Ensinar enquanto se contam histórias

Estimula a imaginação, alarga o vocabulário, agiliza o pensamento. Sobre as competências da narração oral se irá falar na conferência Tales: Aprender com as Histórias na Sala de Aula, um projecto europeu apresentado em Beja. Querem que esta prática entre nos currículos formais dos professores

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Daniel Rocha

Um projecto educativo de narração oral mobilizou durante dois anos várias instituições de ensino europeias, integradas no programa da União Europeia Comenius (agora Erasmus+). Áustria, Bélgica, Estónia, Itália, Noruega, Reino Unido e Portugal juntaram-se com o objectivo de divulgar técnicas de narração oral no contexto da sala de aula e de desenvolver metodologias e recursos pedagógicos nesta área.

“Queremos sistematizar o que intuímos há muito tempo. A eficácia da transmissão de conhecimentos através da narração oral. Falta-nos, no entanto, dar o passo de integrar formalmente esta ferramenta nos currículos dos professores”, explica ao PÚBLICO Luís Carmelo, narrador, que faz parte da associação Ouvir e Contar, a parceira portuguesa da iniciativa Tales: Stories for Learning in European Schools.

Durante dois dias (sexta e sábado), a cidade de Beja vai acolher mais de duas centenas de participantes interessados em conhecer os resultados dos projectos-piloto realizados nos diferentes países que integram a investigação (no início da semana havia 250 inscritos, entre portugueses e estrangeiros). “As experiências e os resultados serão partilhados na conferência, de onde sairá um manual que servirá de guião para professores e educadores”, descreve o também investigador no Instituto de Estudos de Tradição Oral da Universidade Nova de Lisboa.

O manual de que fala Carmelo será prefaciado pelo coordenador do projecto, Guy Tilkin, responsável pela programação de um castelo belga (Landcommanderij, Alden Biesen), transformado em centro cultural e onde anualmente acontece o maior festival internacional de narração oral multilingue na Europa.

Este investigador abrirá a conferência, sexta-feira, no Teatro Pax Julia (9h45), com a comunicação “Tales: Key competence development & storytelling in the classroom” (Contos: desenvolvimento de competências essenciais e narração oral na sala de aula).

Aí dará conta de que os “professores, através das histórias e das técnicas de narração oral, introduzem na sala de aula uma ferramenta muito eficaz”. Segundo este especialista, “oferecer conteúdos na forma de narrativa, transformando-os em imagens, aumenta a qualidade do que é transmitido”.

O estímulo de competências como criatividade, diversidade linguística, empatia, alargamento de vocabulário, compreensão oral e escrita e agilidade no pensamento crítico e reflexivo serão competências de que outros conferencistas reconhecidos falarão ao longo destes dois dias em Beja. Com destaque para Jan Blake, narradora britânica que se dedica em particular ao repertório tradicional africano, caribenho e árabe, e que trabalha há mais de 25 anos em contexto escolar, sem nunca deixar de participar em festivais internacionais de narração oral. A sua conferência está marcada para as 14h30 de sexta-feira, sob o tema “Storytelling in the classroom: Building community, Animating literacy” (Narração oral na sala de aula: construir comunidades, estimular a literacia).

Pensamento crítico
Noutro domínio e mais ligada às narrativas para o ensino secundário e superior, Luís Carmelo refere a importância do trabalho e reflexão de outra convidada, Jennifer A. Moon, professora associada da Universidade de Bournemouth (Reino Unido). “Using Stories in Education” (Usar histórias em Educação) será o título da sua comunicação, prevista para as 15h45.

No sábado, esta investigadora orientará ainda uma oficina em que “mostrará como é possível utilizar as histórias no apoio à aprendizagem de capacidades de difícil aquisição, tais como a reflexão e o pensamento crítico, através da técnica de ‘graduated scenarios’. Os participantes serão levados a uma aprendizagem reflexiva com recurso a esta técnica”, explica-se no programa.

Os objectivos de Tales: Aprender com as Histórias na Sala de Aula são, por um lado, sensibilizar educadores, professores e organismos ligados à educação e pedagogia para esta forma eficaz de transmissão de conhecimentos e, por outro, conquistar espaço nos currículos académicos, integrando a narração oral como ferramenta formal dos professores no exercício da sua profissão. “Hoje, a narração oral surge nos currículos mas sempre integrada nas actividades informais, paralelas”, explica Luís Carmelo. São, por assim dizer, vistas como um “extra”. “Falta-nos dar esse passo, o da formalização.”

Cristina Taquelim, narradora e mediadora de leitura da Biblioteca José Saramago (Beja), fala mesmo em “deserto” ao referir-se ao contacto que tem tido com alguns grupos de educadores em formação quanto ao “conhecimento e uso efectivo” de “repertório tradicional, lengalegas, contos ou cantigas de roda”.

A experiência de organização das Palavras Andarilhas desta profissional, que transformou Beja na cidade dos contos, fez com que a associação Ouvir e Contar recorresse à parceria com a Biblioteca José Saramago, ao ver a dimensão do interesse que esta conferência internacional estava a tomar. 

Antes de se dar início ao projecto Tales, já existiam algumas iniciativas neste âmbito nas várias instituições europeias intervenientes, que o grupo designou como “boas práticas”. “O levantamento, relato e sistematização dessas experiências foi o ponto de partida para serem criadas metodologias comuns”, descreve o responsável pela Ouvir e Contar.

Para lá da tradicional narração oral, haverá nesta conferência espaço para o que surge designado no programa como “digital storytelling”, expressão para que ainda não encontraram tradução que lhes agradasse, dizem os organizadores.

Chamemos-lhe “narração em meio virtual”. Trata-se de documentos digitais: “Pequenos filmes que começaram a surgir na última década do século passado. Muitos trabalhos são associados ao pós-guerra, com histórias na primeira pessoa e relatos de experiências traumáticas e violentas”, vai descrevendo Carmelo. E nomeia um dos primeiros casos mais famosos de narração em meio digital, “o vídeo Whales [Baleias] da BBC”.

Para explorar este tema, estão previstas três oficinas no sábado: “Digital stories or learning” (Patricia Huion e Marleen Mesotten, professoras da Universidade Católica de Limburgo, Flandres, Bélgica), às 11h, na Escola Secundária Diogo Gouveia; “Collaborative digital storytelling in the classroom” (Aldo Torrebruno, investigador do Politécnico de Milão), 14h, e “Digital storytelling como ferramenta pedagógica (Carlos Pinheiro, professor bibliotecário do agrupamento de Escolas Leal da Câmara), 14h, ambas no sector multimédia da biblioteca.

Os parceiros do projecto são os já referidos Landcommanderij Alden Biesen (Bélgica) e Ouvir e Contar, Associação de Contadores de Histórias (Portugal) e também Languages Company (Reino Unido), Limburg Catholic University College, Faculty of Education (Flandres), Tallinn University Haapsalu College (Estónia), University of Teacher Education Styria (Áustria) e Politecnico di Milano — HOC-LAB, Department of Electronics and Information (Itália).

Em paralelo à conferência haverá actividades que dão continuidade ao programa de narração oral para jovens e adultos que acontece desde 2002 na cidade. É o programa Mil e Uma Noites, Mil e Uma Histórias, que irá acontecer na escadaria da biblioteca (sexta: 18h30, 21h30, 22h30) e no Museu de Sembrano (sábado: 21h30). “Nestas noites de contos, narradores e ‘ouvidores’ sentam-se em roda, desenham uma fogueira, um círculo mágico onde ressoam as mil e uma histórias que todos temos para contar.”

Porque, dizem os narradores, “somos as nossas histórias”. E a deles não acaba aqui.