Aliados da Arábia Saudita rompem com o Irão

Depois de cortar laços diplomáticos com o Irão, sauditas anunciam o fim das relações comerciais e dos voos. Líder do Hezbollah descreve execução do xeque Nimr como “uma mensagem de sangue”.

Protesto contra a Arábia Saudita em Bagdad
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Protesto contra a Arábia Saudita em Bagdad Thaier Al-Sudani/Reuters

Quando o rei Salman tomou posse, há um ano, o analista saudita Aimen Dean escreveu que a Arábia Saudita iria “assumir uma posição mais combativa em relação ao Irão e aos seus aliados”. A 26 de Março, enquanto o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Mohammad Zarif, estava na Suíça a discutir o acordo sobre o programa nuclear iraniano – assinado a 14 de Junho –, aviões sauditas começavam a largar bombas sobre os rebeldes houthis, tribo iemenita de confissão xiita, que Riad acusa Teerão de financiar e controlar.

Apesar das previsões de Dean e de outros analistas, a execução, no sábado, do xeque Nimr, um líder religioso da minoria xiita saudita, apanhou muitos desprevenidos. O mesmo aconteceu com a decisão saudita, domingo, de suspender os laços diplomáticos com o Irão, justificada pelo ataque à embaixada de Riad em Teerão num protesto pela execução de Nimr.

No mesmo dia em que executavam Nimr, os sauditas declararam o fim unilateral do cessar-fogo em vigor no Iémen desde 15 de Dezembro.

“Isto é uma escalada que vai lançar o caos na região”, comentou à Al-Jazira o analista libanês Joseph Kechichian.

Sudão e Bahrein juntaram-se entretanto aos sauditas e anunciaram o corte de relações com o Irão, enquanto os Emirados Árabes Unidos chamaram o seu embaixador em Teerão. Do outro lado, o Governo iraquiano enfrenta pressões para encerrar a embaixada de Riad em Bagdad, reaberta apenas em Dezembro, 25 anos depois de iraquianos e sauditas terem cortado relações, quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait.

Manifestações diante de representações sauditas repetiram-se um pouco por todo o lado onde há grandes comunidades xiitas: de novo no Irão, onde se queimaram bandeiras dos Estados Unidos e de Israel; no Bahrein (onde a maioria xiita é governada por uma família sunita e os protestos foram fortemente reprimidos); no Iraque (único país árabe com um Governo xiita), onde a embaixada foi atingida por um rocket.

Duas mesquitas sunitas no Iraque foram alvo de atentados que fizeram uma vítima mortal e o responsável pelo chamamento para as orações de uma terceira mesquita foi também morto, com Bagdad a acusar “infiltrados” de quererem “reavivar a violência entre xiitas e sunitas” que devastou o país entre 2006 e 2010.

Houve ainda protestos no Líbano, Turquia, Paquistão e na Caxemira indiana, assim como em Qatif, a região do xeque Nimr, onde os seus familiares apelaram à calma.

Em Teerão, os manifestantes também gritaram contra o seu próprio Governo, por terem sido os sauditas, e não os iranianos, a romper os laços diplomáticos.

Os políticos iranianos têm-se mantido controlados nas suas declarações, ao contrário do verdadeiro líder do país, o ayatollah Ali Khamenei, que descreveu Nimr como “um mártir oprimido” e antecipou que “uma vingança divina vai abater-se sobre os políticos sauditas”. No Líbano, o líder do grupo xiita Hezbollah, apoiado por Teerão, afirmou que a morte do xeque saudita é “uma mensagem de sangue”. Os “Saud [nome da família real] querem um conflito sunita-xiita, foram eles que o iniciaram e estão a provocá-lo em todo o lado”, acusa Hassan Nasrallah.

Entretanto, a monarquia saudita fez saber que a suspensão das relações não se fica pela expulsão dos diplomatas: Riad vai cortar todas as relações comerciais e o tráfego aéreo entre os dois países e proibiu os seus cidadãos de viajarem para o Irão. De Teerão já saíram 80 sauditas, diplomatas e seus familiares.

Petróleo e sanções
A luta de poder pela hegemonia regional entre o reino dos santuários do islão, Meca e Medina, e o grande país persa e xiita, é antiga e ambos a travam como se disso dependesse a perpetuidade dos seus próprios regimes autoritários. Teerão, aliás, acusou o rei Salman de executar Nimr, um dos 47 condenados à morte executados no sábado, e cortar os laços com o seu país para distrair os sauditas da situação económica. Em 2014, o lucro obtido com o petróleo diminuiu 23% no país.

“O Irão compromete-se a providenciar segurança diplomática como indicam as convenções internacionais. Mas a Arábia Saudita, que se alimenta de tensões, usou este incidente [o ataque à embaixada] para as aumentar”, afirmou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Hossein Jaberi Ansari.

As divisões entre as duas principais seitas do islão, sunitas e xiitas, não têm parado de crescer no Médio Oriente desde a invasão do Iraque, em 2003. A coligação de nações sunitas que Riad formou para combater os rebeldes iemenitas aumentou ainda mais as tensões – e fez crescer o sectarismo no Iémen, onde nunca tinha havido grandes distinções religiosas.

Alguns analistas acreditam que a atitude saudita tem por objectivo antecipar o levantamento das sanções internacionais, que acontecerá em breve e permitirá ao Irão voltar a exportar petróleo para vários países ocidentais, recuperando assim a sua economia e regressando ao estatuto de potência regional que sempre reclamou. O ideal, para Riad, seria provocar Teerão a fazer algo que pusesse em causa o acordo sobre o seu programa nuclear.

Mesmo descrevendo o ataque à embaixada saudita como “deplorável”, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, considerou “o anúncio do corte de relações com Teerão extremamente preocupante”.

Para além do Iémen, o processo de paz na Síria será com grande probabilidade outra baixa desta escalada regional. Riad e Teerão tinham-se finalmente sentado à mesma mesa a debater a crise síria em Dezembro e deveriam participar nas negociações entre o regime e a oposição com início previsto para 25 de Janeiro. Washington, Berlim, Londres e Paris têm repetido os apelos à calma, mas não se antecipam passos nesse sentido em breve: a pedido de Riad, terça-feira vai realizar-se uma reunião da Liga Árabe sobre “as ingerências do Irão nos assuntos árabes”.