Opinião

Cameron ainda vai conseguir devolver o génio à garrafa?

Para Cameron, uma saída da UE seria um duplo desastre, arriscando-se a ficar na História como o líder britânico que acabou com a Grã-Bretanha.

1. Não foi uma cimeira particularmente produtiva em termos de resultados, a que se realizou no final da semana em Bruxelas. O tema dos refugiados estava em cima da mesa com a urgência que a realidade impõe no curto e no médio prazo. A ideia de que a melhor maneira de salvar Schengen é o reforço das fronteiras externas da União, através de uma força própria e europeia, ganha terreno mas ainda suscita alguma oposição. Há países que ainda rejeitam esta forma de “interferência”. Também continua a ser difícil que toda a gente aceite o critério das quotas, mesmo que, na prática, o que a chanceler alemã pretende seja mais do domínio do simbólico (para acalmar as criticas internas) do que do concreto. Houve certamente uma boa discussão mas, como é costume no modo de funcionamento da União, as duas questões foram adiadas para uma cimeira em Junho do próximo ano. É um adiamento com riscos porque, mesmo que o Inverno retenha os refugiados longe das fronteiras europeias ou a Turquia mantenha no seu território muitos dos que chegam por essa via (a Europa paga-lhe para isso, financeira e politicamente), ninguém garante que, com melhor tempo, a vaga de refugiados não volte a aumentar. Há agora uma pequena luz de esperança para pôr termo à guerra na Síria, acesa no Conselho de Segurança da ONU que adoptou por unanimidade (coisa rara) o plano de paz que os EUA e a Europa querem pôr rapidamente em marcha. Mas o maior problema é que a questão dos imigrantes (refugiados ou não) está a alimentar os partidos populistas e de extrema-direita um pouco por toda a Europa, transformando-se numa questão política central que não pode ficar sem resposta, se quer travar o contágio. O comportamento da Dinamarca é revelador da loucura política dos que querem rivalizar com os partidos xenófobos. Na semana passada, a ideia de ficar com as jóias e o dinheiro dos refugiados para ajudar a financiar a sua instalação causou arrepios. Sobretudo num país que ficou na história da II Guerra como um dos que mais judeus ajudaram a fugir.

2. E isto conduz-nos ao segundo grande tema da cimeira, aliás, um verdadeiro exemplo do risco de contaminação dos extremos na agenda dos governos europeus. Durante 45 minutos David Cameron expôs o seu caso e as medidas que quer negociar com Bruxelas, iniciando uma discussão que durou quatro horas. Depois do debate, o primeiro-ministro britânico anunciou o início de um caminho que poderia levar a bom porto. Os seus pares não o contrariaram e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, referiu também que tinha sido uma boa discussão. Ninguém quer o Reino Unido fora da Europa, a começar por Cameron, que precisa de retomar o controlo de uma aposta política que visava neutralizar os eurocépticos do seu partido e retirar algum terreno ao UKIP de Farage, mas que parece estar a ter o efeito contrário. A grande maioria dos países europeus prefere ter o Reino Unido dentro, na sua tradicional posição de “parceiro relutante”. E não se trata apenas do que significaria a saída de um país que é a segunda economia europeia e que ainda tem um poder militar (e nuclear) que apenas pode rivalizar com a França. Mas não é só isto. Politicamente, uma Europa sem o Reino Unido ficaria coxa, mais “continental” e menos atlântica, desequilibrando a balança em desfavor dos países que têm uma tradição euro-atlântica (da Holanda a Portugal). Angela Merkel precisa dele para apoiar a sua ortodoxia financeira e a negociação de um vasto acordo de comércio e investimento que abranja as duas margens do Atlântico (o chamado TTIP), equilibrando a posição mais renitente da França. E a França, para além da retórica gaulista da “pérfida Albion” descrita como um cavalo de Tróia dos americanos e do liberalismo anglo-saxónico, precisa dele para equilibrar a sua relação com a Alemanha nas questões da segurança e da defesa. Não foi por acaso que os dois países lideraram a intervenção na Líbia.

3. Tudo isto é sabido e indica que a União vai tentar dar a Cameron o que ele precisa para tirar argumentos aos que querem abandonar a Europa, que representam hoje metade do eleitorado. Cameron quer reformas que outros também querem, devolvendo poderes aos Estados-membros e simplificando o funcionamento da União (o governo holandês, por exemplo, defende mais ou menos a mesma coisa). E quer, absolutamente, preservar City de Londres de qualquer decisão da zona euro que a possa prejudicar. Mas o problema maior, do ponto de vista europeu, é que quer retirar aos imigrantes vindos da União Europeia as garantias que hoje têm, graças à liberdade de circulação e à não discriminação. O líder britânico quer aplicar-lhes regras discriminatórias que a lei europeia não permite, nomeadamente impedi-los do acesso à segurança social durante os primeiros quatro anos de permanência.

A questão dos imigrantes europeus apenas se colocou no Reino Unido a partir de 2004, com a adesão de 10 países do Centro e do Leste da Europa. Nessa altura, foram muitos os que rumaram ao Reino Unido, nomeadamente polacos, criando alguma animosidade mas fazendo muito trabalho, e que hoje começam a regressar à Polónia. Agora, os ingleses temem a “invasão” dos romenos ou dos búlgaros, que ainda não se revelou catastrófica. Um estudo recente de dois professores de Oxford, publicado no Guardian, estabelece uma ligação perigosa entre a rejeição dos imigrantes e a rejeição da Europa. Ou seja, quando sobe a rejeição aos imigrantes, sobe na mesma proporção o não à Europa. Desligar esta ligação não será fácil.

Para Cameron a questão é mais simbólica do que real. É verdade que as condições oferecidas pelo Reino Unido aos imigrantes europeus eram (já houve alterações) das mais generosas da Europa. Também é verdade que a entrada de imigrantes no país não tem parado de aumentar, graças também aos efeitos das políticas de austeridade em alguns países europeus, mais afectados pela crise. Mas o desemprego britânico tem vindo a baixar acentuadamente, diminuindo a pressão sobre os alegados postos de trabalho que os imigrantes roubariam. As comunidades islâmicas já lá vivem há muito. Se os imigrantes trabalharem não estão a pesar na segurança social.

4. David Cameron adoptou uma estratégia que lhe pode sair cara. Terá ido longe demais na sua retórica, deixando que a imigração dominasse a opinião dos britânicos sobre a Europa. Deixou sair o génio da garrafa e agora arrisca-se a não conseguir metê-lo de novo lá dentro. Para ele, uma saída seria um duplo desastre, arriscando-se a ficar na História como o líder britânico que acabou com a Grã-Bretanha. A Escócia não perderia a oportunidade de um segundo referendo para poder manter-se na Europa. O Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte passaria a ser da Inglaterra, do País de Gales e da Irlanda do Norte, pelo menos até ver. Além disso, num mundo de gigantes que voltou a ser multipolar, é difícil manter a influência quando se está sozinho. Chris Patten, numa entrevista recente, resumiu a questão numa só frase: “Não conheço na História moderna, nenhum país que tenha decidido passar da primeira divisão para a segunda.” O risco é que, sejam quais forem as concessões obtidas, Cameron pode ter de enfrentar um estado de espírito dos britânicos que, como mostram as sondagens, não estão propriamente nos seus melhores dias. E há ainda outro risco importante ainda que pouco valorizado: no estado em que a Europa se encontra, essa saída alimentaria quase de certeza as tendências centrífugas de outros países europeus.