. Gertrude Bell, uma inglesa que se habituou a ser a primeira, pode estar prestes a ter um museu na casa onde cresceu.

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Gertrude Bell percorreu boa parte do Médio Oriente a cavalo ou em camelo, aventurando-se por territórios que poucos ocidentais conheciam Cortesia: Gertrude Bell Archives
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Palmira fotografada por Gertrude em 1900 Cortesia: Gertrude Bell Archives
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Gertrude com oficiais ingleses e o rei Faisal (segundo a partir da direita) no Iraque, em 1922 Cortesia: Gertrude Bell Archives
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Red Barns quando era ainda um hotel e estava à venda DR

Arqueóloga, exploradora, espia, escritora, diplomata, alpinista, fazedora de reis. A Gertrude Bell nunca lhe bastou ser apenas uma coisa nem ficar muito tempo no mesmo lugar. Nascida numa família dona de um império industrial na Inglaterra vitoriana, cedo decidiu questionar os limites que se impunham às mulheres oriundas de um meio tão privilegiado e protegido como o seu.

Deixando para trás a casa onde cresceu, Red Barns, em Redcar, uma cidade costeira do condado de North Yorkshire, Gertrude Bell (1868-1926) parece ter decidido conquistar o mundo, mas acabou por se apaixonar pelo Médio Oriente, que conhecia como poucos, e pelos povos árabes, cujas línguas fez por aprender.

É precisamente para recuperar Red Barns, a casa que tem na parede uma placa que lembra a quem passa que ali viveu Gertrude Lowthian Bell, “académica, viajante, pacifista” e “amiga dos árabes”, que está em curso um plano para ali instalar um museu e um centro de investigação.

O edifício, bem ao gosto do movimento Arts and Crafts encabeçado por William Morris, foi desenhado por Philip Webb, o arquitecto que co-assinou com Morris a famosa Red House de Bexleyheath, em que pré-rafaelitas como Edward Burne-Jones e Dante Gabriel Rossetti eram visitas habituais. A casa dos Bell está muito longe de ser tão celebrada, embora tenha os mesmos tijolos vermelhos a cobrir-lhe as paredes, telhados e chaminés semelhantes e até um interior concebido por Morris, como o testemunha o papel de parede com pássaros negros sobre um céu azul, escreve Pat Yale, no diário britânico The Guardian.

Depois de nos últimos anos ter funcionado como pub e hotel, a casa de Gertrude tem hoje um plano aprovado para a transformar em apartamentos. Devoluta, corre o risco de ser vandalizada, apesar de ter sido já reconhecida a sua importância histórica. Uma associação recém-formada, os Amigos de Red Barns, trabalha agora para que a exposição The Extraordinary Gertrude Bell, que foi inaugurada em 2015 no Great North Museum, em Newcastle, e está agora no museu de Redcar, seja instalada na casa da família a título permanente. O projecto para a criação da casa-museu Gertrude Bell está a ser liderado pela deputada Anna Turley, que estava já “seriamente preocupada com o visível declínio do edifício histórico” quando começou a receber cartas dos cidadãos da região que representa no Parlamento britânico a apontar para a necessidade de salvar o imóvel, contou à imprensa local. “É trágico que um edifício tão bonito se tenha degradado até este ponto”, acrescentou, garantindo que as negociações com os actuais proprietários, sensíveis à importância que Red Barns tem para a comunidade, estão a avançar.

Mark Jackson, professor de Arqueologia da Universidade de Newcastle e responsável pelo arquivo fotográfico de Gertrude, é um dos entusiastas da casa-museu. “Gertrude Bell foi educada em Red Barns. Cheia da energia e da determinação cultivadas em casa, ela cresceu para se transformar numa mulher com uma influência internacional considerável”, disse ao jornal regional Evening Gazette. “Acreditando profundamente no valor que o património tem para as pessoas, Gertrude trabalhou sem descanso para proteger edifícios antigos e para fundar museus e bibliotecas. Ela e a sua família eram verdadeiros pioneiros.” Não podia pois ser mais natural, defende agora Jackson, que a comunidade retribua.

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Gertrude Bell começou a estudar história em Oxford quando tinha apenas 17 anos Cortesia: Gertrude Bell Archives

A viagem à Pérsia

Filha de Hugh Bell, o homem que estava à frente de um império de ferro e aço herdado do pai, Gertrude teve em Red Barns, onde ela e os irmãos foram educados por uma preceptora alemã, o seu primeiro mundo de aventuras. Dizem alguns textos biográficos que nunca recuperou da morte da mãe quando tinha apenas três anos e que era dada a depressões. O que se sabe ao certo é que, depois de se formar em História na Universidade de Oxford – foi das primeiras mulheres a fazê-lo, e com distinção, com muitos professores contrariados a exigirem que assistisse às aulas de costas para o quadro  o seu interesse pelo Médio Oriente cresceu ao visitar o tio na Pérsia (actual Irão), onde chegou em 1892. Frank Lascelles era o embaixador britânico em Teerão e, antes de fazer a viagem, Gertrude achou que tinha de aprender farsi, a língua persa, e aprendeu (quando pouco passava dos 30 dominava-a a ponto de traduzir poesia).

No Médio Oriente, Gertrude chegou a estar noiva de um homem chamado Henry Cadogan, que a família acabou por considerar inadequado, e começou a dedicar-se ao estudo de outras línguas e ao alpinismo. Na Europa, os Alpes suíços e franceses estavam entre os seus territórios preferidos e, nos primeiros, há até um pico com o seu nome.

Aos Alpes seguiu-se, em 1899, uma viagem pela Síria e pela Palestina. Em Jerusalém, no ano seguinte, estudou arqueologia e cartografia, fotografando muitíssimo. Permanentemente insatisfeita a não ser que estivesse em trânsito, deu duas voltas ao mundo (1897-1898 e 1902-1903) e atravessou boa parte do Médio Oriente em camelo e a cavalo.

Um dos seus périplos mais importantes pelo deserto, em 1913-1914, entre Bagdad e Damasco, acompanhada apenas por um pequeno grupo de criados fiéis, foi feito com o apoio de Edward Grey, o secretário dos Negócios Estrangeiros inglês. Gertrude, que era fluente em vários idiomas – árabe, alemão, francês, italiano, farsi – e conhecia a região, era a espia ideal. Tinha por missão recolher informação o mais detalhada possível sobre as tribos que controlavam o deserto sírio e sobre a influência crescente dos alemães naquele território.

Os relatórios que escrevia para Edward Grey estão repletos de belíssimas descrições da paisagem e a sua visão do quotidiano daqueles nómadas, embora lúcida, está carregada de laivos de romantismo. E não faltam sequer, nestes documentos oficiais, citações de versos de alguns dos mais importantes poetas ingleses, muitos deles seus contemporâneos. Num desses relatórios, em que descreve uma tempestade que chega de madrugada, quando a sua pequena comitiva está já em viagem, recorda Shelley: I love snow and all the forms/ of the radiant frost;/ I love wind and rain storms, anything/ almost/ That is Nature’s and may be/ Untouched by man’s misery.”

Hoje a maioria do seu espólio – correspondência, relatórios, diários, textos soltos, apontamentos, cadernos de campo e cerca de sete mil fotografias – está dividida entre as universidades de Newcastle, onde existe um Arquivo Gertrude Bell, e de Oxford, que guarda sobretudo as cartas que entre 1913 e 1915 trocou com Charles Doughty-Wylie, o militar e escritor por quem se apaixonou. O major, que terá tido um papel crucial na defesa das populações arménias face aos turcos na revolução de 1909, era casado e nunca se decidiu a deixar a mulher. Morreu em 1915, no campo de batalha, precisamente no ano em que Gertrude foi chamada ao Cairo para trabalhar no departamento de assuntos árabes, tornando-se a primeira mulher com funções políticas entre os militares ingleses. O seu conhecimento da Síria e do Iraque era vital.

O convite de Churchill

No começo do século XX Gertrude era, por isso, tão famosa como Thomas Edward Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arábia, o militar britânico que o épico homónimo de David Lean com Peter O’Toole haveria de instalar no imaginário popular em 1962. Não teve direito a filme nesta época do declínio anunciado do cinema clássico americano – só no ano passado se estreou o drama biográfico Rainha do Deserto, de Werner Herzog, com Nicole Kidman como protagonista – e, talvez por isso ou simplesmente por ser mulher (os preconceitos tendem a perpetuar-se), poucos reconhecerão hoje o papel que teve enquanto investigadora e diplomata, abrindo à Europa o mundo árabe, em especial o de territórios como o Iraque, a Turquia e a Síria, em livros como Persian Pictures (1894), Syria: The Desert and the Sown (1907) e The Thousand and One Churches (1907), ainda hoje um título de referência para os que estudam a arquitectura bizantina da península da Anatólia (actual Turquia).  

Foi enquanto desempenhava pela primeira vez funções no Cairo que Gertrude Bell voltou a cruzar-se com Lawrence da Arábia, que conhecera em 1909, numas escavações. A sua contribuição durante a guerra valeu-lhe a Ordem do Império Britânico e fez com que se tornasse imprescindível ao governo sempre que se tratava de pensar o Médio Oriente. O próprio Winston Churchill, o histórico primeiro-ministro que era à data secretário de Estado para as Colónias, fê-la regressar ao Egipto em 1921 para fazer parte do grupo que decidiria o futuro da Mesopotâmia (que hoje compreende o Iraque, parte da Síria e parte do Irão). A ela se devem em boa parte a definição das fronteiras do Iraque e a escolha do seu governante.

Tudo isto porque Gertrude estava determinada a combater todos os políticos ingleses que se referiam aos árabes como “animais” e acreditava que, se ficasse, talvez pudesse contrariar, pelo menos em parte, a estratégia diplomática britânica que consistia em mentir aos líderes da região, prometendo-lhes autonomias várias, para ganhar a sua confiança e fazer deles seus aliados, escreve o crítico literário Christopher Hitchens na revista norte-americana The Atlantic de Junho de 2007, num artigo sobre Gertrude Bell: Queen of the Desert, Shaper of Nations, um livro de Georgina Howell. “Bell fez de Bagdad a sua casa, ajudou a organizar as eleições e a escrever uma constituição, desenhou umas fronteiras um tanto ou quanto vacilantes com a Arábia Saudita e o Kuwait, fundou o Museu Nacional do Iraque e […] também acompanhou e persuadiu o rei Faisal, que fundou uma monarquia constitucional que durou de 1921 a 1958, algo impressionante para os padrões da região.”

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Gertrude Bell na conferência do Cairo, em 1921, ladeada por Churchill (a sua direita) e Thomas Edward Lawrence Cortesia: Gertrude Bell Archives

Em 1921 já o império industrial dos Bell estava a desmoronar-se. Gertrude, que em muitos casos foi a primeira a fotografar monumentos e sítios arqueológicos do Médio Oriente que estão hoje nas mãos do Daesh, ficou em Bagdad. O museu nacional era o seu grande projecto – queria mostrar ao mundo como a antiga Mesopotâmia era, de facto, o berço da civilização, o território onde tinham nascido a escrita e as leis, onde se tinham fundado os primeiros impérios e cidades.

Gertrude Bell, figura que facilmente daria argumentos às sufragistas britânicas mas que era contra o voto das mulheres, viria a morrer a dois dias de fazer 58 anos, provavelmente porque assim quis (terá tomado uma dose excessiva de comprimidos para dormir). Foi sepultada num cemitério nos arredores da capital e ao seu funeral compareceram as mais altas chefias militares e diplomáticas britânicas naquele território, bem como o primeiro-ministro iraquiano e muitos dos líderes das tribos do deserto que conhecia tão bem. O responsável pelo staff britânico fez assim o elogio de Gertrude Bell: “Nos últimos dez anos da sua vida ela dedicou todo o fervor indomável do seu espírito e todos os dons espantosos da sua mente ao serviço da causa árabe, em particular da do Iraque. Por fim, o seu corpo sempre frágil foi quebrado pela energia da sua alma.” O rei Faisal assistiu ao cortejo fúnebre da varanda.

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