Crónica

A morte cada vez mais íntima do rock

O rock foi sempre associado a uma existência à flor-da-pele. A morte quando surgia era uma suspensão no tempo.

O mês de Janeiro está a ser muito aziago para o rock, ouve-se por aí numa alusão ao número de músicos que morreram nas últimas semanas. E realmente parece ser assim, com mortes de David Bowie, Lemmy (Motorhead), John Bradbury (Specials), Glenn Frey (Eagles),  Dale Griffin (Mott The Hoople), Paul Kantner (Jefferson Airplane), Black, Otis Clay ou Natalie Cole. Nem todos praticantes de rock no sentido restrito, mas figuras da cultura popular, exemplificativas dessa realidade: o número de músicos da música popular que tem vindo a morrer aumentou.

Apesar de algumas expressões de incredulidade que têm acompanhado estas mortes, e apesar de alguma excepcionalidade nas últimas semanas, as mortes no rock vieram para ficar. Há mais de dez anos o conhecido crítico de música e editor de cultura do New York Times, Jon Pareles, afirmava que tinha a felicidade de raramente escrever obituários de músicos rock.

A sua declaração resultava da comparação em relação às restantes áreas tradicionais dos jornais (política, economia, desporto ou sociedade), mas também ao panorama cultural, do cinema às artes, ou no caso da música, do jazz à clássica. O seu argumento era da ordem da lógica (a maioria dos músicos rock seria jovem, logo a probabilidade de morte seria menor).

Hoje não diria o mesmo. É a ordem natural das coisas. A cultura jovem ocidental, com todos os rituais a ela associados, irrompeu nos anos 1950. Muitos dos que cresceram com ela envelheceram naturalmente, entre músicos, agentes, consumidores e público em geral. Basta recordar que músicos como Bob Dylan, Leonard Cohen, Rolling Stones, Neil Young, John Cale, Aretha Franklyn, Paul Simon, Debbie Harry, Rod Stewart, Robert Wyatt, Eric Clapton, Pete Townshend, Brian Wilson, Patti Smith, Paul McCartney ou Caetano Veloso – todos eles no activo – já passaram os 70 anos. E o que dizer de pioneiros do rock, como Little Richards, Fats Domino, Jerry Lee Lewis ou Chuck Berry, que já passaram há muito os 80 anos e ainda dão concertos, com os seus bisnetos, na assistência?

Naturalmente o público também acompanha esta tendência, sendo cada vez mais transgeracional. É normal nesse quadro que as probabilidades de convívio com a morte aumentem. Não é por acaso que todos os óbitos de Janeiro se deveram a doença. Nada de invulgar. É quando se envelhece que as possibilidades de elas serem contraídas com gravidade aumenta.

O nosso espanto advém, em parte, da dissociação que hoje é nítida entre a realidade e a mitologia à volta do rock, que se afirmou como a música feita pelos jovens, para os jovens, expressando o que é isso de ser jovem. Hoje essa narrativa não tem sustentáculo. É uma fantasia colectiva que, apenas em momentos rituais, como a morte, precisamente, é reavivada – não foi por acaso que os jornais de todo o mundo escolheram fotos do início de carreira de Bowie para colocar nas suas primeiras páginas.

O rock foi sempre associado a uma existência à flor-da-pele. A morte quando surgia era uma suspensão no tempo. No nosso imaginário quando ela aparecia (Jimi Hendrix, Jim Morrison, Ian Curtis, Kurt Cobain, Amy Winehouse) representava qualquer coisa de invulgar. Um reforço da máxima “viver rápido e morrer depressa”. Hoje quando o rock deixou de ser um circuito adolescente, com grupos na meia-idade ou na veterania, a morte tende a naturalizar-se, humanizar-se, vulgarizar-se até.

Aconteceu o mesmo com as narrativas de contrapoder e rebelião, com os poderosos do mundo – de David Cameron a Obama – a reafirmarem com insistência a sua ligação ao rock, citando os Smiths, surgindo ao lado de Bruce Springsteen, ou lamentando a morte de David Bowie com conhecimento de causa. Mas aí, mais uma vez, também nada de especial está a acontecer: estão apenas a dar expressão ao facto de terem crescido a ouvir música pop-rock, como a maior parte dos indivíduos da sua idade.

Longe vão os tempos em que criar e consumir rock era intitular-se jovem, com Jagger a jurar que nunca cantaria (I can’t get no) Satisfaction aos 40 anos. Na actualidade o rock tanto se inscreve nos rituais da meia-idade ou da veterania, como da adolescência. O que cristalizou foram os discursos românticos à sua volta como se o rock se recusasse a crescer. De tal forma que apesar de a realidade se ter transformado ainda hoje se mantêm inalteráveis, contra todas as evidências, sendo a maior delas, a morte.