Opinião

Ninguém falha a sua última oportunidade

As sondagens continuam a ser favoráveis a Marcelo, o que diz bem da relativa pobreza que reina à sua esquerda e à sua direita. E sabemos outra coisa. Com Marcelo ou Nóvoa, António Costa fica sempre bem

1. Não é apenas nesta campanha que as televisões nos oferecem momentos de puro entretenimento, mesmo que às vezes triste, com os candidatos a atravessarem feiras e mercados, a visitarem lares de idosos, farmácias e empresas más e boas, conforme a ideologia, no meio de muita algazarra e muito disparate. Há sempre um lado inevitável de festa que anima os candidatos mas não altera um milímetro o veredicto dos eleitores. A única diferença é que, desta vez, a festa tem muito menos gente. A explicação é simples: nem PS nem PSD têm candidato próprio, já de si uma anormalidade gritante quando se trata de um Presidente que é eleito por sufrágio universal. É também um aviso de que a democracia portuguesa não está imune à desagregação do sistema partidário, como acontece em muitos países europeus, mesmo que seja à nossa maneira. É isso que também permite uma profusão de candidatos, alguns verdadeiramente impensáveis, que noutra altura não teriam a relevância que têm. Vejamos então as coisas mais de perto, eliminando Tino de Rans ou Paulo Morais, com a sua lengalenga sobre a corrupção que só não é perigosa porque ninguém parece ligar-lhe.

2. Várias vezes, durante os habituais pequenos-almoços que os embaixadores europeus oferecem aos jornalistas quando chegam a Lisboa, me perguntaram o que era aquela missa de domingo de quase uma hora em que um senhor, que sabiam ter sido líder do PSD, passava em revista o estado na nação sem contraditório. Eu lá dava as minhas explicações, falando das características únicas do personagem e também da gigantesca audiência que tinha. O seu segredo era transformar coisas complicadas ou frases feitas numa linguagem simples que toda a gente percebia. Marcelo entrou nesta campanha, impondo-se a Passos Coelho, com essa acumulação única de capital, que se limitou a pôr a render e que lhe garante porventura uma vitória à primeira volta. Os seus adversários, que são todos os outros, tentam desesperadamente fazer valer o seu temperamento irrequieto e volúvel ou as contradições que acumulou ao longo de 30 anos, que são, pelo contrário, um sinal de saúde mental. É difícil. Marcelo continua a dizer o mesmo que alguns deles (Nóvoa ou Belém ou Marisa), mas de uma forma que toda a gente percebe. Não precisa de dizer que vai defender o SNS ou a escola pública, coisas que cabe ao governo decidir. Basta dizer apenas que quer ajudar a sarar as profundas feridas sociais abertas nos últimos quatro anos ou a reunir dois países que o governo anterior virou um contra o outro: velhos contra jovens, funcionários públicos contra trabalhadores do sector privado, etc.. São as suas causas: poucas, simples e adequadas à função. A outra é a estabilidade política, não hesitando em dizer que fará tudo para ajudar o governo a governar, com uma independência que os outros não têm precisamente por ser do PSD. Finalmente, Marcelo tem um empenho particular neste combate. Pertence a uma geração de gente brilhante que marcou a vida do país mais do que ele. Chegou a uma idade em que já não é possível adiar a vontade de deixar, ele também, a sua marca e em que já não tem tempo para tropeçar na sua própria inteligência ou não resistir a uma maldadezinha. Fará o possível por fazer o melhor. No clima de crispação doentia em que o país tem vivido, funciona como um “moderador” da pressão da esquerda sobre o Governo. Ocupa um centro que os últimos quatro anos esvaziaram.

3. Na sexta-feira passada, Manuel Alegre colocou o dedo na ferida, quando avisou, ao lado de Maria de Belém, que o PS já viu este filme e parece que não aprendeu nada com ele. Alegre referia-se às eleições de 1986, as únicas que obrigaram a duas voltas, em que a primeira decidiu o futuro da esquerda na consolidação da democracia portuguesa. Eanes, então Presidente, juntou-se ao PCP para impedir que Mário Soares passasse à segunda volta, o que parecia ser fácil dada a sua total impopularidade à frente do governo do bloco central que teve de pôr as contas do país em dia. Nessa altura, Eanes já tinha uma formação política nova para dar cabo do PS (o PRD), o que quase aconteceu. Escolheu o pior “inimigo” do líder socialista, justamente porque tinha sido seu irmão. Só se enganou sobre quem estava a enfrentar. Sabemos como esta história acabou e sabemos também que ela foi fulcral para a consolidação democrática e para o caminho europeu do país. As palavras de Alegre também ajudaram a decifrar um estranho episódio da campanha de Sampaio da Nóvoa que creio que pouca gente percebeu, a não ser que tinha sido um tiro no pé do candidato. Eanes lembrou-se de dizer que Nóvoa era o candidato que mais se parecia com Cavaco. O que queria dizer era: “que mais se parece comigo, como eu próprio me parecia com Cavaco”. Eanes e Cavaco tiveram em comum uma mesma visão da “regeneração” do sistema por via da “ética” contra os partidos (Eanes) e por via de um discurso antipolítico (Cavaco nos anos 80) explorando a ideia do “deixem-me trabalhar”, profundamente enraizada na mentalidade nacional daquele tempo, ainda formatada pelo molde salazarista.

O problema de Alegre (e de Maria de Belém) é que o país mudou radicalmente, graças à sua pertença à Europa, não havendo agora nada de comum com essa luta fundamental a que se refere. Atravessa uma crise profunda, é verdade, mas terá de resolvê-la no quadro europeu. O que Marcelo pensa da Europa toda a gente sabe. O que pensa Sampaio da Nóvoa, eu ainda não sei. Sei apenas que na sua campanha há muita gente boa, mas há também um núcleo que incluiu uma velha esquerda ressentida, pouco europeia, que vê no candidato a forma de finalmente poder sair do gueto para o qual foi remetida. Há dias, quando Sampaio da Nóvoa foi visitar o comando da NATO em Oeiras (visita obrigatória para mostrar como ama a Aliança Atlântica), ia acompanhado por altas patentes militares na reserva. Cá está uma mãozinha do passado que Alegre denuncia.

O problema é que Maria de Belém não consegue arrancar, mergulhada num discurso que é cada vez mais sem pés nem cabeça e numa atitude defensiva, marcada pela história da sua colaboração com o Espírito Santo Saúde. Precisaria da máquina socialista mas não a tem por culpa própria. Foi ela que escolheu apresentar sua candidatura, por actos e por palavras, contra o primeiro-ministro. Finalmente, o PCP escolheu um candidato que nos obriga a pensar, todos os dias, se o partido de Jerónimo de Sousa está mesmo de boa-fé no seu apoio ao Governo.

4. Nesta confusão, Marcelo tem todas as hipóteses. O seu discurso moderado e simples vai ao encontro de uma vasta faixa de eleitores tradicionalmente do centro que ainda não estão totalmente convencidos da bondade da solução governativa de Costa. Ao contrário de Nóvoa, que se apresenta para virar a página também na presidência, ele representa melhor um país que ainda tem algumas dúvidas sobre essa mudança de página. Tem um inimigo que se chama abstenção à direita, por se ter aproximado tanto do centro. Mesmo assim, as sondagens continuam a ser-lhe favoráveis, o que diz bem da relativa pobreza que reina à sua esquerda e à sua direita. E sabemos outra coisa. Com Marcelo ou Nóvoa, António Costa fica sempre bem.